Autor: Joe Schmid
Tradução: David Ribeiro
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Introdução

Predicado atômico não artificial (ANA)

- Atômico

• Não composto nem construído a partir de constituintes; p. ex., não negativo, conjuntivo, disjuntivo, implicativo, etc.

• Compare: ‘é vermelho’ vs. (i) ‘não é vermelho’, (ii) ‘ou é vermelho ou é feito de queijo verde’, (iii) ‘é vermelho e esférico’, etc.

- Não artificial (não *gerrymandered*)

• Não artificial, arbitrário, *ad hoc*, construído ou inventado por capricho

• Natural, não arbitrário, fundamentado em princípios, que "corta a natureza pelas suas articulações"

- Predicado

• Aquilo que se diz de um sujeito

- Predicação comum

• Um mesmo predicado é aplicado a coisas numericamente distintas. A predicação comum é verdadeira para a1, a2, … an

Princípio de Predicação (PP): A predicação ANA comum é um bom guia para características extramentais comuns compartilhadas, de modo que a verdade de predicações ANA comuns sobre x e y nos dá uma boa razão para pensar que x e y compartilham uma característica extramental correspondente.

1. Pelo menos uma predicação ANA comum é verdadeira para Deus e os seres humanos.

2. Logo, Deus e os seres humanos compartilham alguma característica em comum. [1, PP]

3. Características dos seres humanos são partes constituintes dos seres humanos. [Ontologia de Constituintes]

4. Se a DDS (Doutrina da Simplicidade Divina*Doctrine of Divine Simplicity*) é verdadeira, então Deus é numericamente idêntico às suas características.

5. Se (i) Deus é idêntico às suas características, (ii) Deus e os seres humanos compartilham alguma característica em comum e (iii) características dos seres humanos são partes constituintes dos seres humanos, então Deus é um constituinte dos seres humanos.

6. Logo, se a DDS é verdadeira, então Deus é um constituinte dos seres humanos. [2-5]

7. Deus não é um constituinte dos seres humanos.

8. Logo, a DDS é falsa. [6, 7]


Respostas

Objeção 1

1) Predicação analógica --> a premissa (1) é falsa. Termos podem ser usados ​​em diversos sentidos, incluindo o unívoco, o equívoco e o analógico. Um termo é empregado univocamente em dois contextos linguísticos se for usado no mesmo sentido em ambos. Um termo é empregado equivocamente em dois contextos se for usado em sentidos completamente diferentes ou não relacionados. Em contrapartida, a predicação analógica consiste (grosso modo) em usar um termo em um sentido relacionado ou semelhante em dois contextos — o sentido não é totalmente diferente, mas também não é exatamente o mesmo. (Feser 2014, p. 284)

Resposta a Objeção 1

Estou cético quanto a essa resposta. Pelo menos no que diz respeito às analogias de proporcionalidade própria, "o conceito é aplicado a todos os analogados de maneira indistinta e indeterminada, com base em uma semelhança ou similitude real que eles guardam entre si" (Feser 2017, p. 178). Conforme muitos pensadores articulam a analogia, ela envolve, no mínimo, algum elemento de semelhança, similitude, comunalidade ou parecença. Isso é tudo de que precisamos, ao que parece, para a premissa (1).

Além disso, a analogia parece envolver ou pressupor, pelo menos, algum elemento de univocidade. (Nota: não afirmo que a analogia seja "nada mais" do que uma mistura de univocidade e equivocidade. Simplesmente parece plausível que ela envolva, ao menos, elementos de ambas.) E isso é tudo o que se requer para a premissa (1). Considere a seguinte linha de argumentação — que considero interessante e plausível, embora não afirme que seja decisiva:

