Resumo
Em certos
círculos teológicos atuais, o panenteísmo está em voga. Uma das dificuldades
mais notórias relacionadas ao panenteísmo reside em determinar o que ele
realmente é. Houve várias tentativas, na literatura recente, de distinguir o
panenteísmo do teísmo clássico, do teísmo neoclássico, do teísmo aberto e do
panteísmo. Argumentarei que essas tentativas de demarcação falham e, em
seguida, apresentarei minha própria proposta de distinção.
Palavras-chave: Panenteísmo. Teísmo clássico. Teísmo
neoclássico. Teísmo aberto. Panteísmo.
Em certos
círculos teológicos atuais, o panenteísmo está em alta. Embora o termo
"panenteísmo" tenha sido cunhado no século XIX, seus defensores
contemporâneos afirmam que se trata de um conceito antigo de Deus que rivaliza
com compreensões mais clássicas de Deus e da relação entre Deus e o mundo.1
Os defensores alegam que o panenteísmo oferece uma compreensão de Deus
teologicamente mais adequada do que outros modelos, por ser relacional e
dinâmico. Muitos de seus defensores afirmam, ainda, que o panenteísmo é mais
apto a dialogar com a ciência do que outros modelos de Deus e da relação
Deus-mundo.2 No entanto, tais alegações dos panenteístas podem ser
prematuras. Uma das dificuldades mais notórias do panenteísmo é a sua
imprecisão.3 É extremamente difícil definir com exatidão o que é o
panenteísmo e como ele difere de modelos rivais de Deus.
O panenteísmo
pretende ser uma posição intermediária entre o teísmo e o panteísmo. No teísmo,
Deus e o universo são distintos, ao passo que, no panteísmo, Deus e o universo
são idênticos. O panenteísmo busca adotar uma *via media*, afirmando que o
universo está em Deus, mas que Deus é mais do que o universo. Não está claro,
contudo, se o panenteísmo realmente nos oferece um modelo alternativo claro e
coerente em relação ao teísmo e ao panteísmo para compreender Deus e a relação
entre Deus e o mundo.
Permita-me
ilustrar. Há alguns anos, o Parlamento Mundial das Religiões organizou uma
sessão sobre panenteísmo. Vários panenteístas contemporâneos apresentaram
trabalhos discutindo os principais temas desse modelo de Deus. Outros
argumentaram que certos pensadores históricos deveriam ser corretamente
compreendidos como panenteístas, em vez de teístas ou panteístas. De modo
geral, houve uma celebração da diversidade de perspectivas dentro do
panenteísmo. No entanto, nem todos puderam celebrar. Patrick Hutchings foi
convidado para presidir a sessão. Após presidir a sessão, ele relata ter saído
"sem saber mais do que quando entrei" sobre o que é, de fato, o
panenteísmo.4 Ele afirma que, se fosse se comprometer com o panenteísmo,
não estaria claro com o que exatamente estaria se comprometendo.5 Em
última análise, Hutchings quer saber quais são, exatamente, as afirmações
singulares do panenteísmo que o distinguem de suas correntes rivais. Ele
reconhece que um movimento religioso ou modelo de Deus pode abrigar diversas
perspectivas, mas busca um conceito definitivo de panenteísmo que unifique
essas visões variadas. Raphael Lataster reconhece o desejo de Hutchings por um
conceito definitivo de panenteísmo, mas não oferece um. Ao exaltar a
diversidade dentro do panenteísmo, Lataster afirma que o desejo de Hutchings
"poderá permanecer para sempre insatisfeito".6
Para aumentar
ainda mais a imprecisão do conceito de panenteísmo, discussões recentes sugerem
que certas tradições religiosas que negam a existência de Deus deveriam ser
consideradas sob o rótulo de panenteísmo.7 Não me parece claro como
alguém pode ser panenteísta e negar a existência de Deus. Se é possível negar a
existência de Deus e ser panenteísta, não fica claro o que estaria excluído do
panenteísmo. A queixa de Hutchings deve ecoar na mente do leitor neste ponto:
comprometer-se com o panenteísmo é comprometer-se com nada.8 Para os
fins deste artigo, deixarei de lado as visões panenteístas que negam a
existência de Deus e focarei naquelas que a afirmam. Menciono isso apenas para
ilustrar a imprecisão generalizada entre os panenteístas contemporâneos. Parece
que o panenteísmo precisa oferecer uma maneira clara de se distinguir de outras
posições, algo que os panenteístas contemporâneos não fizeram. Tampouco está
claro se muitos sequer se interessam por essa tarefa, como sugere a observação
de Lataster.
No entanto,
esse é um problema sério para o panenteísmo, e seus defensores deveriam
reconhecê-lo. Se o panenteísmo não pode ser claramente distinguido de suas
correntes rivais, não pode justificar suas pretensões de ser mais científico e
teologicamente adequado. Além disso, não se pode justificar a alegação de que
ele é mais relacional e dinâmico do que o teísmo. Ademais, se não existe um
conceito definitivo de panenteísmo, não se pode justificar a afirmação de que o
panenteísmo é uma ideia antiga presente na história das ideias religiosas. Se o
panenteísmo permanecer como um conceito vago e nebuloso, torna-se impossível
determinar com segurança quem, na história, é de fato um panenteísta.
Neste artigo,
argumentarei que as tentativas recentes de demarcar o panenteísmo em relação às
suas alternativas são insatisfatórias. Na seção intitulada "Modelos
Teológicos para Deus e a Relação Deus-Mundo", esboçarei brevemente os
modelos teológicos que rivalizam com o panenteísmo. Eles se enquadram nas
categorias de teísmo clássico, teísmo neoclássico, teísmo aberto e panteísmo.
