Resumo
Pruss e
Rasmussen (2018) apresentam um argumento a favor de um ser necessário
utilizando um princípio causal modesto. Aqui, observo que, quando aplicado a
questões altamente gerais e fundamentais, tal princípio pode muito bem ser
falso (ou, pelo menos, não tão óbvio).
1. O Princípio W
Argumentos
que partem da contingência de algumas coisas para a existência de um ser
necessário baseiam-se em princípios causais de variada força. O desafio
consiste em encontrar o princípio causal mais fraco(*weak*) possível que conduza
a um ser concreto necessário. Pruss e Rasmussen (2018: Cap. 5) apresentam um
argumento que utiliza o que parece ser tal princípio. Eles denominam o
argumento de "Argumento Fraco a partir de Inícios" e o princípio nele
empregado de "princípio causal muito fraco" (o Princípio W). Eis o
princípio:
O Princípio
W. Normalmente, para qualquer propriedade F, se
(i) F pode começar a ser exemplificada,
(ii) F pode ter instâncias que possuem uma causa,
(iii) F é
básica ou uma determinada de uma propriedade básica e
(iv) existe
uma determinada de F que pode ser causada a existir
então pode
haver uma causa para a exemplificação de F.
Pruss e
Rasmussen fornecem três esclarecimentos e uma condição. Primeiro, uma
propriedade começa a ser exemplificada se, e somente se, sua exemplificação
estiver restrita a um intervalo de tempo finito na direção do passado (95).
Segundo, "pode" expressa possibilidade metafísica (96). Terceiro, F é
básica se, e somente se, for possível compreender F sem, com isso, compreender
outras propriedades ou relações (97). E quarto, uma condição de não
circularidade: se x causa a exemplificação de F, então x não é F — ou, pelo
menos, não é F imediatamente antes da exemplificação de F (95).
Ora, a partir
da afirmação modal aparentemente modesta de que
a
contingência pode começar a ser exemplificada,
Pruss e
Rasmussen empregam o Princípio W para argumentar que existe uma coisa concreta
necessária (sendo que, por "concreto", Pruss e Rasmussen (2) entendem
"capaz de causar", de modo que, se algo é concreto, então
possivelmente causa algo). Eis o argumento deles. Dada a afirmação modal acima
e o fato de que a contingência pode ter instâncias que possuem uma causa
(segundo Pruss e Rasmussen, você e eu somos um exemplo), de que ela é uma
propriedade básica ou um determinado de uma propriedade básica (segundo Pruss e
Rasmussen, é um determinado da existência) e de que ser um ser humano
contingente é um determinado da contingência e pode ter sua instanciação
causada (segundo Pruss e Rasmussen, sua instanciação foi causada por nosso
ancestral), segue-se — de modo refutável — do Princípio W que pode haver uma
causa para a instanciação da contingência. Pela condição de não circularidade,
tal causa não instanciaria a contingência e, portanto, seria uma coisa concreta
necessária (concreta por ser uma causa). Possivelmente, então, existe uma coisa
concreta necessária. Mas, se possivelmente existe uma coisa concreta
necessária, então existe uma coisa concreta necessária. E assim — ou é o que
afirma o Argumento Fraco a partir dos Inícios —, existe uma coisa concreta
necessária.
