Autor: Noel B. Saenz
Tradução: David Ribeiro

Resumo

Pruss e Rasmussen (2018) apresentam um argumento a favor de um ser necessário utilizando um princípio causal modesto. Aqui, observo que, quando aplicado a questões altamente gerais e fundamentais, tal princípio pode muito bem ser falso (ou, pelo menos, não tão óbvio).

1. O Princípio W

Argumentos que partem da contingência de algumas coisas para a existência de um ser necessário baseiam-se em princípios causais de variada força. O desafio consiste em encontrar o princípio causal mais fraco(*weak*) possível que conduza a um ser concreto necessário. Pruss e Rasmussen (2018: Cap. 5) apresentam um argumento que utiliza o que parece ser tal princípio. Eles denominam o argumento de "Argumento Fraco a partir de Inícios" e o princípio nele empregado de "princípio causal muito fraco" (o Princípio W). Eis o princípio:

O Princípio W. Normalmente, para qualquer propriedade F, se

(i)   F pode começar a ser exemplificada,

(ii)  F pode ter instâncias que possuem uma causa,

(iii) F é básica ou uma determinada de uma propriedade básica e

(iv) existe uma determinada de F que pode ser causada a existir

então pode haver uma causa para a exemplificação de F.

Pruss e Rasmussen fornecem três esclarecimentos e uma condição. Primeiro, uma propriedade começa a ser exemplificada se, e somente se, sua exemplificação estiver restrita a um intervalo de tempo finito na direção do passado (95). Segundo, "pode" expressa possibilidade metafísica (96). Terceiro, F é básica se, e somente se, for possível compreender F sem, com isso, compreender outras propriedades ou relações (97). E quarto, uma condição de não circularidade: se x causa a exemplificação de F, então x não é F — ou, pelo menos, não é F imediatamente antes da exemplificação de F (95).

Ora, a partir da afirmação modal aparentemente modesta de que

a contingência pode começar a ser exemplificada,

Pruss e Rasmussen empregam o Princípio W para argumentar que existe uma coisa concreta necessária (sendo que, por "concreto", Pruss e Rasmussen (2) entendem "capaz de causar", de modo que, se algo é concreto, então possivelmente causa algo). Eis o argumento deles. Dada a afirmação modal acima e o fato de que a contingência pode ter instâncias que possuem uma causa (segundo Pruss e Rasmussen, você e eu somos um exemplo), de que ela é uma propriedade básica ou um determinado de uma propriedade básica (segundo Pruss e Rasmussen, é um determinado da existência) e de que ser um ser humano contingente é um determinado da contingência e pode ter sua instanciação causada (segundo Pruss e Rasmussen, sua instanciação foi causada por nosso ancestral), segue-se — de modo refutável — do Princípio W que pode haver uma causa para a instanciação da contingência. Pela condição de não circularidade, tal causa não instanciaria a contingência e, portanto, seria uma coisa concreta necessária (concreta por ser uma causa). Possivelmente, então, existe uma coisa concreta necessária. Mas, se possivelmente existe uma coisa concreta necessária, então existe uma coisa concreta necessária. E assim — ou é o que afirma o Argumento Fraco a partir dos Inícios —, existe uma coisa concreta necessária.

2. Consequências do Princípio W

A afirmação modal acima não é a única que podemos aplicar ao Princípio W. Existem outras afirmações modais aparentemente modestas. E elas também acarretam resultados bastante surpreendentes, se não problemáticos. Eis as afirmações modais:

a simplicidade mereológica pode começar a ser exemplificada;

a individualidade pode começar a ser exemplificada;

a imperfeição pode começar a ser exemplificada;

a atualidade pode começar a ser exemplificada;

a existência pode começar a ser exemplificada;

a concretude pode começar a ser exemplificada.1

Por que essas afirmações modais são aparentemente modestas? Porque negar qualquer uma delas equivale a afirmar uma instância do seguinte: necessariamente, se F é exemplificado, então F foi exemplificado eternamente ou é exemplificado atemporalmente. Tomemos a concretude. Se ela não pode começar a ser exemplificada, então, necessariamente, se ela é exemplificada, então foi exemplificada eternamente ou é exemplificada atemporalmente. Mas essa é uma afirmação forte.2

Empregando o raciocínio utilizado no Argumento Fraco a partir dos Inícios, utilizemos a primeira das afirmações acima: a simplicidade pode começar a ser exemplificada.3 Dado isso — e considerando que a simplicidade pode ter instâncias que possuem uma causa (possivelmente, existe um elétron que possui uma causa), que ela é um determinado de uma propriedade básica (é um determinado da existência) e que ser um elétron simples é um determinado da simplicidade e pode ter sua exemplificação causada, o que parece plausível —, segue-se, de modo refutável, a partir do Princípio W, que pode haver uma causa para a exemplificação da simplicidade. Pela condição de não circularidade, tal causa não exemplificaria a simplicidade e, portanto, seria mereologicamente complexa. Possivelmente, então, existe uma coisa complexa. E, assim, possivelmente, o niilismo mereológico é falso. Mas, se é possivelmente falso, então é falso (o niilismo não é uma tese contingente).4