Cabe ressaltar que sigo o esquema de classificação de Diller e Kasher (2013).
Essa divisão dos modelos de Deus não é de minha autoria, mas é amplamente
aceita em discussões contemporâneas. Esboço essas alternativas antes de tentar
demarcar o panenteísmo porque há um consenso considerável nas discussões atuais
sobre como distinguir esses modelos de Deus uns dos outros. Novamente, isso é
algo que falta no âmbito do panenteísmo. Na seção "A Falha na Demarcação
de Clayton entre Panenteísmo e Panteísmo", será analisada criticamente a
tentativa de Philip Clayton de demarcar o panenteísmo e o panteísmo. Na seção
"A Demarcação de Benedikt Paul Göcke entre Panenteísmo e Teísmo",
será analisada criticamente a tentativa de Benedikt Paul Göcke de demarcar o
teísmo e o panenteísmo. Na seção "Outra Tentativa de Demarcar o
Panenteísmo", apresentarei minhas próprias sugestões sobre como o
panenteísmo poderia ser demarcado em relação ao teísmo e ao panteísmo.
Modelos Teológicos de
Deus e a Relação Deus-Mundo
Na filosofia
da ciência contemporânea, é comum falar-se em programas de pesquisa
concorrentes. Cada programa de pesquisa possui um conjunto de teses de
"núcleo duro" (*hard core*) que não estão sujeitas a revisão, bem
como um conjunto de hipóteses auxiliares que podem ser revistas. Nesta seção,
tratarei cada modelo teológico como um programa de pesquisa, articulando o
núcleo duro de cada programa, bem como algumas possíveis hipóteses auxiliares.
Teísmo Clássico
O primeiro
modelo a ser examinado é o teísmo clássico. Essa é a visão de pensadores como
Agostinho, Boécio, Anselmo, Pedro Lombardo, Tomás de Aquino e os escolásticos
católicos e protestantes. O núcleo duro desse modelo afirma que Deus é uma
substância *a se* (que existe por si mesma), atemporal, fortemente imutável,
simples, impassível, omnibenevolente, omnisciente, omnipotente e omnipresente.10
Deus existe *a se* se, e somente se, a Sua existência não depende de nada
além de Si mesmo. Deus é um ser necessário e não deriva a Sua existência de
nenhuma outra coisa. Deus é atemporal se, e somente se, Ele existe
necessariamente sem começo, sem fim, sem sucessão, sem localização temporal e
sem extensão temporal. Deus é fortemente imutável se, e somente se, Ele
necessariamente não pode sofrer qualquer mudança intrínseca ou extrínseca. Isso
inclui meras mudanças "Cambridge", como ser referido como Criador,
Redentor, Senhor e Juiz de todos os homens. Deus é simples se, e somente se,
Ele necessariamente carece de toda e qualquer complexidade ou diversidade
metafísica. Tipicamente, isso é caracterizado pela identidade de todos os
atributos de Deus entre si. No entanto, a rigor, Deus não possui propriedades,
não mantém nenhuma relação real com a criação e carece de qualquer
potencialidade. Deus é ato puro.11 Deus é impassível se, e somente
se, Ele necessariamente não pode sofrer. Deus é pura alegria ininterrupta.12
Deus não pode sofrer qualquer mudança nem experimentar nada além de alegria
ininterrupta e imperturbável. Deus é omnibenevolente se, e somente se, Ele é
necessariamente perfeitamente bom e amoroso. Deus é omnisciente se, e somente
se, Ele necessariamente conhece todas as proposições verdadeiras e não possui
crenças falsas. Deus é omnipotente se, e somente se, Ele necessariamente pode
efetivar qualquer estado de coisas que seja lógica e metafisicamente possível.
Deus é omnipresente no sentido de que todas as coisas estão no Seu
conhecimento, no Seu poder e na Sua essência. Todas as coisas estão na essência
de Deus, e a essência de Deus está em todas as coisas.13
Deus está
presente a tudo no ato de conhecer tudo o que existe e no ato de sustentar tudo
na existência. Dada a simplicidade divina, o conhecimento de Deus é idêntico ao
Seu poder, e Seu conhecimento e poder são idênticos à Sua essência. O ato de
sustentar tudo na existência é idêntico ao Seu ato de conhecer todas as coisas.
Visto que a eternidade de Deus é idêntica ao Seu ato de conhecer e sustentar
todas as coisas na existência, todas as coisas que existem o fazem na eternidade
de Deus.14
Para
compreender melhor o núcleo do teísmo clássico e sua relação com o universo
criado, é preciso considerar algumas hipóteses auxiliares comuns entre os
teístas clássicos. Tradicionalmente, a maioria dos teístas clássicos adota uma
metafísica relacional do tempo, na qual o tempo existe se, e somente se, ocorre
mudança. Mudança e sucessão são consideradas características das substâncias
temporais ao longo da tradição cristã.15 É por isso que os teístas
clássicos afirmam que Deus deve estar isento de sucessão e mudança para ser
atemporal e fortemente imutável. Além disso, os teístas clássicos
tradicionalmente sustentam uma ontologia presentista do tempo, na qual o
presente é o único momento temporal existente. O passado já não existe e o futuro
ainda não existe. Conjuntamente, os teístas clássicos tradicionalmente adotam
uma teoria endurantista de persistência ao longo do tempo. As substâncias
persistem no tempo existindo como um todo — ou seja, de uma só vez — nos
momentos em que existem. No endurantismo, há identidade numérica ao longo do
tempo. Por exemplo, a substância numericamente idêntica — Sócrates — persiste
do nascimento à morte como um todo. A substância que é Sócrates adquire e perde
várias propriedades não essenciais ao longo de sua vida, mas é o mesmo Sócrates
(numericamente idêntico) que persiste através dessas mudanças. Dado o
compromisso com o presentismo, qualquer objeto endurante existirá como um todo
— ou de uma só vez — no presente. Tradicionalmente, os teístas clássicos recorriam
ao seu compromisso com o endurantismo e o presentismo para compreender a
eternidade atemporal, a imutabilidade e a simplicidade de Deus.16
Eles afirmavam que Deus existe como um todo — ou de uma só vez — em um presente
atemporal, desprovido de um "antes" e um "depois".
