Introdução
Predicado
atômico não artificial (ANA)
- Atômico
• Não
composto nem construído a partir de constituintes; p. ex., não negativo,
conjuntivo, disjuntivo, implicativo, etc.
• Compare: ‘é
vermelho’ vs. (i) ‘não é vermelho’, (ii) ‘ou é vermelho ou é feito de queijo
verde’, (iii) ‘é vermelho e esférico’, etc.
- Não
artificial (não *gerrymandered*)
• Não
artificial, arbitrário, *ad hoc*, construído ou inventado por capricho
• Natural,
não arbitrário, fundamentado em princípios, que "corta a natureza pelas
suas articulações"
- Predicado
• Aquilo que
se diz de um sujeito
- Predicação
comum
• Um mesmo
predicado é aplicado a coisas numericamente distintas. A predicação comum é
verdadeira para a1, a2, … an
Princípio de
Predicação (PP): A predicação ANA comum é um bom guia para características
extramentais comuns compartilhadas, de modo que a verdade de predicações ANA
comuns sobre x e y nos dá uma boa razão para pensar que x e y compartilham uma
característica extramental correspondente.
1. Pelo menos
uma predicação ANA comum é verdadeira para Deus e os seres humanos.
2. Logo, Deus
e os seres humanos compartilham alguma característica em comum. [1, PP]
3.
Características dos seres humanos são partes constituintes dos seres humanos.
[Ontologia de Constituintes]
4. Se a DDS
(Doutrina da Simplicidade Divina*Doctrine of Divine Simplicity*) é verdadeira,
então Deus é numericamente idêntico às suas características.
5. Se (i)
Deus é idêntico às suas características, (ii) Deus e os seres humanos
compartilham alguma característica em comum e (iii) características dos seres
humanos são partes constituintes dos seres humanos, então Deus é um
constituinte dos seres humanos.
6. Logo, se a
DDS é verdadeira, então Deus é um constituinte dos seres humanos. [2-5]
7. Deus não é
um constituinte dos seres humanos.
8. Logo, a
DDS é falsa. [6, 7]
Respostas
Objeção 1
1) Predicação
analógica --> a premissa (1) é falsa. Termos podem ser usados em diversos
sentidos, incluindo o unívoco, o equívoco e o analógico. Um termo é empregado
univocamente em dois contextos linguísticos se for usado no mesmo sentido em
ambos. Um termo é empregado equivocamente em dois contextos se for usado em
sentidos completamente diferentes ou não relacionados. Em contrapartida, a
predicação analógica consiste (grosso modo) em usar um termo em um sentido
relacionado ou semelhante em dois contextos — o sentido não é totalmente
diferente, mas também não é exatamente o mesmo. (Feser 2014, p. 284)
Resposta a Objeção 1
Estou cético quanto a essa resposta. Pelo menos no que diz respeito às
analogias de proporcionalidade própria, "o conceito é aplicado a todos os
analogados de maneira indistinta e indeterminada, com base em uma semelhança ou
similitude real que eles guardam entre si" (Feser 2017, p. 178). Conforme
muitos pensadores articulam a analogia, ela envolve, no mínimo, algum elemento
de semelhança, similitude, comunalidade ou parecença. Isso é tudo de que
precisamos, ao que parece, para a premissa (1).
Além disso, a
analogia parece envolver ou pressupor, pelo menos, algum elemento de
univocidade. (Nota: não afirmo que a analogia seja "nada mais" do que
uma mistura de univocidade e equivocidade. Simplesmente parece plausível que
ela envolva, ao menos, elementos de ambas.) E isso é tudo o que se requer para
a premissa (1). Considere a seguinte linha de argumentação — que considero
interessante e plausível, embora não afirme que seja decisiva:
Não está
claro como a predicação analógica do termo T não envolva, pelo menos, alguma
combinação de descrições equívocas e unívocas. Para qualquer uso analógico de
T, podemos perguntar: o que, precisamente, é igual nos analogados? O que,
precisamente, é diferente? Ora, as especificações do primeiro aspecto são
simplesmente unívocas, ao passo que as especificações do segundo são equívocas.
