Tradução: Iran Filho

A Nova Ciência (de Descartes e da Revolução Científica em geral), também chamada de Visão Recebida, foi estruturada de forma a deslegitimar outros sistemas possíveis de pensamento e exploração. O propósito da rígida contenção desse método era permitir que os cientistas chegassem à verdade de forma mais rápida e eficiente. A crença da ciência moderna em uma única verdade objetiva pode ter resultado no sacrifício de algum conhecimento em áreas relacionadas à ciência e à cosmologia, mas que podem exigir um método de estudo alternativo. Abordarei os métodos científicos não ortodoxos de Johannes Kepler, bem como as dimensões explicitamente mágicas da obra de John Dee, para mostrar como havia muitas áreas de verdade na astronomia e na cosmologia que o racionalismo de Descartes não conseguiu capturar. Explorarei também a questão de se uma revolução no misticismo, na qual ideias, hipóteses e métodos ocultistas eclipsariam os da ciência moderna, teria sido possível durante o Renascimento. As ideias de Kuhn e Cohen sobre como definir uma revolução e como as revoluções funcionam podem revelar algumas comparações importantes entre a ciência e o ocultismo.

Kepler, o Místico

A Revolução Científica do século XVI foi caracterizada por avanços radicais na astronomia e na física, entre outras áreas, mas outro aspecto da Revolução, menos abordado pelos acadêmicos, diz respeito ao que aconteceu nas "disciplinas" místicas, como astrologia, numerologia e hermetismo, disciplinas que existiam no mesmo quadro de referência para muitos estudiosos que as áreas de estudo científico racional/empírico. Juntamente com Kepler e Dee, cientistas como Tycho Brahe, Francis Bacon e até mesmo Isaac Newton se dedicaram a tentar responder a questões cosmológicas cujas respostas não podiam ser encontradas no domínio estritamente racional. As investigações místicas desses cientistas refletem uma abertura e um entusiasmo muito positivos em sua abordagem à resolução de problemas.

O misticismo certamente não se limitava a cientistas inferiores e irracionais. No entanto, a história de Edward Kelley ilustra alguns dos perigos de um paradigma místico que não eram uma preocupação no paradigma da ciência moderna. Kelley foi seguido, nos séculos posteriores, por diversos outros magos e médiuns semelhantes (como o Conde Cagliostro no século XVIII, Aleister Crowley no século XX e John Edward, da televisão, no século XXI), que foram considerados charlatães por alguns historiadores e iconoclastas corajosos por outros. Esse é o problema da falta de falseabilidade no misticismo: nem a teoria nem o teórico são totalmente confiáveis. Falarei mais sobre a história de Kelley e Dee depois de abordar Kepler e a importância de sua obra revolucionária para minha comparação entre ciência e misticismo.

Kepler não era um estudioso do ocultismo, mas se considerava estritamente um matemático e cientista. No entanto, algumas de suas ideias sobre correspondências numéricas são bastante misteriosas, obscuras e não confirmadas por nenhuma fonte além da própria matemática, e algumas de suas hipóteses careciam até mesmo desse grau de respaldo. Kepler não utilizou demonstrações físicas concretas para comprovar suas teorias com a mesma habilidade que Galileu. Hoje, porém, a obra de Kepler é frequentemente estudada por magos do caos e filósofos herméticos. É a compreensão que Kepler tinha da matemática complexa que atrai cientistas modernos e ocultistas para seu trabalho; no século atual, a fé em evidências empíricas e respostas definitivas é menor do que era na época de Kepler e Galileu, quando a "visão aceita" estava se consolidando. Agora questionamos a visão aceita e examinamos alternativas como a teoria dos paradigmas de Kuhn, o falsificacionismo de Popper e o modelo relativista de Barnes, Bloor e Henry.