2. Consequências do
Princípio W
A afirmação
modal acima não é a única que podemos aplicar ao Princípio W. Existem outras
afirmações modais aparentemente modestas. E elas também acarretam resultados
bastante surpreendentes, se não problemáticos. Eis as afirmações modais:
a
simplicidade mereológica pode começar a ser exemplificada;
a
individualidade pode começar a ser exemplificada;
a imperfeição
pode começar a ser exemplificada;
a atualidade
pode começar a ser exemplificada;
a existência
pode começar a ser exemplificada;
a concretude
pode começar a ser exemplificada.1
Por que essas
afirmações modais são aparentemente modestas? Porque negar qualquer uma delas
equivale a afirmar uma instância do seguinte: necessariamente, se F é
exemplificado, então F foi exemplificado eternamente ou é exemplificado
atemporalmente. Tomemos a concretude. Se ela não pode começar a ser
exemplificada, então, necessariamente, se ela é exemplificada, então foi
exemplificada eternamente ou é exemplificada atemporalmente. Mas essa é uma
afirmação forte.2
Empregando o
raciocínio utilizado no Argumento Fraco a partir dos Inícios, utilizemos a
primeira das afirmações acima: a simplicidade pode começar a ser
exemplificada.3 Dado isso — e considerando que a simplicidade pode ter
instâncias que possuem uma causa (possivelmente, existe um elétron que possui
uma causa), que ela é um determinado de uma propriedade básica (é um
determinado da existência) e que ser um elétron simples é um determinado da
simplicidade e pode ter sua exemplificação causada, o que parece plausível —,
segue-se, de modo refutável, a partir do Princípio W, que pode haver uma causa
para a exemplificação da simplicidade. Pela condição de não circularidade, tal
causa não exemplificaria a simplicidade e, portanto, seria mereologicamente
complexa. Possivelmente, então, existe uma coisa complexa. E, assim,
possivelmente, o niilismo mereológico é falso. Mas, se é possivelmente falso,
então é falso (o niilismo não é uma tese contingente).4
Utilizemos a
segunda das afirmações acima: a individualidade pode começar a ser
exemplificada. Considerando isso e o fato de que a individualidade pode ter
instâncias que possuem uma causa (você e eu), de que ela é um determinado de
uma propriedade básica (é um determinado da existência) e de que ser um humano
individual é um determinado da individualidade e pode ter sua instanciação
causada (ela teve sua instanciação causada por nossos ancestrais), segue-se —
de modo refutável — do Princípio W que pode haver uma causa para a instanciação
da individualidade. Pela condição de não circularidade, tal causa não
instanciaria a individualidade e, portanto, seria um não-individuo e,
consequentemente, uma propriedade. Possivelmente, então, uma propriedade causa
algo. E assim, possivelmente, tanto o platonismo quanto o nominalismo são
falsos. Mas, se são possivelmente falsos, então são falsos (nem o platonismo
nem o nominalismo são teses contingentes).
Utilizemos a
terceira das afirmações acima: a imperfeição pode começar a ser instanciada.
Considerando isso e o fato de que a imperfeição pode ter instâncias que possuem
uma causa (você e eu), de que ela é um determinado de uma propriedade básica (é
um determinado da existência) e de que ser um humano imperfeito é um
determinado da imperfeição e pode ter sua instanciação causada (ela teve sua
instanciação causada por nossos ancestrais), segue-se — de modo refutável — do
Princípio W que pode haver uma causa para a instanciação da imperfeição. Pela
condição de não circularidade, tal causa não instanciaria a imperfeição e,
portanto, seria perfeita. Possivelmente, então, existe um ser perfeito.
Assumindo, como muitos fazem, que se a perfeição é possivelmente instanciada,
então ela é necessariamente instanciada (pense aqui no argumento ontológico
modal para a existência de Deus), a perfeição é instanciada. Existe um ser
perfeito. (Este é um argumento cosmo-ontológico!)
Utilizemos a
quarta das afirmações acima: a atualidade pode começar a ser instanciada.
Considerando isso e o fato de que a atualidade pode ter instâncias que possuem
uma causa (você e eu), de que ela é uma propriedade básica e de que ser um
humano atual é um determinado da atualidade e pode ter sua instanciação causada
(ela teve sua instanciação causada por nossos ancestrais), segue-se — de modo
refutável — do Princípio W que pode haver uma causa para a instanciação da
atualidade. Pela condição de não circularidade, tal causa não exemplificaria a
atualidade e, portanto, seria não-atual. É possível, então, que exista algo
não-atual. E, assim, é possível que o atualismo seja falso. Mas, se é
possivelmente falso, então é falso (o atualismo não é uma tese contingente).