Poder-se-ia responder que existem "fatos intermediários" referentes
aos analogados que, embora não sejam totalmente diferentes, tampouco são
idênticos. Mas isso apenas empurra o problema um passo para trás, pois podemos
então perguntar — em relação a esses fatos de "terreno intermediário"
— o que, precisamente, há de igual entre eles? O que, precisamente, há de
diferente? E se alguém responder recorrendo a fatos de terreno intermediário de
ordem superior sobre esses fatos de terreno intermediário, o mesmo problema
surgirá. Ameaça surgir um regresso vicioso. Ou pode-se responder que não há
nada, precisamente, que seja igual nos dois casos (e nem nada que seja
diferente). Existe apenas o "terreno intermediário" *sui generis*.
Mas, se não há nada igual em ambos os casos, a alegação de semelhança ou
similitude parece infundada.
E note que é
precisamente assim que as analogias parecem funcionar. Quando usamos analogias
para expor pontos, podemos especificar precisamente as maneiras pelas quais os
analogados são iguais e diferentes — e é a combinação equilibrada de
semelhanças e diferenças que nos leva a supor que, embora os analogados não
sejam idênticos, eles também não são totalmente desconexos. Por exemplo,
suponha que queiramos traçar uma analogia entre a sustentação causal de Deus
sobre tudo o que existe e um violinista tocando música. Os dois certamente não
são idênticos, mas também não são totalmente desconexos. Nesse sentido, eles
são análogos.
Mas eles só
são análogos, ao que parece, na medida em que podemos especificar precisamente
as formas exatas pelas quais os dois são iguais (por um lado) e
diferentes/desconexos (por outro). Eles são iguais na medida em que ambos
envolvem (i) a causação eficiente da [produção, realização da] existência de
algo (para Deus, a existência de objetos concretos; para o violinista, a
música) e (ii) uma atividade causal concomitante, tal que a operação da causa é
uma condição necessária para a existência do efeito (na ausência da sustentação
causal de Deus, os objetos concretos deixam de existir; na ausência dos
movimentos das mãos do violinista, a música em si cessa). Esses aspectos são,
plausivelmente, iguais em ambos os analogados. Os dois são diferentes ou
desconexos na medida em que o violinista deve agir sobre material preexistente
para produzir o efeito (enquanto Deus cria e sustenta a substância total *ex
nihilo*); objetos concretos não são sons musicais; e assim por diante.
Novamente, não estou afirmando que a analogia seja redutível a, ou nada mais do
que, uma combinação equilibrada entre univocidade e equivocidade; Estou
simplesmente afirmando que — *prima facie* e de modo plausível — tal combinação
equilibrada está, no mínimo, envolvida.
Afirmo que,
mediante um exame atento, as predicações analógicas parecem funcionar dessa
maneira também. Feser apresenta o exemplo de um vinho ser bom e de George [uma
pessoa] ser boa. Presumivelmente, a bondade do vinho consiste em ele ser
fresco, saboroso, satisfatório, e assim por diante — características que, por
sua vez, são boas porque facilitam (de uma forma ou de outra) o florescimento
de uma vida humana. A bondade de George consiste em suas virtudes intelectuais
e morais — que, por sua vez, são boas porque facilitam o florescimento da vida
de George. Parece, então, que podemos identificar a maneira precisa pela qual
tanto o vinho quanto George são bons, no mesmo sentido: ambos dizem respeito ao
florescimento da vida humana. Da mesma forma, podemos identificar a maneira
precisa pela qual a bondade do vinho e a bondade de George diferem ou não
guardam relação entre si: as formas como facilitam o florescimento humano não
estão relacionadas (uma consiste no florescimento gustativo e nutricional,
enquanto a outra consiste no florescimento do caráter). Minha alegação não é a
de que não haja mais nada a que possamos nos referir, mas apenas a de que
podemos apontar para ambos os aspectos mencionados (o unívoco e o equívoco).