Teoria da Magia do Caos

Para o mago do caos, cuja perspectiva filosófica deriva de uma combinação da teoria da relatividade de Einstein, da política anarquista e de várias fontes de crítica desconstrutivista, uma demonstração que supostamente comprova a validade de uma lei científica não é suficiente para persuadi-lo a aceitar a lei como universal e objetivamente verdadeira. Presume-se que a demonstração foi construída para se adequar às regras daquele paradigma científico específico, independentemente de o cientista estar ciente ou não de que opera dentro desse paradigma. Construções concebidas para se adequarem a um paradigma científico resultam em pseudoconhecimento iatrogênico, vendido pela autoridade do Cientista, em vez da descoberta genuína de verdades científicas. A teoria da magia do caos é um paradigma de rejeição de paradigmas abrangentes, uma contradição que não abordarei neste momento, pois não é o tema deste artigo e é um problema que requer uma discussão mais aprofundada. No entanto, acredito que a teoria da magia do caos oferece uma perspectiva interessante para avaliar paradigmas científicos, particularmente a visão estabelecida. A seguinte citação é de um mago do caos:
“O mago do caos adota o sistema de crenças necessário para obter os resultados desejados. À medida que o mago do caos se desenvolve dentro desse sistema, ele ou ela adicionará elementos de outros paradigmas. Por outro lado, o mago do caos também ignorará ou “excluirá” elementos do paradigma que sejam ‘bobagens’ espirituais ou que não produzam os resultados desejados. Os magos do caos podem praticar as técnicas da magia do caos, mas devem fazê-lo dentro de um paradigma específico, o que significa, em linhas gerais, que um mago do caos deve acreditar em algo para obter resultados. No que especificamente o mago do caos acredita é inteiramente decisão dele.”
Dentro dessa perspectiva aberta, os magos do caos veem os cientistas como excessivamente rígidos em sua adesão a um único paradigma. Eles veem os cientistas fazendo o mesmo que os magos, escolhendo qualquer demonstração que seja "necessária para obter os resultados desejados", o que para os cientistas é o resultado de provar a realidade da doutrina de seu paradigma, mas os cientistas fazem isso sem reconhecer que estão fazendo uma escolha. Kepler foi um cientista que por vezes se desviou do paradigma do método científico empírico/racional estrito; seu objetivo ao fazê-lo era descobrir verdades sobre o funcionamento do universo, não produzir trabalhos mágicos, mas sua tendência a transitar entre diferentes paradigmas é apoiada pela doutrina pós-moderna do mago do caos. Tycho Brahe, a principal influência de Kepler, também aceitava fenômenos aparentemente misteriosos como tendo potencial significado científico. Brahe dedicou-se ao estudo dos cometas, enquanto Galileu descartava sua importância cosmológica.

Concordo com a avaliação de Cohen sobre Kepler como uma figura enigmática de sua época. Acho Kepler interessante porque ele era curioso sobre o misticismo da matemática sem ter cultivado explicitamente uma aprovação. da teoria mística como um caminho válido para o conhecimento. Outros cientistas, como Dee e Bruno, estavam envolvidos com o ocultismo por admissão própria, enquanto Galileu e Bacon eram erroneamente considerados como tendo sistemas de pensamento místicos ou conexões com sociedades secretas. Parece que muitas figuras revolucionárias na ciência se encaixam em uma das duas categorias que acabei de mencionar, e Kepler, em contraste, estava em algum lugar entre elas. Sua formação calvinista provavelmente o desencorajou de abraçar oficialmente os estudos místicos, assim como seu forte compromisso com o racionalismo. Seus escritos, no entanto, desafiavam a navalha de Occam e outras regras de método; ele era prolixo, obscuro e carecia de documentação empírica de fenômenos físicos.

As demonstrações de Kepler geralmente assumiam a forma de equações matemáticas complexas que eram impossíveis de reconhecer como tendo qualquer significado científico. A descoberta das órbitas elípticas e sua terceira lei do movimento planetário, exceções à regra da obscuridade matemática na obra de Kepler, foram suas principais realizações e contribuições para a teoria copernicana, embora a elipse representasse um desafio para a teoria. O princípio básico do sistema copernicano era o das órbitas circulares. Brahe, que precedeu Kepler na investigação das forças celestes, apoiava o sistema ptolomaico, e Cohen comenta que Kepler "descartou todos os axiomas copernicanos, exceto os dois mais gerais: que o Sol permanece imóvel e que a Terra gira e orbita". Não é certo que Kepler teria sido reconhecido como um cientista revolucionário se suas teorias não tivessem sido efetivamente decifradas por Newton.