Utilizemos a
quinta das afirmações acima: a existência pode começar a ser exemplificada.
Dado isso — e considerando que a existência pode ter instâncias que possuem uma
causa (você e eu), que ela é uma propriedade básica, que ser um ser humano
existente é uma determinação da existência e que sua exemplificação pode ser
causada (ela foi causada pelos nossos ancestrais) —, decorre de modo refutável,
a partir do Princípio W, que pode haver uma causa para a exemplificação da
existência. Pela condição de não circularidade, tal causa não exemplificaria a
existência e, portanto, seria inexistente. É possível, então, que exista algo
inexistente!
Por fim,
utilizemos a última das afirmações acima: a concretude pode começar a ser
exemplificada. Dado isso — e considerando que a concretude pode ter instâncias
que possuem uma causa (você e eu), que ela é uma propriedade básica ou um
determinado de uma propriedade básica (é um determinado da existência), e que
ser um humano concreto é um determinado da concretude e pode ter sua
exemplificação causada (foi causada por nossos ancestrais) —, segue-se, de modo
refutável, a partir do Princípio W, que pode haver uma causa para a
exemplificação da concretude. Pela condição de não circularidade, tal causa não
exemplificaria a concretude e, portanto, seria acausal. Possivelmente, então,
algo acausal causa alguma coisa!
Este último
caso (e talvez o anterior) é particularmente notável. Pruss e Rasmussen (104)
afirmam que a contingência é semelhante a outras propriedades passíveis de
causa, na medida em que satisfaz todas as quatro condições do Princípio W e não
existem casos claros de propriedades que atendam a essas condições sem serem
passíveis de causa. Mas parece haver um caso assim. Pois a concretude parece
satisfazer essas condições, mas — sob pena de algo acausal causar algo de modo
absurdo — não pode ser passível de causa.
3. O status do Princípio
W
Dadas as
nossas modestas afirmações modais, eis as consequências refutáveis do
Princípio W mencionadas acima (incluindo aquela derivada do Argumento Fraco a
partir dos Inícios):
existe um ser
concreto necessário;
o niilismo
mereológico é falso;
o platonismo
e o nominalismo são falsos;
existe um ser
perfeito;
o atualismo é
falso;
possivelmente,
existe algo inexistente;
possivelmente,
algo acausal causa alguma coisa.5
O defensor do
Princípio W tem uma escolha: ou esse princípio se aplica a cada uma das
propriedades relevantes — contingência, simplicidade, individualidade,
imperfeição, atualidade, existência, concretude — ou não se aplica. Se se
aplica, então não apenas existe um ser concreto necessário, mas também se sustentam
as demais consequências mencionadas acima. (E tudo isso com base em um
princípio causal altamente restrito!) Se isso não ocorrer (como parece ser o
caso, visto que nada que não existe pode existir e nada acausal pode causar
algo), então pelo menos uma de nossas modestas afirmações modais, listadas
anteriormente, é falsa.6 Ora, isso acontece ou porque todas são falsas ou
porque apenas algumas o são. Se todas forem falsas, então o princípio perdeu
sua atual relevância filosófica (o Argumento Fraco a partir dos Inícios passa a
ter uma premissa falsa). Se apenas algumas o forem, então precisamos de uma
razão não *ad hoc* para pensar assim. O que há em algumas dessas propriedades
(a contingência, por exemplo) que explica por que elas — e não as outras —
podem começar a ser exemplificadas?