De todo modo, o foco da minha pesquisa
não é a doutrina da analogia; portanto, o que foi exposto acima não levará em
consideração vastas partes da literatura sobre o tema.
"Suponha que você diga: a benevolência amorosa de Deus é um pouco
semelhante à da minha mãe e, ao mesmo tempo, um pouco diferente dela. O que
poderia explicar isso? Valendo-nos de Aquino, podemos distinguir entre a
perfeição em si que a benevolência amorosa constitui e o modo como qualquer ser
amoroso se relaciona com essa benevolência. No caso da minha mãe, ela possui a
benevolência amorosa como uma característica — uma característica que ela não
precisa ter como sendo a própria substância que ela é. Mas, no caso de Deus,
Deus é Amor; portanto, a benevolência amorosa de Deus não é uma característica
que Ele possui, mas a própria substância que Ele é. Ainda assim, apesar desses
diferentes modos de relação com a benevolência amorosa — tê-la, no caso da
minha mãe; ser ela, no caso de Deus —, podemos voltar nossa atenção para a
perfeição em si que a benevolência amorosa representa e perguntar como a de
Deus se relaciona com a da minha mãe. Se assumirmos que, no que diz respeito a essa
própria perfeição, a benevolência amorosa de Deus é um pouco semelhante à da
minha mãe e, ao mesmo tempo, um pouco diferente dela, então decorre que a
benevolência amorosa é uma característica que possui certo tipo de complexidade
— algumas partes ou graus que a benevolência amorosa de Deus compartilha com a
da minha mãe, em virtude dos quais elas são 'um pouco semelhantes', e outras
partes ou graus em virtude dos quais elas são 'um pouco diferentes'." -
Ward, T. 2020. *Divine Ideas*. Cambridge University Press, p. 50.
Objeção 2
Certamente,
existe pelo menos uma predicação unívoca verdadeira do tipo com o qual o
argumento se ocupa. Mas o PP não se aplica neste caso.
Resposta a Objeção 2
Qual é a
razão fundamentada e não ad hoc para negar sua aplicação aqui? Precisamos de
alguma diferença fundamentada e relevante que explique o fracasso do Princípio
da Predicação aqui, mas seu sucesso em outros casos. Sem fornecer isso, a objeção
em questão não prosperará.
Em segundo
lugar, a resposta parece acarretar um custo teórico, na medida em que deve
negar a verdade de um princípio plausível. Esses custos teóricos — que podem,
individualmente, não ser devastadores nem drásticos — se acumulam e se agregam
rapidamente, com resultados bastante drásticos.
Aliás, este é
o caminho que Escoto seguiria. Williams (2005) escreve que, para Escoto, “nossa
posse de um conceito sob cuja extensão tanto Deus quanto as criaturas se
enquadram não implica que haja qualquer característica na realidade extramental
que seja um componente comum a Deus e às criaturas. [...] Escoto apresenta uma
série de argumentos extremamente complexos e sutis para demonstrar que tal
inferência de um conceito unívoco para uma sobreposição ontológica é inválida.”
(p. 577)
Agora,
observe que — ao contrário da preocupação à qual Williams está respondendo — PP
não diz que a univocidade implica alguma característica comum; apenas diz que
nos dá uma boa razão [embora refutável] para pensar que existe alguma
característica comum desse tipo.]
Objeção 3
Negação da
Ontologia Constituinte?
Resposta a Objeção 3
Primeiro,
isso provavelmente causará muitos problemas para as estruturas metafísicas
subjacentes nas quais o Teísmo Clássico é (frequentemente) articulado.
Segundo, isso
não evita o argumento — basta refazer o argumento em termos de ontologia
relacional e você ainda chegará à conclusão absurda de que os humanos
exemplificam ou instanciam Deus [como, por exemplo, exemplificam ou instanciam
a cor marrom, a massividade, etc.]
Objeção 4
Apofatismo
universal: não podemos [legitimamente] predicar literalmente nada de Deus de
maneira não negativa [isto é, afirmações que não sejam apenas negações como
"Deus não é mau", "Deus não é dependente", "Deus não é
limitado", "Deus não vive na ilusão da Matrix"].