Utilizemos a segunda das afirmações acima: a individualidade pode começar a ser exemplificada. Considerando isso e o fato de que a individualidade pode ter instâncias que possuem uma causa (você e eu), de que ela é um determinado de uma propriedade básica (é um determinado da existência) e de que ser um humano individual é um determinado da individualidade e pode ter sua instanciação causada (ela teve sua instanciação causada por nossos ancestrais), segue-se — de modo refutável — do Princípio W que pode haver uma causa para a instanciação da individualidade. Pela condição de não circularidade, tal causa não instanciaria a individualidade e, portanto, seria um não-individuo e, consequentemente, uma propriedade. Possivelmente, então, uma propriedade causa algo. E assim, possivelmente, tanto o platonismo quanto o nominalismo são falsos. Mas, se são possivelmente falsos, então são falsos (nem o platonismo nem o nominalismo são teses contingentes).

Utilizemos a terceira das afirmações acima: a imperfeição pode começar a ser instanciada. Considerando isso e o fato de que a imperfeição pode ter instâncias que possuem uma causa (você e eu), de que ela é um determinado de uma propriedade básica (é um determinado da existência) e de que ser um humano imperfeito é um determinado da imperfeição e pode ter sua instanciação causada (ela teve sua instanciação causada por nossos ancestrais), segue-se — de modo refutável — do Princípio W que pode haver uma causa para a instanciação da imperfeição. Pela condição de não circularidade, tal causa não instanciaria a imperfeição e, portanto, seria perfeita. Possivelmente, então, existe um ser perfeito. Assumindo, como muitos fazem, que se a perfeição é possivelmente instanciada, então ela é necessariamente instanciada (pense aqui no argumento ontológico modal para a existência de Deus), a perfeição é instanciada. Existe um ser perfeito. (Este é um argumento cosmo-ontológico!)

Utilizemos a quarta das afirmações acima: a atualidade pode começar a ser instanciada. Considerando isso e o fato de que a atualidade pode ter instâncias que possuem uma causa (você e eu), de que ela é uma propriedade básica e de que ser um humano atual é um determinado da atualidade e pode ter sua instanciação causada (ela teve sua instanciação causada por nossos ancestrais), segue-se — de modo refutável — do Princípio W que pode haver uma causa para a instanciação da atualidade. Pela condição de não circularidade, tal causa não exemplificaria a atualidade e, portanto, seria não-atual. É possível, então, que exista algo não-atual. E, assim, é possível que o atualismo seja falso. Mas, se é possivelmente falso, então é falso (o atualismo não é uma tese contingente).

Utilizemos a quinta das afirmações acima: a existência pode começar a ser exemplificada. Dado isso — e considerando que a existência pode ter instâncias que possuem uma causa (você e eu), que ela é uma propriedade básica, que ser um ser humano existente é uma determinação da existência e que sua exemplificação pode ser causada (ela foi causada pelos nossos ancestrais) —, decorre de modo refutável, a partir do Princípio W, que pode haver uma causa para a exemplificação da existência. Pela condição de não circularidade, tal causa não exemplificaria a existência e, portanto, seria inexistente. É possível, então, que exista algo inexistente!

Por fim, utilizemos a última das afirmações acima: a concretude pode começar a ser exemplificada. Dado isso — e considerando que a concretude pode ter instâncias que possuem uma causa (você e eu), que ela é uma propriedade básica ou um determinado de uma propriedade básica (é um determinado da existência), e que ser um humano concreto é um determinado da concretude e pode ter sua exemplificação causada (foi causada por nossos ancestrais) —, segue-se, de modo refutável, a partir do Princípio W, que pode haver uma causa para a exemplificação da concretude. Pela condição de não circularidade, tal causa não exemplificaria a concretude e, portanto, seria acausal. Possivelmente, então, algo acausal causa alguma coisa!

Este último caso (e talvez o anterior) é particularmente notável. Pruss e Rasmussen (104) afirmam que a contingência é semelhante a outras propriedades passíveis de causa, na medida em que satisfaz todas as quatro condições do Princípio W e não existem casos claros de propriedades que atendam a essas condições sem serem passíveis de causa. Mas parece haver um caso assim. Pois a concretude parece satisfazer essas condições, mas — sob pena de algo acausal causar algo de modo absurdo — não pode ser passível de causa.