Não está claro como a predicação analógica do termo T não envolva, pelo menos, alguma combinação de descrições equívocas e unívocas. Para qualquer uso analógico de T, podemos perguntar: o que, precisamente, é igual nos analogados? O que, precisamente, é diferente? Ora, as especificações do primeiro aspecto são simplesmente unívocas, ao passo que as especificações do segundo são equívocas. Poder-se-ia responder que existem "fatos intermediários" referentes aos analogados que, embora não sejam totalmente diferentes, tampouco são idênticos. Mas isso apenas empurra o problema um passo para trás, pois podemos então perguntar — em relação a esses fatos de "terreno intermediário" — o que, precisamente, há de igual entre eles? O que, precisamente, há de diferente? E se alguém responder recorrendo a fatos de terreno intermediário de ordem superior sobre esses fatos de terreno intermediário, o mesmo problema surgirá. Ameaça surgir um regresso vicioso. Ou pode-se responder que não há nada, precisamente, que seja igual nos dois casos (e nem nada que seja diferente). Existe apenas o "terreno intermediário" *sui generis*. Mas, se não há nada igual em ambos os casos, a alegação de semelhança ou similitude parece infundada.

E note que é precisamente assim que as analogias parecem funcionar. Quando usamos analogias para expor pontos, podemos especificar precisamente as maneiras pelas quais os analogados são iguais e diferentes — e é a combinação equilibrada de semelhanças e diferenças que nos leva a supor que, embora os analogados não sejam idênticos, eles também não são totalmente desconexos. Por exemplo, suponha que queiramos traçar uma analogia entre a sustentação causal de Deus sobre tudo o que existe e um violinista tocando música. Os dois certamente não são idênticos, mas também não são totalmente desconexos. Nesse sentido, eles são análogos.

Mas eles só são análogos, ao que parece, na medida em que podemos especificar precisamente as formas exatas pelas quais os dois são iguais (por um lado) e diferentes/desconexos (por outro). Eles são iguais na medida em que ambos envolvem (i) a causação eficiente da [produção, realização da] existência de algo (para Deus, a existência de objetos concretos; para o violinista, a música) e (ii) uma atividade causal concomitante, tal que a operação da causa é uma condição necessária para a existência do efeito (na ausência da sustentação causal de Deus, os objetos concretos deixam de existir; na ausência dos movimentos das mãos do violinista, a música em si cessa). Esses aspectos são, plausivelmente, iguais em ambos os analogados. Os dois são diferentes ou desconexos na medida em que o violinista deve agir sobre material preexistente para produzir o efeito (enquanto Deus cria e sustenta a substância total *ex nihilo*); objetos concretos não são sons musicais; e assim por diante. Novamente, não estou afirmando que a analogia seja redutível a, ou nada mais do que, uma combinação equilibrada entre univocidade e equivocidade; Estou simplesmente afirmando que — *prima facie* e de modo plausível — tal combinação equilibrada está, no mínimo, envolvida.

Afirmo que, mediante um exame atento, as predicações analógicas parecem funcionar dessa maneira também. Feser apresenta o exemplo de um vinho ser bom e de George [uma pessoa] ser boa. Presumivelmente, a bondade do vinho consiste em ele ser fresco, saboroso, satisfatório, e assim por diante — características que, por sua vez, são boas porque facilitam (de uma forma ou de outra) o florescimento de uma vida humana. A bondade de George consiste em suas virtudes intelectuais e morais — que, por sua vez, são boas porque facilitam o florescimento da vida de George. Parece, então, que podemos identificar a maneira precisa pela qual tanto o vinho quanto George são bons, no mesmo sentido: ambos dizem respeito ao florescimento da vida humana. Da mesma forma, podemos identificar a maneira precisa pela qual a bondade do vinho e a bondade de George diferem ou não guardam relação entre si: as formas como facilitam o florescimento humano não estão relacionadas (uma consiste no florescimento gustativo e nutricional, enquanto a outra consiste no florescimento do caráter). Minha alegação não é a de que não haja mais nada a que possamos nos referir, mas apenas a de que podemos apontar para ambos os aspectos mencionados (o unívoco e o equívoco).

De todo modo, o foco da minha pesquisa não é a doutrina da analogia; portanto, o que foi exposto acima não levará em consideração vastas partes da literatura sobre o tema.