Aqui, uma
antiga objeção ganha força: temos um princípio causal em um argumento
cosmológico que, quando aplicado a fenômenos cotidianos, parece verdadeiro, mas
que, ao ser aplicado a questões altamente gerais e fundamentais, começa a
parecer suspeito (ou, pelo menos, não tão óbvio).7
Notas
1 Eis outras
alegações modais às quais podemos recorrer: a temporalidade, a particularidade,
a atualidade (ou o caráter de presente), a realidade, a consciência, a bondade
e a racionalidade podem, cada uma, começar a ser exemplificadas. E, assim como
ocorre com aquelas presentes no texto principal, recorrer a essas alegações
também gera resultados surpreendentes — se não indesejáveis.
2 A maioria
dessas alegações modais implica a falsidade do teísmo clássico. Isso depõe
contra a sua modéstia? Não, uma vez que o teísmo clássico é extremamente
imodesto: segundo ele, existe necessariamente um ser eterno, simples,
particular e concreto. Visto que o fato de uma alegação entrar em conflito com
uma alegação imodesta não depõe contra a sua modéstia, o conflito dessas
alegações com o teísmo clássico também não depõe contra a modéstia delas.
3 Suponha que
alguém considere a existência de objetos abstratos simples. Nesse caso, a
exemplificação da simplicidade não se restringiria a um intervalo finito de
tempo no passado, pois ela seria exemplificada por coisas abstratas — e,
portanto, atemporais. Aqui, então, não se deve recorrer à simplicidade, mas sim
à propriedade conjuntiva "simplicidade e concretude" (Pruss e
Rasmussen (100, nota de rodapé 5) não veem problema em recorrer a propriedades
conjuntivas dessa maneira). Isso evita a dificuldade apontada. Além disso, essa
estratégia é passível de generalização. Se você acredita na existência de
objetos abstratos individuais, imperfeitos, atuais ou existentes, então deve
recorrer, mais adiante, às propriedades conjuntivas "individualidade e
concretude", "imperfeição e concretude", "atualidade e
concretude" ou "existência e concretude".
4 Se
recorrêssemos à propriedade conjuntiva "simplicidade e concretude",
então, em virtude da condição de não circularidade, tal causa não
exemplificaria a simplicidade e a concretude; consequentemente, ela seria
complexa ou não concreta. Se não fosse concreta, teríamos, possivelmente, uma
coisa acausal causando algo! Se fosse complexa, então o niilismo mereológico
seria possivelmente falso — e, portanto, falso. Resultados da mesma natureza
aplicam-se quando recorremos às propriedades conjuntivas "individualidade
e concretude", "imperfeição e concretude", "atualidade e
concretude" e "existência e concretude".
5 As
consequências são, na verdade, mais fortes. Por exemplo, dado o Princípio W, o
que nos levou à rejeição do niilismo mereológico, do platonismo e do
nominalismo foi a ideia de que, possivelmente, existe uma causa para a
exemplificação da simplicidade e que, possivelmente, existe uma causa para a
exemplificação da individualidade. No entanto, sendo teístas clássicos, Pruss e
Rasmussen sustentam que a simplicidade e a individualidade de Deus são,
necessariamente, não causadas. Assim, Pruss e Rasmussen comprometem-se a negar
essas consequências modais do Princípio W. E eles se comprometem a negá-las
mesmo considerando falsos o niilismo mereológico, o platonismo e o nominalismo.
6 Poder-se-ia
argumentar que o Princípio W não se aplica a todas essas propriedades,
sustentando que pelo menos uma delas não pode ter instâncias que possuam uma
causa, não é uma propriedade básica nem um determinado de uma propriedade
básica, ou não possui um determinado cuja exemplificação possa ser causada.
Contudo, tais alegações são altamente implausíveis.
7 Agradeço a
Kenny Pearce, Alexander Pruss e a dois pareceristas anônimos pelos comentários
úteis. Agradeço também à minha esposa, Amy Saenz, por seu amor e apoio.
Referência bibliográfica
Pruss, Alexander & Rasmussen, Joshua 2018. Necessary Existence. Oxford: Oxford University Press.

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