3. O status do Princípio W

Dadas as nossas modestas afirmações modais, eis as consequências refutáveis ​​do Princípio W mencionadas acima (incluindo aquela derivada do Argumento Fraco a partir dos Inícios):

existe um ser concreto necessário;

o niilismo mereológico é falso;

o platonismo e o nominalismo são falsos;

existe um ser perfeito;

o atualismo é falso;

possivelmente, existe algo inexistente;

possivelmente, algo acausal causa alguma coisa.5

O defensor do Princípio W tem uma escolha: ou esse princípio se aplica a cada uma das propriedades relevantes — contingência, simplicidade, individualidade, imperfeição, atualidade, existência, concretude — ou não se aplica. Se se aplica, então não apenas existe um ser concreto necessário, mas também se sustentam as demais consequências mencionadas acima. (E tudo isso com base em um princípio causal altamente restrito!) Se isso não ocorrer (como parece ser o caso, visto que nada que não existe pode existir e nada acausal pode causar algo), então pelo menos uma de nossas modestas afirmações modais, listadas anteriormente, é falsa.6 Ora, isso acontece ou porque todas são falsas ou porque apenas algumas o são. Se todas forem falsas, então o princípio perdeu sua atual relevância filosófica (o Argumento Fraco a partir dos Inícios passa a ter uma premissa falsa). Se apenas algumas o forem, então precisamos de uma razão não *ad hoc* para pensar assim. O que há em algumas dessas propriedades (a contingência, por exemplo) que explica por que elas — e não as outras — podem começar a ser exemplificadas?

Aqui, uma antiga objeção ganha força: temos um princípio causal em um argumento cosmológico que, quando aplicado a fenômenos cotidianos, parece verdadeiro, mas que, ao ser aplicado a questões altamente gerais e fundamentais, começa a parecer suspeito (ou, pelo menos, não tão óbvio).7

 

Notas

1 Eis outras alegações modais às quais podemos recorrer: a temporalidade, a particularidade, a atualidade (ou o caráter de presente), a realidade, a consciência, a bondade e a racionalidade podem, cada uma, começar a ser exemplificadas. E, assim como ocorre com aquelas presentes no texto principal, recorrer a essas alegações também gera resultados surpreendentes — se não indesejáveis.

2 A maioria dessas alegações modais implica a falsidade do teísmo clássico. Isso depõe contra a sua modéstia? Não, uma vez que o teísmo clássico é extremamente imodesto: segundo ele, existe necessariamente um ser eterno, simples, particular e concreto. Visto que o fato de uma alegação entrar em conflito com uma alegação imodesta não depõe contra a sua modéstia, o conflito dessas alegações com o teísmo clássico também não depõe contra a modéstia delas.

3 Suponha que alguém considere a existência de objetos abstratos simples. Nesse caso, a exemplificação da simplicidade não se restringiria a um intervalo finito de tempo no passado, pois ela seria exemplificada por coisas abstratas — e, portanto, atemporais. Aqui, então, não se deve recorrer à simplicidade, mas sim à propriedade conjuntiva "simplicidade e concretude" (Pruss e Rasmussen (100, nota de rodapé 5) não veem problema em recorrer a propriedades conjuntivas dessa maneira). Isso evita a dificuldade apontada. Além disso, essa estratégia é passível de generalização. Se você acredita na existência de objetos abstratos individuais, imperfeitos, atuais ou existentes, então deve recorrer, mais adiante, às propriedades conjuntivas "individualidade e concretude", "imperfeição e concretude", "atualidade e concretude" ou "existência e concretude".

4 Se recorrêssemos à propriedade conjuntiva "simplicidade e concretude", então, em virtude da condição de não circularidade, tal causa não exemplificaria a simplicidade e a concretude; consequentemente, ela seria complexa ou não concreta. Se não fosse concreta, teríamos, possivelmente, uma coisa acausal causando algo! Se fosse complexa, então o niilismo mereológico seria possivelmente falso — e, portanto, falso. Resultados da mesma natureza aplicam-se quando recorremos às propriedades conjuntivas "individualidade e concretude", "imperfeição e concretude", "atualidade e concretude" e "existência e concretude".

5 As consequências são, na verdade, mais fortes. Por exemplo, dado o Princípio W, o que nos levou à rejeição do niilismo mereológico, do platonismo e do nominalismo foi a ideia de que, possivelmente, existe uma causa para a exemplificação da simplicidade e que, possivelmente, existe uma causa para a exemplificação da individualidade. No entanto, sendo teístas clássicos, Pruss e Rasmussen sustentam que a simplicidade e a individualidade de Deus são, necessariamente, não causadas. Assim, Pruss e Rasmussen comprometem-se a negar essas consequências modais do Princípio W. E eles se comprometem a negá-las mesmo considerando falsos o niilismo mereológico, o platonismo e o nominalismo.

6 Poder-se-ia argumentar que o Princípio W não se aplica a todas essas propriedades, sustentando que pelo menos uma delas não pode ter instâncias que possuam uma causa, não é uma propriedade básica nem um determinado de uma propriedade básica, ou não possui um determinado cuja exemplificação possa ser causada. Contudo, tais alegações são altamente implausíveis.

7 Agradeço a Kenny Pearce, Alexander Pruss e a dois pareceristas anônimos pelos comentários úteis. Agradeço também à minha esposa, Amy Saenz, por seu amor e apoio.

 

Referência bibliográfica

Pruss, Alexander & Rasmussen, Joshua 2018. Necessary Existence. Oxford: Oxford University Press.

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