Existem
várias outras hipóteses auxiliares sobre as quais os teístas clássicos
divergem. Apontarei quatro que são relevantes para a nossa discussão.
Primeiramente, os teístas clássicos tradicionalmente sustentavam a eternidade
da verdade.17 A essência de Deus gera um conjunto completo de
proposições atemporais sobre o passado, o presente e o futuro, bem como um
conjunto completo de proposições sobre todos os estados de coisas possíveis. A
maioria dos teístas clássicos afirma que Deus possui um conhecimento perfeito
de Si mesmo e, portanto, conhece todas as proposições verdadeiras. É por isso
que muitos teístas clássicos tradicionais diriam que o conhecimento de Deus não
muda quando a criação passa a existir. Deus conhece eternamente todas as
proposições sobre a criação, e Seu conhecimento não se baseia, de forma alguma,
em acontecimentos temporais.18 O compromisso com a onisciência de
Deus e com a eternidade da verdade implica que Deus possui um conhecimento
prévio exaustivo do futuro — embora, tecnicamente falando, Deus não tenha um
conhecimento *prévio* literal, visto que Ele é atemporal. Os teístas clássicos
estão comprometidos com a eternidade da verdade, mas alguns interpretam essa
ideia de maneiras diferentes. Em particular, alguns teístas clássicos
contemporâneos afirmam que o conhecimento de Deus se baseia no universo
temporal. Isso decorre de compromissos relacionados à segunda hipótese auxiliar
problemática.
A segunda
hipótese auxiliar diz respeito à ontologia temporal. Anteriormente, observei
que os teístas clássicos tradicionalmente defendiam o presentismo e o
endurantismo. Hoje, esse consenso não existe mais. Teístas clássicos
contemporâneos como Katherin Rogers, Paul Helm e T.J. Mawson defendem uma
ontologia eternalista do tempo e uma teoria perdurantista de persistência ao
longo do tempo.19 Segundo uma ontologia eternalista do tempo, todos
os momentos temporais existem. O passado, o presente e o futuro existem. Nenhum
deles deixa de existir, e nenhum deles passa a existir. No perdurantismo, os
objetos não persistem ao longo do tempo existindo como um todo. Não há
identidade numérica ao longo do tempo. Em vez disso, os objetos persistem ao
longo do tempo por possuírem partes temporais em cada momento em que existem.20
Tomemos novamente a substância Sócrates. Sócrates persiste do nascimento à
morte por possuir partes temporais diferentes em cada instante de sua
existência. Dados esses compromissos, teístas clássicos como Rogers, Helm e
Mawson sustentam que o conhecimento de Deus não se restringe a Si mesmo. Em vez
disso, o conhecimento de Deus baseia-se em uma apreensão perceptiva direta do
mundo. Deus conhece todas as proposições verdadeiras sobre o passado, o
presente e o futuro porque Ele sustenta eternamente a existência do passado, do
presente e do futuro.
A terceira
hipótese auxiliar problemática diz respeito à criação. Tradicionalmente, a
maioria dos teólogos clássicos judeus, cristãos e islâmicos sustenta que o
universo não é coeterno com Deus. Nada, diziam eles, poderia ser coeterno com
Deus.21 Houve um estado de coisas em que Deus existia sem o
universo. Deus é um ser necessário, e o universo é um ser contingente. Deus não
precisa criar para ser quem Ele é. No entanto, nem todos os teístas clássicos
concordam. Teístas clássicos como Proclo e João Filopono divergiam sobre essa
questão. Filopono argumenta que Deus e a criação não são coeternos e que a
essência de Deus não depende, de forma alguma, da criação. Proclo, contudo,
argumentava que Deus deve criar para ser quem Ele é. Um de seus argumentos é o
seguinte: Deus é eterno, imutável e simples. Se a criação não fosse coeterna
com Deus, mas tivesse começado a existir, Deus sofreria uma mudança. Ele se
tornaria o Criador. Portanto, Deus deve criar eternamente um universo eterno para
ser quem Ele é.22 Uma divergência semelhante ocorreu também na
teologia islâmica. Al-Ghazali defendia a tese de que o universo não poderia ser
coeterno com Deus, enquanto Avicena e Averróis sustentavam que Deus deve criar
para ser quem Ele é.23
Em nossos
dias, Rogers, Helm e Hugh McCann também parecem discordar. Dado o compromisso
deles com uma ontologia eternalista do tempo, nunca há um estado de coisas em
que Deus exista sem o universo. O universo é coeterno com Deus. Rogers, Helm e
McCann desejam sustentar que o universo é contingente e que a natureza
essencial de Deus não depende da existência do universo. No entanto, parece ser
uma consequência clara da visão deles que Deus deve necessariamente criar o
universo para ser quem Ele é. Deus é ato puro e, como tal, não possui potência.