"Suponha que você diga: a benevolência amorosa de Deus é um pouco semelhante à da minha mãe e, ao mesmo tempo, um pouco diferente dela. O que poderia explicar isso? Valendo-nos de Aquino, podemos distinguir entre a perfeição em si que a benevolência amorosa constitui e o modo como qualquer ser amoroso se relaciona com essa benevolência. No caso da minha mãe, ela possui a benevolência amorosa como uma característica — uma característica que ela não precisa ter como sendo a própria substância que ela é. Mas, no caso de Deus, Deus é Amor; portanto, a benevolência amorosa de Deus não é uma característica que Ele possui, mas a própria substância que Ele é. Ainda assim, apesar desses diferentes modos de relação com a benevolência amorosa — tê-la, no caso da minha mãe; ser ela, no caso de Deus —, podemos voltar nossa atenção para a perfeição em si que a benevolência amorosa representa e perguntar como a de Deus se relaciona com a da minha mãe. Se assumirmos que, no que diz respeito a essa própria perfeição, a benevolência amorosa de Deus é um pouco semelhante à da minha mãe e, ao mesmo tempo, um pouco diferente dela, então decorre que a benevolência amorosa é uma característica que possui certo tipo de complexidade — algumas partes ou graus que a benevolência amorosa de Deus compartilha com a da minha mãe, em virtude dos quais elas são 'um pouco semelhantes', e outras partes ou graus em virtude dos quais elas são 'um pouco diferentes'." - Ward, T. 2020. *Divine Ideas*. Cambridge University Press, p. 50.

Objeção 2

Certamente, existe pelo menos uma predicação unívoca verdadeira do tipo com o qual o argumento se ocupa. Mas o PP não se aplica neste caso.


Resposta a Objeção 2

Qual é a razão fundamentada e não ad hoc para negar sua aplicação aqui? Precisamos de alguma diferença fundamentada e relevante que explique o fracasso do Princípio da Predicação aqui, mas seu sucesso em outros casos. Sem fornecer isso, a objeção em questão não prosperará.

Em segundo lugar, a resposta parece acarretar um custo teórico, na medida em que deve negar a verdade de um princípio plausível. Esses custos teóricos — que podem, individualmente, não ser devastadores nem drásticos — se acumulam e se agregam rapidamente, com resultados bastante drásticos.

Aliás, este é o caminho que Escoto seguiria. Williams (2005) escreve que, para Escoto, “nossa posse de um conceito sob cuja extensão tanto Deus quanto as criaturas se enquadram não implica que haja qualquer característica na realidade extramental que seja um componente comum a Deus e às criaturas. [...] Escoto apresenta uma série de argumentos extremamente complexos e sutis para demonstrar que tal inferência de um conceito unívoco para uma sobreposição ontológica é inválida.” (p. 577)

Agora, observe que — ao contrário da preocupação à qual Williams está respondendo — PP não diz que a univocidade implica alguma característica comum; apenas diz que nos dá uma boa razão [embora refutável] para pensar que existe alguma característica comum desse tipo.]

 

Objeção 3

Negação da Ontologia Constituinte?

 

Resposta a Objeção 3

Primeiro, isso provavelmente causará muitos problemas para as estruturas metafísicas subjacentes nas quais o Teísmo Clássico é (frequentemente) articulado.

Segundo, isso não evita o argumento — basta refazer o argumento em termos de ontologia relacional e você ainda chegará à conclusão absurda de que os humanos exemplificam ou instanciam Deus [como, por exemplo, exemplificam ou instanciam a cor marrom, a massividade, etc.]

 

Objeção 4

Apofatismo universal: não podemos [legitimamente] predicar literalmente nada de Deus de maneira não negativa [isto é, afirmações que não sejam apenas negações como "Deus não é mau", "Deus não é dependente", "Deus não é limitado", "Deus não vive na ilusão da Matrix"].

 

Resposta a Objeção 4

Profundamente implausível (na minha perspectiva)

• Especialmente (quase certamente) se você aceita a revelação bíblica. Por exemplo: "Deus é trino", "Deus é amoroso", "Deus é pessoal".

