Autor: Richard Hess
Tradução: Iran Filho

A apologética, do grego apologia, que significa "falar em defesa", é um sistema de argumentação em defesa da doutrina religiosa contra críticas. No cristianismo, a apologética tem sido usada desde aproximadamente 100-200 d.C. por figuras como Justino Mártir, Tertuliano e Orígenes, até os muitos apologistas que defendem o cristianismo hoje, como Peter Kreeft, Ravi Zacharias e John Lennox. No entanto, a maioria dos estudiosos cristãos afirma que a apologética pode ser encontrada no Novo Testamento com Paulo [1]. Contudo, após séculos de desenvolvimento dessas defesas na tentativa de fortalecer sua resistência ao avanço do conhecimento científico, esses argumentos tornaram-se mais sofisticados e complexos. Essas antiguidades, como as Cinco Vias de Tomás de Aquino, o argumento ontológico de Anselmo e as doutrinas de Santo Agostinho sobre o livre-arbítrio, ainda são usadas hoje, mas receberam uma nova roupagem para lhes conferir uma nova aparência. Alvin Plantinga pegou o argumento ontológico e o reestruturou através da lógica modal. William Lane Craig simplesmente reformulou o argumento cosmológico Kalam com seu rosto sorridente na capa. E outros argumentos conhecidos, como o argumento teleológico, foram remodelados com apenas o suficiente de embasamento científico para lhes conferir uma aparência de credibilidade à primeira vista. Enquanto outros, como o argumento moral, permaneceram praticamente estagnados.[2]

A Integridade Intelectual da Apologética

Embora esses argumentos sejam satisfatórios para os crentes na proteção de suas doutrinas sagradas, eles são totalmente pouco convincentes para os não crentes. O que não incomoda o apologista, pois seu objetivo não é converter não crentes, mas impedir que os crentes sucumbam à dúvida. A apologética serve a um único propósito: proteger as crenças religiosas da crítica. A apologética não busca a verdade ou contemplar questões difíceis que desafiam a fé; ela sequer tenta, mas sim procura soluções alternativas para tais desafios. Vejam só o que William Lane Craig, provavelmente o apologista mais conhecido da atualidade, disse sobre a dúvida em uma entrevista…

…se, em certas circunstâncias historicamente contingentes, as evidências que tenho à minha disposição se voltarem contra o cristianismo, não creio que isso contradiga o testemunho do Espírito Santo. Em tal situação, devo considerar isso simplesmente como resultado das circunstâncias contingentes em que me encontro e que, se eu investigar com a devida diligência e com o tempo, descobrirei que, na verdade, as evidências, se eu conseguir formar a perspectiva correta, apoiarão exatamente o que o testemunho do Espírito Santo me diz.[3]

Isso diz muito sobre a integridade da apologética como sistema. A recusa em ao menos considerar evidências contrárias à sua conclusão pressuposta é pura desonestidade intelectual. A apologética satisfaz artificialmente a vaidade do ego humano que precisa se sentir justificado, correto e confiante. E serve para aplacar os temores da incerteza, do desconhecimento e da dúvida que ameaçam abalar a fé. A apologética apenas dá a aparência de ter considerado esses problemas e de tê-los respondido. E, previsivelmente, todas as respostas os levam a Deus.

Abandonando a Razão para Salvar a Fé

Naturalmente, descobrimos que a apologética está repleta de problemas sérios. O próprio fato de a apologética ser necessária já levanta enormes suspeitas quanto à legitimidade de sua religião. Mas é quando são pressionados e incapazes de fornecer qualquer demonstração para suas conclusões predeterminadas que vemos, possivelmente, a verdade mais perturbadora sobre o método apologético: o apologista está disposto a destruir a razão por completo em vez de renunciar à sua fé. E essa tem sido a verdade ao longo da história, desde Martinho Lutero, que afirmou: "A razão é a maior prostituta do diabo" [4], até William Lane Craig, citado anteriormente. Isso não é trivial. Este é o maior problema que tenho com a apologética e por isso digo que ela é tão perigosa. Quando a fé usurpa a razão, as pessoas podem fazer, e farão, coisas terríveis. Mas isso não se limita a alguns apologistas. Vai muito além disso. Para uma religião sobreviver, ela precisa de seguidores. Gerações deles.

O Efeito Cascata

A maioria dos crentes comuns nunca ouviu falar desses apologistas. No entanto, sua influência pode ser percebida nos argumentos apresentados pelo pregador de rua ou pelo "teólogo da internet". Parece também que eles não se depararam com nenhum dos contra-argumentos filosóficos apresentados. Caso contrário, não teriam tanta certeza de que esses argumentos são irrefutáveis, e que os ateus não conseguem refutá-los. Quantos de vocês já conversaram com um cristão comum e ele mencionou uma dessas defesas apologéticas, apenas para descobrir que ele tinha apenas um conhecimento superficial do assunto? Hoje em dia, com a internet, qualquer crente pode acessar inúmeros sites dedicados à defesa de sua religião. Eles podem obter um texto pronto para recitar sem precisar pesquisar mais nada. Essas defesas também são incorporadas a sermões e ensinadas em linguagem acessível por líderes religiosos. Tudo com o único propósito de proteger a religião da compreensão científica moderna e da mudança no pensamento social que a acompanha. Os sofisticados argumentos apologéticos de teólogos e filósofos cristãos são, em grande parte, reduzidos a frases de efeito e slogans.

A Razão Responde

É por isso que os contra-apologistas precisam estar munidos de fatos para responder eficazmente; uma refutação, para sermos mais precisos. Existem inúmeras refutações filosóficas à apologética que são sofisticadas e robustas. A contra-apologética se baseia tanto na filosofia quanto na ciência. Uma compreensão adequada da contra-apologética vem com a compreensão da apologética dos estudiosos religiosos, dando ao contra-apologista a capacidade de denunciar rapidamente essas afirmações duvidosas. Com seus fundamentos falaciosos expostos, todo o argumento desmorona. Sem ser contestada, a religião fica livre para doutrinar e impor sua vontade na vida cotidiana. Portanto, se quisermos normalizar o ateísmo e o secularismo, precisamos ser capazes de responder às afirmações da apologética e impedir os métodos de manipulação que ela emprega para dominar a mente.

Notas

[1] Acho importante notar que versículos como Atos 17 são considerados por estudiosos como plágio da Apologia de Platão. Muitos apologistas até admitem isso, mas não surpreendentemente, eles também têm uma apologética para isso.
[2] Omitei aqui a apologética pressuposicional porque é um tipo diferente de apologética, se é que pode ser propriamente chamada de apologética. Farei uma crítica completa dela em publicações posteriores.
[3] Glen Davis (04/05/2012), Entrevista com o Dr. William Lane Craig: Lidando com a Dúvida, https://youtu.be/2C3T17aKPCI, marca de 0:55.
[4] Martinho Lutero, Edição de Erlangen, v. 16, p. 142

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