Se houvesse outras maneiras possíveis de Deus ser, Ele teria potência não
atualizada. Se é possível que Deus crie, então Deus deve criar. Caso contrário,
Deus teria potência não atualizada. Assim, Rogers e McCann sustentam explicitamente
que o único mundo possível é este mundo — aquele em que Deus e o universo são
coeternos.24 Se este é o único mundo possível, a única maneira de as
coisas serem, então é necessário que seja assim. Portanto, a implicação
decorrente do modelo de Deus que eles propõem é que é necessariamente o caso
que Deus e o universo são coeternos. Pode parecer que essa implicação surge da
combinação do núcleo duro do teísmo clássico com as hipóteses auxiliares de
Rogers e McCann, mas acredito que isso seja um equívoco. Em outra ocasião,
argumentei que o núcleo duro do teísmo clássico, por si só, implica a
necessidade da criação, mas tais argumentos devem ser deixados de lado até a
seção intitulada "A Demarcação entre Panenteísmo e Teísmo feita por Benedikt
Paul Göcke".25 O que importa neste momento é que os teístas
clássicos discordam sobre se Deus deve ou não existir juntamente com a criação.
Todos concordam, no entanto, que o universo é composto por uma pluralidade de
substâncias ontologicamente distintas que são criadas por Deus.
A quarta
hipótese auxiliar controversa é a infinitude divina. Este é um atributo de Deus
que nem todos os teístas clássicos sustentaram no passado, nem todos definiram
da mesma maneira. O conceito de infinito tem uma história longa e interessante
na teologia, na filosofia e na ciência. Nem todos os teólogos clássicos estão
dispostos a atribuir a infinitude a Deus. Seguindo Aristóteles, teólogos como
Orígenes sustentam que Deus é finito.26 Por quê? A filosofia
aristotélica afirma que algo infinito em ato é impossível, ininteligível ou
incognoscível.27 Deus é cognoscível; logo, Ele deve ser finito.
Segundo F. LeRon Shults, "Orígenes aceitou a ideia grega negativa de
infinito e sugeriu que, se Deus fosse infinito, não teria o poder de conhecer a
si mesmo... Deus é conhecido e, portanto, não é infinito".28
Como observa Rogers, "os pensadores medievais mais antigos parecem evitar
o uso do termo 'infinito' para se referir a Deus". Talvez isso seja um
resquício da antiga associação do infinito com o incompleto, o inacabado e,
portanto, o imperfeito. Ela prossegue observando que Anselmo raramente utiliza
o termo "infinito" ao referir-se a Deus, mas, já na época de Aquino,
era comum atribuir esse atributo a Deus.29
Quando os
teístas clássicos atribuem infinitude a Deus, isso pode significar várias
coisas diferentes. A compreensão tomista da infinitude divina parece indicar
que Deus é insuperável em Sua perfeição e carece de qualquer potencialidade.30
A compreensão escotista da infinitude divina é mais matizada e significa que
Deus é o maior de todos os seres. Deus é o limite máximo da perfeição. Para
João Duns Escoto, a infinitude não é um atributo de Deus, mas um modo dos
atributos de Deus.31 Deus é infinito de duas maneiras: intensiva e
extensivamente. O fato de Deus ser intensivamente infinito significa que Ele
possui uma perfeição, como a bondade, em grau infinito ou máximo. A bondade de
Deus é o limite máximo de toda bondade. O fato de Deus ser extensivamente
infinito significa que Ele possui todas as perfeições compossíveis que se pode
ter. Essas não são as únicas maneiras de se compreender a infinitude de Deus.
Como será discutido a seguir, os panteístas têm uma compreensão diferente da
infinitude de Deus, a qual constitui parte do núcleo central de seu modelo.
Teísmo Neoclássico
Os teístas
neoclássicos concordam com grande parte do núcleo fundamental do teísmo
clássico.32 Eles concordam que Deus é *a se* (existe por si mesmo),
onisciente, onipotente, onipresente e onibenevolente. Parte do núcleo
fundamental do teísmo neoclássico é a rejeição da atemporalidade divina, da
imutabilidade forte, da simplicidade divina e da impassibilidade. Pensadores
como Samuel Clarke, Nicholas Wolterstorff, Thomas Morris, William Lane Craig e
John Feinberg afirmam que Deus é eterno no sentido de que existe sem começo e
sem fim, mas negam que Deus exista sem sucessão.33 Eles rejeitam a
imutabilidade forte e optam, em vez disso, por uma imutabilidade fraca. Deus é
fracamente imutável se, e somente se, não puder mudar em suas propriedades
essenciais. Deus pode mudar no que diz respeito às suas relações com as
criaturas. Por exemplo, Deus nem sempre foi o redentor da humanidade, mas, em
certo momento, tornou-se o redentor da humanidade. A natureza essencial de Deus
não muda nesse processo. Deus é necessariamente bom, e tornar-se o redentor da
humanidade é uma nova expressão de sua bondade. Os teístas neoclássicos
rejeitam a simplicidade divina e optam pela unidade divina. Os atributos de
Deus não são idênticos entre si. Em vez disso, os atributos essenciais de Deus
são distintos e coextensivos. A sabedoria de Deus não é idêntica ao seu poder,
mas não se encontrará a sabedoria de Deus dissociada de seu poder. Além disso,
um Deus simples é pura atualidade. Um Deus simples não possui qualquer
potencialidade. Os teístas neoclássicos afirmam que Deus possui potencialidade.