Mas, apesar da evidente inclinação mística de Kepler e de sua crença em uma ampla harmonia cosmológica que poderia ser revelada pela matemática, na história da ciência ele se qualifica como um pensador revolucionário muito significativo. Suspeito que isso se deva ao fato de Kepler nunca ter cruzado a linha para estudos explicitamente ocultistas, permanecendo fiel à ciência e à sua educação protestante. A consequência mais negativa do estilo enigmático de Kepler foi que suas ideias foram desconsideradas por seu contemporâneo mais focado, Galileu, que poderia ter traduzido as teorias válidas de Kepler em demonstrações físicas abrangentes se as tivesse levado a sério. Talvez Galileu, um católico devoto, tenha permitido que sua avaliação científica fosse eclipsada por preocupações religiosas sobre a natureza mística da hipótese de Kepler sobre forças físicas invisíveis. Pode-se concluir, a partir da precisão da Terceira Lei do Movimento Planetário, que algumas ideias só parecem não falseáveis ​​devido à falta de refinamento e comunicação eficaz por parte do teórico, algo que Newton posteriormente corrigiu. fornecido para remover o véu de misticismo das leis das forças de Kepler.

Hermética

Nem todas as teorias misteriosas são ciência disfarçada de misticismo. Os verdadeiros ocultistas se definem por sua orientação primordial para fenômenos não falseáveis ​​fora do âmbito da experiência física. Durante o Renascimento, diferentemente do período contemporâneo, os místicos também podiam ser respeitados, em certa medida, como cientistas racionais. Havia uma sobreposição significativa entre magia e ciência no hermetismo, uma estrutura para o estudo do universo que derivou dos ensinamentos de Hermes Trismegisto e foi traduzida pela primeira vez no século XIV como um documento chamado "Hermética". A Hermética incentivava o ceticismo religioso e a avaliação independente das escrituras, uma perspectiva que muitas vezes concorda com a ciência moderna. Embora os hermetistas tendessem a rejeitar a perspectiva científica em favor do misticismo, muitos temas dentro do hermetismo coincidiam com a ciência do século XVI, particularmente a crença na harmonia e nos padrões matemáticos nos céus.

O hermetismo é um sistema de crenças e uma prática intelectual da tradição platônica que envolve encontrar poder na natureza e expandi-lo em um processo de contribuição para a criação do mundo natural. A hermetismo ensina o conceito de que os magos humanos podem se reunir com Deus através da compreensão, apreciação e domínio da natureza. Copérnico, em De Revolutionibus, citou Hermes Trismegestro em diversos pontos para apoiar sua hipótese. Áreas de estudo mágico dentro da hermetismo incluem astrologia, tarô, alquimia e tabelas numerológicas de correspondência, semelhantes a alguns dos trabalhos de Kepler. Giordano Bruno se dedicou ao hermetismo e, assim como Kepler e Dee, apoiou a hipótese copernicana. Ele foi criado no calvinismo, assim como Kepler. Mas Bruno se rebelou contra o calvinismo e se lançou nos estudos do ocultismo. Ele não foi tão cuidadoso quanto outros cientistas e ocultistas da época em se autocensurar, considerando o perigo representado pelo poder da Igreja Católica, e foi queimado na fogueira em 1600.

John Dee foi astrólogo, mago na tradição hermética, astrônomo, matemático, teólogo e, eventualmente, ostracizado como feiticeiro. Dee destacou-se por estudar uma ampla gama de assuntos no verdadeiro espírito do Renascimento. Sua crença em um universo heliocêntrico baseava-se em parte no conhecimento do culto ao sol em sociedades pagãs, que ele considerava uma evidência da centralidade do sol. A historiadora do ocultismo Frances Yates sugere que o sensacionalismo místico e o sucesso matemático se complementavam para Dee, uma visão que pode derivar de seus estudos sobre a Cabala cristã, na qual a matemática é imbuída de significado espiritual. As contribuições de Dee para a ciência poderiam ter sido mais numerosas e significativas se ele não tivesse sido influenciado pelo ocultista e autoproclamado médium Edward Kelley. A associação com Kelley, o espiritualismo e os rumores de demonolatria destruíram a reputação científica de Dee.