Resposta a
Objeção 4
Profundamente
implausível (na minha perspectiva)
•
Especialmente (quase certamente) se você aceita a revelação bíblica. Por
exemplo: "Deus é trino", "Deus é amoroso", "Deus é
pessoal".
Para
compreender melhor a teologia negativa e o apofatismo, consulte Hewitt (2020),
*Negative Theology and Philosophical Analysis: Only the Splendour of Light*.
NOTA: Não
estou afirmando nem negando que Hewitt adira ao que chamei de "apofatismo
universal". Ainda não li o livro de Hewitt (2020).
Referências
Finalmente,
uma nota sobre recursos: Existem infinitas fontes que eu poderia citar sobre
analogia, univocidade e assim por diante. [Tanto a favor quanto contra cada uma
delas quando se trata de predicações divinas.]
• Williams
(2005), “A Doutrina da Univocidade é Verdadeira e Salutar”
• D’Ettore
(2021), “A Analogia Funciona na Demonstração? Uma Crítica Escotista ao Tomismo”
• D’Ettore,
Analogia Depois de Aquino: Problemas Lógicos, Respostas Tomistas
• Sobre o Ser
e a Cognição: Ordinatio 1.3 - Primeira tradução completa deste texto para o
inglês. Muitas discussões sobre a Univocidade do Ser
• Argumento
“Certo e Duvidoso” de Escoto para um Conceito Unívoco de Ser - O artigo abaixo
descreve o Argumento CDA de Escoto das páginas 5 a 10. É formado como um
silogismo, e são fornecidas evidências para as premissas maior e menor.
https://brill.com/view/journals/viv/56/1-2/article p176_176.xml?language=en
• Scotus e
Ockham sobre o Conceito Unívoco do Ser - O artigo abaixo discute os três
argumentos de Scotus para a afirmação de que o conceito de ser é unívoco para
Deus e as criaturas (principalmente em resposta a Henrique de Ghent)
• William P.
Alston sobre Funcionalismo e Linguagem Teológica - Alston oferece alguns breves
argumentos contra a doutrina da analogia e a favor da univocidade do ser.
• https://andrewmbailey.com/wpa/FunctionalismTheologicalLanguage.pdf
• Tomás de
Aquino sobre a Predicação Teológica: Um Olhar para o Passado e para o Futuro -
Alston oferece uma análise da doutrina da Analogia de Tomás de Aquino e discute
a univocidade.
• Ser,
Existência e Compromisso Ontológico - Peter Van Inwagen argumenta que
"existe" é unívoco. Argumenta que a univocidade do número e a íntima
conexão entre número e existência devem nos convencer de que a existência é
unívoca.
https://andrewmbailey.com/pvi/Being_Existence_Ontological_Commitment.pdf
• A
Univocidade do Ser: Com Referência Especial às Doutrinas de João Duns Scotus e
Martin Heidegger - Tese de Doutorado de Philip Tonner. Ver capítulos 1 e 2
O primeiro
tratamento da univocidade do ser por Duns Scotus - Da página 951 à 961 discute
alguns dos trabalhos anteriores de Scotus nesta área e por que ele mudou de
ideia para defender a univocidade do ser
https://www.researchgate.net/profile/Maria-GonzalezPortela/publication/344724216_Importancia_de_la_verdad_informativa_y_su_presencia_en_la_deontologia_y_ensenanza_de_la_etica_en_la_region
_andina/links/5f8bc0f892851c14bccf708c/Importancia-de-la-verdad
informativa-y-su-presencia-en-la-deontologia-y-ensenanza-de-la-etica-en
la-region-andina.pdf#page=951
• Tomás de
Aquino e John Duns Scotus: Teologia Natural na Alta Idade Média - Livro que
introduz o trabalho de Scotus sobre a Univocidade e contrasta com a doutrina da
Analogia de Tomás de Aquino.
• Colin
Gunton, Amor Divino e Predicação Unívoca - Defende um argumento bíblico para a
univocidade do “amor”

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