Um Deus onipotente tem a potencialidade perfeita para concretizar qualquer
estado de coisas que seja logicamente possível e metafisicamente compossível com
quem Deus é e com o que Deus fez anteriormente. No que diz respeito à
impassibilidade, os teístas neoclássicos ou a rejeitam ou defendem uma
impassibilidade fraca. O resultado final é o mesmo. Deus possui emoções e é
afetado pelo que ocorre no universo criado. Pode-se até dizer que Deus é
maximamente empático.34 No entanto, Deus nunca é dominado por suas
emoções. Ele nunca reage de maneira irracional devido às suas emoções.35
Assim como os
teístas clássicos, os teístas neoclássicos discordam sobre várias hipóteses
auxiliares, e essas discordâncias moldam o restante de sua teologia. Os teístas
neoclássicos parecem compartilhar o mesmo conjunto de hipóteses auxiliares que
os teístas clássicos. Por exemplo, eles discordam sobre como definir a
infinitude de Deus e a liberdade humana. Craig defende a liberdade libertária e
o conhecimento médio (visão molinista) de Deus, enquanto Feinberg defende a
liberdade compatibilista e rejeita o conhecimento médio de Deus. No entanto,
todos concordam, até certo ponto, com a eternidade da verdade. Os teístas
neoclássicos sustentam que a eternidade da verdade se aplica ao conjunto de
verdades atemporais (ou sem tempo verbal/não-tensionadas) sobre a criação e
outros mundos possíveis. Essas verdades atemporais não alteram seu valor de
verdade. Existe também um conjunto eterno de verdades temporais (ou com tempo
verbal/tensionadas), mas o valor de verdade dessas proposições temporais muda
constantemente à medida que a história se desenrola. A título de exemplo,
considere a verdade atemporal <Abraham Lincoln é o 16º presidente dos
Estados Unidos da América>. O valor de verdade dessa proposição não muda com
o tempo, ao passo que o valor de verdade da proposição temporal <Abraham
Lincoln será o próximo presidente dos Estados Unidos da América> muda com o
tempo.
Isso tem uma
implicação interessante para a compreensão do teísta neoclássico sobre a
onisciência. O teísta neoclássico concorda com a definição clássica de
onisciência divina. Contudo, visto que o valor de verdade das proposições
temporais muda constantemente, o conhecimento de Deus também muda
constantemente. Deus sabia eternamente que a proposição <Abraham Lincoln é o
16º presidente dos Estados Unidos da América> é verdadeira, mas Deus não
sabia eternamente que <Abraham Lincoln é agora o presidente dos Estados
Unidos da América>.
A maioria
adota uma ontologia presentista do tempo e uma teoria endurantista de
persistência ao longo do tempo, embora seja concebível que um teísta
neoclássico adote uma ontologia de "bloco em crescimento" (*growing
block*) do tempo e uma teoria perdurantista de persistência. Na ontologia de
bloco em crescimento, o passado e o presente existem, mas o futuro ainda não
existe. À medida que novos momentos do tempo passam a existir, os momentos anteriores
não deixam de existir. Os momentos anteriores deixam de ser o presente, mas não
deixam de existir.
Os teístas
neoclássicos concordam que Deus cria uma pluralidade de substâncias
contingentes ao criar o universo. A maioria acredita que a criação não é coeterna
com Deus e que a natureza de Deus não depende da criação. No entanto, Timothy
O’Connor argumentou que, dada a onibenevolência de Deus, existe uma plenitude
de amor que inevitavelmente levará Deus a criar um número infinito de
universos.36 Dada a natureza essencialmente amorosa de Deus, Deus
deve criar.
Teísmo Aberto
O teísmo
aberto concorda, em grande parte, com o teísta neoclássico quanto à doutrina de
Deus. Como será discutido abaixo, a maior diferença entre os teístas abertos e
os teístas clássicos e neoclássicos reside na extensão do conhecimento de Deus.
Os teístas abertos negam que Deus possua presciência exaustiva (conhecimento
presciente exaustivo). Antes de aprofundar essa questão, contudo, deve-se notar
que os teístas abertos consideram como parte de seu "núcleo duro" (ou
princípios fundamentais) vários elementos que teístas anteriores incluíam em
suas hipóteses auxiliares.
Há três
compromissos fundamentais que unem os teístas abertos. Primeiro, eles estão
comprometidos com o presentismo e o endurantismo. Segundo, estão comprometidos
com a liberdade libertária. Terceiro, estão comprometidos com a afirmação de
que a criação não é coeterna com Deus e que a natureza essencial de Deus não
depende da criação.37 Ao criar um universo, o Deus que existe
necessariamente cria livremente uma pluralidade de substâncias contingentes.38
Como
observado acima, os teístas abertos negam que Deus possua presciência
exaustiva. Todos concordam que Deus é onisciente, mas discordam sobre como
compreender a onisciência divina. Parte da discordância diz respeito à
eternidade da verdade.39 Alguns teístas abertos sustentam que existe
um conjunto eterno de verdades sobre como as coisas são, serão e poderiam ser,
incluindo um conjunto de verdades sobre o futuro. Nessa perspectiva, a
proposição <Judy comerá um sanduíche de presunto no jantar hoje à noite>
é verdadeira. No entanto, teístas abertos dessa vertente afirmam que Deus não
sabe que ela é verdadeira até que Judy prepare o sanduíche de presunto,
sente-se e comece a comê-lo. Eles argumentam que a onisciência de Deus não se
define pelo conhecimento de todas as proposições verdadeiras, visto que existem
certas proposições verdadeiras sobre o futuro que Deus não pode conhecer. É
impossível, segundo eles, que Deus saiba de antemão o que seres humanos dotados
de liberdade libertária farão livremente.