Kelley convenceu Dee a desviar sua atenção da experimentação científica para o mundo espiritual, com o qual Kelley supostamente mantinha contato próximo e que tinha muitas informações para comunicar a Dee por meio dele. Os espíritos transmitiam obscuridades filosóficas e diretrizes sem qualquer comprovação de legitimidade além da origem celestial. Um desses conselhos foi que Dee e Kelley deveriam trocar de esposas para algum propósito cosmológico superior. Com a permissão de seu colega influenciável, Kelley dormiu com a atraente esposa de Dee em um golpe que desonrou todo o campo dos estudos místicos. O sistema de falsificacionismo de Karl Popper exige que uma teoria tenha uma base empírica suficiente para que possa ser comprovada como falsa, e qualquer hipótese que falhe nesse teste não é uma possibilidade válida. Este é um desafio sério para as disciplinas místicas e aponta para a importância da confiabilidade e coerência demonstradas em uma teoria para que ela se distinga de uma fantasia ou mentira. O teste de falsificação é valioso em casos onde há suspeita de fraude, ou onde se deveria suspeitar dela.

Contudo, é possível argumentar que algumas crenças classificadas como mágicas podem ser refutadas. Por exemplo, observa-se comumente que diversos sistemas mágicos “funcionam” melhor no contexto da cultura da qual se originam, sugerindo um mecanismo psicológico na magia que opera sobre os valores e medos comuns de uma cultura específica. Portanto, um feitiço vodu usando um objeto representativo da vítima pretendida (isto é, uma boneca ou uma fotografia) pode ser bastante prejudicial a um cidadão africano que acredita em seu poder e que provavelmente consegue captar sugestões sutis de outras pessoas que conhecem o feitiço. O alvo do feitiço começará a experimentar maior vulnerabilidade e talvez adoeça. Um cidadão europeu, no entanto, tem menos probabilidade de sofrer se for alvo de um feitiço, porque o sistema cultural que favorece o processo de feitiçaria não está presente no ambiente europeu. Na África, então, o sistema de crenças do vodu tem uma base empírica na eficácia dos feitiços e, talvez por isso, possa ser refutado.

Há outra maneira pela qual a magia se assemelha à ciência. Descartes se reviraria no túmulo, mas acredito que sua afirmação no Discurso sobre o Método, de que a ciência deveria ser útil para nos ajudar a obter poder sobre o ambiente ao nosso redor, é comparável ao princípio por trás das práticas mágicas de cura, destruição e outras formas de manipulação. Voltando a Kelley, então, já que sua manipulação de John Dee foi bem-sucedida em seu objetivo de alcançar a esposa de Dee para a satisfação da luxúria de Kelley, esse trabalho como um suposto médium contribuiu para o poder de Kelley e é tão valioso, dessa perspectiva, quanto qualquer empreendimento científico que produza resultados desejáveis ​​para o cientista. Claro, esta é uma comparação extremamente limitada que não considera a confiabilidade do método ou as diretrizes éticas, mas mostra como mágicos e cientistas podem parecer semelhantes de uma perspectiva orientada para objetivos. Se o misticismo é o paradigma para as práticas mágicas, ele funciona para a magia como o racionalismo funciona para a aplicação de procedimentos científicos. Esta afirmação requer um esclarecimento sobre o que é misticismo e como ele se traduz em método.

Os místicos se baseiam na intuição e em fatores subconscientes para adquirir informações e efetuar mudanças. Por vezes, a intuição manifesta-se como poder psíquico individual, mas a maioria das formas de magia utiliza a tradição e o ritual como principais técnicas. Na medida em que a magia depende da tradição para a sua eficácia, uma revolução na magia torna-se improvável, pois durante uma revolução a tradição estabelecida numa disciplina perde a sua autoridade e tem de ser rejeitada. A magia utiliza ferramentas tradicionais ancestrais que representam os quatro elementos da natureza com o objetivo de manter a poderosa ligação com a natureza alcançada pelos primeiros magos. Contudo, a tecnologia moderna tem vindo a influenciar a magia, como se pode constatar pelos inúmeros websites e salas de chat na internet dedicados a todos os tipos imagináveis ​​de práticas mágicas. Ferramentas tecnológicas modernas como videoteipe, sistemas de som e lasers estão a ajudar a magia a evoluir e a tornar-se mais flexível, dinâmica e espontânea. Culturalmente, a evolução da magia assemelha-se mais aos padrões sociais de progresso do que aos científicos, com a possível exceção do crescimento simultâneo da teoria da relatividade e da magia do caos. No entanto, a mudança social influencia sempre a ciência, criando uma ligação tríplice entre a revisão de teorias e perspetivas na cultura, na ciência e na magia.