Para compreender melhor a teologia negativa e o apofatismo, consulte Hewitt (2020), *Negative Theology and Philosophical Analysis: Only the Splendour of Light*.

NOTA: Não estou afirmando nem negando que Hewitt adira ao que chamei de "apofatismo universal". Ainda não li o livro de Hewitt (2020).


Referências

Finalmente, uma nota sobre recursos: Existem infinitas fontes que eu poderia citar sobre analogia, univocidade e assim por diante. [Tanto a favor quanto contra cada uma delas quando se trata de predicações divinas.]

• Williams (2005), “A Doutrina da Univocidade é Verdadeira e Salutar”

• D’Ettore (2021), “A Analogia Funciona na Demonstração? Uma Crítica Escotista ao Tomismo”

• D’Ettore, Analogia Depois de Aquino: Problemas Lógicos, Respostas Tomistas

• Sobre o Ser e a Cognição: Ordinatio 1.3 - Primeira tradução completa deste texto para o inglês. Muitas discussões sobre a Univocidade do Ser

https://we.tl/t-zEEdIlpC4c

• Argumento “Certo e Duvidoso” de Escoto para um Conceito Unívoco de Ser - O artigo abaixo descreve o Argumento CDA de Escoto das páginas 5 a 10. É formado como um silogismo, e são fornecidas evidências para as premissas maior e menor.

 https://brill.com/view/journals/viv/56/1-2/article p176_176.xml?language=en

• Scotus e Ockham sobre o Conceito Unívoco do Ser - O artigo abaixo discute os três argumentos de Scotus para a afirmação de que o conceito de ser é unívoco para Deus e as criaturas (principalmente em resposta a Henrique de Ghent)

https://we.tl/t-1uHR9zUMf5

• William P. Alston sobre Funcionalismo e Linguagem Teológica - Alston oferece alguns breves argumentos contra a doutrina da analogia e a favor da univocidade do ser.

https://andrewmbailey.com/wpa/FunctionalismTheologicalLanguage.pdf

• Tomás de Aquino sobre a Predicação Teológica: Um Olhar para o Passado e para o Futuro - Alston oferece uma análise da doutrina da Analogia de Tomás de Aquino e discute a univocidade.

https://we.tl/t-7fXYFXjUba

• Ser, Existência e Compromisso Ontológico - Peter Van Inwagen argumenta que "existe" é unívoco. Argumenta que a univocidade do número e a íntima conexão entre número e existência devem nos convencer de que a existência é unívoca.

 

https://andrewmbailey.com/pvi/Being_Existence_Ontological_Commitment.pdf

• A Univocidade do Ser: Com Referência Especial às Doutrinas de João Duns Scotus e Martin Heidegger - Tese de Doutorado de Philip Tonner. Ver capítulos 1 e 2

https://www.academia.edu/11764723/The_Univocity_of_Being_with_special_reference_to_the_doctrines_of_John_Duns_Scotus_and_Martin_Heid_egger

O primeiro tratamento da univocidade do ser por Duns Scotus - Da página 951 à 961 discute alguns dos trabalhos anteriores de Scotus nesta área e por que ele mudou de ideia para defender a univocidade do ser

 https://www.researchgate.net/profile/Maria-GonzalezPortela/publication/344724216_Importancia_de_la_verdad_informativa_y_su_presencia_en_la_deontologia_y_ensenanza_de_la_etica_en_la_region _andina/links/5f8bc0f892851c14bccf708c/Importancia-de-la-verdad informativa-y-su-presencia-en-la-deontologia-y-ensenanza-de-la-etica-en la-region-andina.pdf#page=951

• Tomás de Aquino e John Duns Scotus: Teologia Natural na Alta Idade Média - Livro que introduz o trabalho de Scotus sobre a Univocidade e contrasta com a doutrina da Analogia de Tomás de Aquino.

https://we.tl/t-g3QI0hc8Wj

• Colin Gunton, Amor Divino e Predicação Unívoca - Defende um argumento bíblico para a univocidade do “amor”

https://we.tl/t-dMxFHdMybK



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