Outros
teístas abertos consideram isso implausível. Dean Zimmerman e Alan Rhoda
sustentam que, se uma proposição é verdadeira, então Deus a conhece. Assim, em
vez de redefinir a onisciência, eles rejeitam a eternidade da verdade. Dado o
compromisso com o presentismo, argumentam que isso implica a inexistência de
uma descrição eterna e completa do mundo. Existe um conjunto completo de
proposições sobre o passado e o presente, bem como um conjunto completo de
proposições sobre como o futuro poderia se desenrolar, mas não existe um
conjunto completo de proposições sobre como o futuro, de fato, se desenrolará.40
Proposições sobre o futuro, como <Judy comerá um sanduíche de presunto no
jantar hoje à noite>, não possuem um valor de verdade determinado —
verdadeiro ou falso. Isso exige que se abandone a compreensão clássica do
princípio lógico da bivalência.41 O princípio da bivalência
estabelece que toda proposição possui um valor de verdade determinado:
verdadeiro ou falso. Ao negar a bivalência ou restringir seu escopo a
proposições sobre o passado e o presente, é necessário apresentar uma
compreensão revista das leis da lógica. Isso geralmente envolve a introdução de
um esquema de três valores de verdade, no qual as proposições são verdadeiras,
falsas ou indeterminadas. Não está claro para mim quão bem-sucedida tal revisão
pode ser, mas deixarei essa questão de lado.42
Panteísmo
As visões
teístas propostas acima concordam, antes de tudo, que existe uma pluralidade de
substâncias que constituem o mundo. Deus é um ser necessário com certas
propriedades essenciais, e as criaturas são seres contingentes com certas
propriedades essenciais. O panteísmo nega a existência de uma pluralidade de
substâncias constituindo o mundo. Embora pareça haver uma pluralidade de
substâncias, isso é uma ilusão, visto que existe apenas uma substância. Como
explica Ted Peters: "No fundo, abaixo do nível da percepção, todas as
coisas são apenas uma coisa. Essa coisa única é a realidade divina"43.
A única substância existente é Deus. Tudo o mais é um modo ou manifestação de
Deus. Isso constitui o núcleo central do panteísmo.
Os panteístas
estão unidos em torno desse compromisso, mas divergem quanto aos atributos que
Deus possui. Essas diferenças constituem as hipóteses auxiliares do panteísmo.
Para Spinoza, Deus é um ser supremamente perfeito que existe necessariamente e
*a se* (por si mesmo), sendo também atemporalmente eterno, simples, imutável,
onipotente e infinito. Semelhante à posição de Duns Escoto, Spinoza afirma que
Deus é infinito por possuir todos os atributos possíveis existentes, e que Deus
detém todos os seus atributos de maneira infinita. Dado o poder infinito de
Deus, Spinoza argumenta que um número infinito de coisas deve necessariamente
emanar de Deus de infinitas maneiras. Um Deus eterno e onipotente manifesta
eternamente o seu poder ao produzir, de modo eterno, tudo o que pode ser
produzido.44
Spinoza
também define o infinito como algo ilimitado. Coisas finitas são limitadas por
outra coisa da mesma natureza. Uma substância seria finita se existisse também
outra substância. Visto que os panteístas sustentam que Deus é infinito,
conclui-se que não podem existir outras substâncias. A existência de outras
substâncias limitaria Deus e, consequentemente, torná-lo-ia finito. Assim, o
Deus infinito é a única substância existente.45
Há uma
inconsistência peculiar na concepção de Deus de Spinoza. Na Parte 1 da *Ética*,
Spinoza nega que Deus possua intelecto e vontade, embora afirme que Deus possui
pensamento. Contudo, na Parte 2 da *Ética*, Spinoza diz que Deus possui
intelecto infinito e amor infinito. Na Parte 5, Espinosa explica que o amor a
Deus é um amor a Si mesmo e, visto que somos da mesma substância de Deus, é
também um amor a nós mesmos. Essa inconsistência em Espinosa não é algo
presente em todos os panteístas.
Hegel
contrapõe-se a Espinosa ao afirmar que Deus é a Pessoa absoluta.46
No entanto, há muito debate sobre se Hegel é panteísta ou panenteísta; ambos os
lados reivindicam-no para si. De qualquer modo, outros panteístas afirmam
claramente que Deus é uma pessoa, mantendo ao mesmo tempo o núcleo essencial do
panteísmo — isto é, que Deus é a única substância e tudo o mais é um modo de
Deus. O panteísta Don Lodzinski sustenta que Deus é um ser onisciente,
onipotente, atemporal e dotado de livre-arbítrio. O conhecimento de Deus
baseia-se na Sua contemplação do universo — ou de Si mesmo.47 Os panteístas
William J. Mander e John Leslie afirmam que Deus é um agente consciente e
onisciente que conhece o universo ou o multiverso.48
Os panteístas
apresentam diversas razões para considerar isso verdadeiro. A maioria dos
argumentos parte de um elemento do teísmo clássico e deduz uma implicação que
conduz ao panteísmo. Um tipo de argumento provém de Mander, que parte da
onisciência de Deus para chegar ao panteísmo. Deus é um ser perfeito que existe
necessariamente, sendo eterno, onisciente, onipotente, e assim por diante.
Assim como os teístas clássicos tradicionais, Mander afirma que Deus possui um
conhecimento perfeito de Si mesmo e, portanto, conhece todas as coisas. A
partir daí, ele desenvolve seu argumento: "Um ser perfeito deve conhecer o
mundo; contudo, um ser perfeito só pode conhecer a si mesmo (pois um ser
perfeito só pode contemplar o que é perfeito). Portanto, Deus deve ser idêntico
ao próprio mundo".49
Panenteísmo
Uma vez
apresentados esses modelos rivais de Deus e da relação entre Deus e o mundo,
espera-se que surja uma compreensão melhor do panenteísmo. Como observado
anteriormente, os panenteístas geralmente afirmam que sua posição se situa
entre o teísmo e o panteísmo. No entanto, é extremamente difícil determinar em
que consiste essa posição intermediária. O que constitui o núcleo central do
panenteísmo? Os panenteístas dizem que, ao contrário do panteísmo, Deus não é
idêntico ao universo; em vez disso, Deus é mais do que o universo.