O filósofo Thomas Kuhn estava muito consciente da necessidade de examinar os fatores culturais e históricos, bem como a ciência rigorosa de uma hipótese revolucionária. Kuhn escreveu em resposta a outras teorias sobre revoluções na ciência, nomeadamente a visão tradicional e o falsificacionismo de Popper. O falsificacionismo questionava a possibilidade de uma verdade absoluta, mas ditava que todas as teorias deveriam ser comprovadas como falsas até que restasse apenas a menos falsa, e que parte da validade de uma teoria era julgada pela sua capacidade de ser falsificada. Ou seja, se uma teoria não pudesse ser falsificada, ela sequer teria chances de ser aceita pela maioria. O problema do falsificacionismo é que ele não oferece um modelo realista de revolução. Em contraste, Kuhn percebeu um padrão na história das revoluções e desenvolveu uma teoria sobre a mudança de paradigmas no que é aceito como ciência válida. Ele chegou à conclusão de que nenhum paradigma na história das visões tradicionais é melhor do que qualquer outro. Isso ocorre porque os paradigmas não podem ser avaliados fora de seu contexto cultural e histórico, o que Kuhn considerava muito significativo.

Kuhn e Cohen sobre uma hipotética revolução no misticismo

O sistema de paradigmas de Kuhn é composto por um período de estabilidade, denominado "ciência normal", seguido por uma crise de perspectiva, quando um número crescente de anomalias se apresenta diante do que a ciência normal dita ser a verdade. Há pontos de vista opostos competindo entre si pela crença (e talvez pela fé) da maioria. A crise leva a uma resolução na qual um paradigma alternativo emerge e é apoiado por uma parcela suficiente da comunidade científica para ser aceito no lugar da ciência normal anterior. Esse paradigma substituto caracteriza então a próxima fase da ciência normal. O conceito de Kuhn de que a ciência normal é redefinida repetidamente de acordo com os valores e a orientação da cultura vigente sugere que ele poderia acreditar na possibilidade de uma revolução mística, caso o misticismo conquistasse o apoio da maioria dos intelectuais.

A opinião de Kuhn sobre a possibilidade de uma revolução mística não me interessa tanto quanto a sua conclusão caso essa revolução de fato ocorresse. Nesse cenário hipotético, parece improvável que Kuhn designasse o misticismo como o novo paradigma da ciência normal, pois a falta de falseabilidade do misticismo provavelmente o desqualifica como uma forma de ciência. Kuhn parece não ter considerado possível que a sociedade entrasse em um segundo período de "presciência"; esse termo em si indica a crença de Kuhn de que sistemas de conhecimento amplamente aceitos (do universo e dos processos naturais), além da ciência, se extinguiram após a Revolução Científica. Creio que Kuhn provavelmente está certo ao presumir que todos os paradigmas futuros estarão dentro dos parâmetros da ciência, mas, na improvável hipótese de alguém como Edward Kelley enganar toda a sociedade simultaneamente usando o método que foi tão eficaz com John Dee, Kuhn seria incapaz de explicar como isso poderia ter acontecido.

Talvez Cohen pudesse fornecer tal explicação. A avaliação de Cohen sobre a teoria paradigmática das revoluções de Kuhn concentra-se na experiência de conversão e na mudança de gestalt como conceitos importantes. Cohen vê a conversão (da crença em um sistema científico estabelecido para a crença em um programa de pesquisa completamente diferente) como comparável a uma experiência religiosa. A versão de Cohen de revolução por meio da conversão não é gradual de forma alguma, ao contrário da ciência normal de Kuhn e das anomalias opostas que ganham força ao longo do tempo e eventualmente levam a uma crise na ciência. Na visão de Cohen, não há competição entre teorias potencialmente revolucionárias, mas uma única conversão de iluminação radical que resulta em uma nova ciência. Qualquer coisa diferente dessa conversão radical não é revolução, mas meramente uma série de avanços que são melhor caracterizados como evolução. A experiência de conversão resulta das descobertas de cientistas extraordinários que introduzem teorias que não estão conectadas a nenhum paradigma científico previamente estabelecido.

À primeira vista, pode parecer que a visão de Cohen poderia fornecer uma estrutura para a compreensão da hipotética revolução no misticismo, porque ele relaciona o processo de revolução na ciência a uma experiência geralmente classificada como religiosa, que poderia ser comparada a uma experiência mística. No entanto, uma revolução caracterizada pela experiência de conversão religiosa ou mesmo mística da sociedade intelectual não é a mesma coisa que uma revolução no misticismo. Se essa revolução ocorresse de acordo com a teoria de Cohen, com um grande número de pessoas repentinamente vislumbrando um novo e brilhante sistema de filosofia mística, provavelmente seria um evento de alto risco. Os convertidos não teriam essa experiência baseada em uma compreensão clara de processos racionais e empíricos, resultando em uma onda de entusiasmo intelectual como ocorreria em uma revolução científica.

A razão para isso é o que mencionei anteriormente sobre como o misticismo funciona principalmente por meio da intuição, do ritual e do carisma (de uma figura de liderança), com a razão e a observação desempenhando um papel secundário. Portanto, se uma revolução no misticismo ocorresse na estrutura de Cohen, a revelação repentina de novas ideias teria que vir de um mago com habilidades intuitivas e carisma excepcionais, que provavelmente alcançaria a conversão de outros, cativando-os com seu estilo único. Isso já aconteceu antes, é claro, muitas vezes na história da religião e da política ocidental, como podemos observar nos exemplos de Cristo, Martin Luther King Jr., Marx, Stalin, Hitler e outros. Os dois últimos exemplos que apresento aqui são de ditadores destrutivos, o que nunca é um desenvolvimento inconcebível em revoluções culturais que ocorrem da maneira descrita por Cohen. Há tanto entusiasmo quanto risco extraordinários em uma sociedade que segue um líder carismático e radical.

Acredito que o conceito de Cohen sobre como as revoluções geralmente ocorrem seja preciso, mas talvez não seja suficiente para explicar a Revolução Científica em particular, porque figuras radicais na ciência não exercem a mesma influência política direta sobre a sociedade que os radicais dos movimentos culturais. Cientistas individuais podem ser carismáticos e criativos, mas não costumam cativar a sociedade (ou mesmo os intelectuais) com suas hipóteses. Galileu e Einstein podem ter alcançado esse nível de influência pessoal, mas ambos tinham um bom senso de política e influência social, além de serem cientistas brilhantes. Kepler, por outro lado, não conquistou adeptos com sua personalidade peculiar e pode até ter comprometido sua credibilidade como cientista com sua impenetrabilidade como figura pública. Se Edward Kelley tivesse alcançado ampla influência, imagino que o resultado seria muita confusão social e pouco progresso tanto no misticismo quanto na ciência.

Tenho uma visão otimista da compatibilidade entre ciência e misticismo que pode ser semelhante aos pensamentos de Galileu sobre ciência e catolicismo. Eu não tentaria usar a teoria mágica como evidência científica ou a ciência para apoiar a doutrina do misticismo, mas estabeleci alguns paralelos gerais entre as duas estruturas em relação aos objetivos finais e ao método empírico. Espero que os praticantes da magia do caos continuem a investigar áreas tradicionalmente reservadas a cientistas e filósofos acadêmicos e que possam aprender com os acadêmicos em vez de rejeitar completamente o pensamento dominante. Quanto aos cientistas, acredito que eles têm a obrigação, para com o racionalismo de seu próprio campo, de não julgar uma área específica do misticismo como desonrosa ou frívola antes de terem aprendido tudo o que puderem sobre ela. A ignorância leva à má ciência.

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