Diferentemente do teísmo, o panenteísmo sustenta que Deus não é totalmente
distinto do universo; ao contrário, o universo está em Deus. O que significa
dizer que o universo está "em" Deus, mas que Deus é mais do que o
universo? Críticos do panenteísmo, como Göcke, reconhecem a dificuldade em
definir esse "em". De fato, os próprios panenteístas geralmente
admitem que o "em" é um conceito impreciso e que não há consenso
generalizado sobre o seu significado. Ainda assim, eles sustentam que o termo
continua sendo significativo para definir o panenteísmo.50
Com base nos
trabalhos de Thomas Oord e Philip Clayton, Göcke aponta várias maneiras pelas
quais os panenteístas tentam se distinguir dos teístas, definindo o
"em" de uma forma que, supostamente, os teístas não poderiam afirmar.
Eis alguns exemplos: Deus energiza o mundo; Deus experiencia o mundo; Deus
anima o mundo; Deus brinca com o mundo; Deus dá espaço ao mundo; Deus fornece o
fundamento para a emergência no mundo; Deus estabelece uma relação de amizade
com o mundo.51 Como Göcke e outros ressaltam, os teístas podem
facilmente afirmar todas essas proposições. Tais descrições do "em"
simplesmente não demarcam a diferença entre o panenteísmo e o teísmo.
Outras
tentativas de definir o "em" argumentam que os panenteístas afirmam a
necessidade de utilizar metáforas tanto de imanência quanto de transcendência
ao falar de Deus.52 Em outras palavras, Deus é imanente à criação e,
ao mesmo tempo, a transcende. Isso pouco ajuda a demarcar o panenteísmo, visto
que todos os teístas afirmam que Deus é, simultaneamente, imanente e transcendente.
Para piorar a situação, muitas das analogias, metáforas e doutrinas que os
panenteístas utilizam para definir o "em" são tomadas de empréstimo
de tradições teístas.53
Por exemplo,
a panenteísta Anna Case-Winters propõe que a presença de Deus no universo é
sacramental. Deus está presente *em*, *com* e *sob* tudo o que existe. Ela
deixa bem claro que está tomando essa noção de presença sacramental da teologia
reformada.54 Vale ressaltar que não há nada de errado em tomar
emprestadas doutrinas, conceitos e analogias de outras tradições teológicas
para desenvolver a própria teologia sistemática. Pode ser um empreendimento
frutífero. No entanto, isso não ajuda a delimitar a posição de alguém em
relação a outros sistemas teológicos, e é precisamente isso que o panenteísta
precisa fazer.
Aqui está
outro exemplo clássico. Uma alegação comum entre os panenteístas é recorrer à
analogia mente-corpo, tomada de empréstimo do teísmo clássico.55 A
relação entre a mente e o corpo é análoga à — ou uma metáfora para — relação de
Deus com o universo. A afirmação é a de que o universo é o corpo de Deus.
Contudo, não está claro se isso ajuda a delimitar o panenteísmo, uma vez que os
panteístas podem facilmente afirmar que o universo é o corpo de Deus. Além
disso, teístas clássicos como T.J. Mawson também afirmam que o universo é o
corpo de Deus.56 Como isso é possível? Como modelos de Deus
aparentemente diferentes podem concordar nesse ponto? Quais são as afirmações
metafísicas substantivas subjacentes à metáfora que constitui o núcleo central
do panenteísmo?
Para
Swinburne, existem cinco condições que devem ser satisfeitas para que uma mente
esteja corporificada. A primeira condição é que os diversos processos do corpo
físico podem causar dor ou prazer na mente. Em segundo lugar, a mente pode
sentir o interior do corpo; um exemplo seria a sensação de estômago vazio. Em
terceiro lugar, a mente pode mover o corpo por meio de uma ação básica. Uma
ação básica ocorre quando um agente pode realizar um ato sem ter de executar
alguma outra ação para concretizar o primeiro ato. Por exemplo, movo meu braço
por meio de um ato básico; não movo o copo de água sobre minha mesa por meio de
um ato básico. Em quarto lugar, a mente pode observar o mundo a partir da
localização do corpo. O corpo é o locus da percepção do mundo para a mente; a
mente adquire conhecimento perceptivo mediado pelo corpo. Em quinto lugar, os
pensamentos e sentimentos da mente podem ser afetados pelos processos que
ocorrem no corpo.58
Ramanuja e
Mawson afirmam que apenas as condições 3 e 4 são necessárias para a
corporificação. Em outras palavras, as condições deles para a corporificação
são satisfeitas pela onipresença divina. O universo conta como o corpo de Deus
porque Deus o sustenta conscientemente e causalmente na existência. Swinburne
discorda, pois acredita que todas as cinco condições devem ser satisfeitas para
que o universo seja considerado o corpo de Deus. Mas, certamente, a diferença
entre o panenteísmo e o teísmo não pode residir naquilo que conta como corpo.
Isso ocorre porque o panenteísmo supostamente faz uma afirmação singular sobre
a natureza de Deus, mas nada aqui diz algo singular a respeito de Deus. Para
ilustrar isso, suponhamos que Agostinho ou Swinburne abrandassem sua posição
sobre as condições necessárias para a corporificação. Eles se tornariam
panenteístas sem precisar alterar sua doutrina sobre Deus e sem mudar a forma
como descrevem a relação de Deus com o universo. Deus continuaria relacionado
ao universo por meio da onipresença.
Isso não pode
estar correto. Certamente, é preciso haver algo mais substancial para
distinguir o panenteísmo do teísmo do que a mera definição de corporificação.
Se a mera onipresença basta para que o universo seja o corpo de Deus, então
todas as formas de teísmo implicam logicamente o panenteísmo. Assim, não
haveria diferença entre teísmo e panenteísmo e, portanto, essa demarcação
fracassa. Além disso, os panenteístas não teriam justificativa para afirmar que
o panenteísmo oferece um modelo de Deus teologicamente mais adequado do que o
teísmo. Lembremos que os panenteístas insistem que sua compreensão de Deus é
mais dinâmica e relacional do que a do teísmo. Isso seria simplesmente falso,
uma vez que os teístas teriam exatamente o mesmo modelo de Deus. Parece que
ainda não descobrimos o que diferencia o panenteísmo de suas correntes rivais.
Qual é o núcleo fundamental do panenteísmo?
A seguir,
examinarei duas tentativas recentes de diferenciar o panenteísmo de suas
correntes rivais. Primeiramente, analisarei uma tentativa de Philip Clayton de
distinguir o panenteísmo do panteísmo. Em seguida, examinarei uma tentativa de
Benedikt Paul Göcke de distinguir o panenteísmo do teísmo. Argumentarei que
ambas fracassam, antes de apresentar algumas sugestões sobre possíveis caminhos
a seguir.
A Distinção de Clayton
entre Panenteísmo e Panteísmo fracassa
Novamente, o
panenteísmo é considerado uma posição situada entre o teísmo e o panteísmo.
Philip Clayton tenta distinguir o panenteísmo do panteísmo empregando o método
de Charles Hartshorne para modelar Deus.59 Esse método de modelagem
de Deus envolve responder a cinco perguntas. Deus é eterno? Deus é temporal?
Deus é consciente? Deus conhece o mundo? Deus inclui o mundo? Atribui-se uma
letra a uma resposta afirmativa para cada pergunta: E = eterno; T = temporal;
C = consciente; K = Deus conhece o mundo/universo; W = Deus inclui o
mundo/universo. Suponha que alguém seja um teísta clássico e acredite que Deus
é eterno, mas não temporal, e que Ele é um conhecedor consciente do universo.
Seu modelo de Deus seria um ECK. Na concepção de Hartshorne, o panenteísmo é um
ETCKW. Hartshorne e Clayton consideram Spinoza o exemplo primordial de
panteísmo e afirmam que ele é um EW.
Acredito que
existam algumas dificuldades nesse método de modelagem de Deus, mas mencionarei
apenas um problema crucial. Donald Wayne Viney aponta que não está claro o que
significa "inclusão do mundo".60 A expressão não é
definida por Hartshorne. Sem uma compreensão clara da inclusão do mundo, não é
óbvio o que distingue o panenteísmo do teísmo ou do panteísmo. Em alguns
modelos de inclusão do mundo, parece que qualquer pessoa que afirme a
onipresença divina receberia um W.61 Isso simplesmente não basta
para distinguir o panenteísmo do teísmo, muito menos do panteísmo. É preciso
dizer mais sobre a inclusão do mundo. (Apresento minhas próprias sugestões na
seção "Outra Tentativa de Delimitar o Panenteísmo".)
Clayton tenta
definir a inclusão do mundo. Segundo ele, o mundo é composto por uma única
substância. Essa substância única é Deus. Embora pareça haver muitas
substâncias separadas, discretas e individuais, isso é uma ilusão. Tudo é, na
verdade, um modo, manifestação ou expressão da única substância, que é Deus.62
Nesse ponto, pode-se recordar a discussão anterior sobre o panteísmo e concluir
que Clayton defende o núcleo central do panteísmo. Clayton discordaria. A
diferença, segundo Clayton, entre panteísmo e panenteísmo é que o panteísmo
sustenta apenas a EW, enquanto o panenteísmo sustenta a ETCKW. Clayton diria
que o panteísmo e o panenteísmo têm muito em comum, mas o Deus panteísta não é
um ser consciente e conhecedor que existe no tempo. É isso que distingue o
panenteísmo do panteísmo.
Essa
distinção realmente funciona? Não. Esse esquema afirma que o panteísmo de
Spinoza é uma EW. Como discutido anteriormente, há passagens em que Spinoza
atribui a Deus características como consciência e conhecimento. Portanto, há
mais no panteísmo de Spinoza do que apenas a EW. O Deus de Spinoza assemelha-se
mais a uma ECKW. E quanto à temporalidade? Clayton sustenta que Spinoza admite
a temporalidade apenas para os modos de Deus, mas não para o próprio Deus.63
Acho isso desconcertante, pois os modos são modos de Deus. Se um modo muda,
Deus muda, uma vez que o modo é uma manifestação ou expressão de Deus. Deus Se
expressa de uma maneira em um dado momento através do modo "Sócrates"
e de outra maneira em outro momento através do modo "Bill Clinton".
No processo de expressão divina, Deus passaria por mudanças e, portanto, seria
temporal. Assim, o panteísmo de Spinoza deveria ser classificado como ETCKW.
Qual é, então, a diferença entre panteísmo e panenteísmo?
Mais
importante ainda: Clayton parece presumir que o panteísmo de Spinoza representa
todos os tipos de panteísmo, mas isso é falso. Suponhamos que Spinoza realmente
defenda apenas a EW. Outros panteístas discordariam e afirmariam que Deus é
ETCKW. Lembre-se do argumento de Mander, mencionado anteriormente, que parte da
onisciência divina para o panteísmo. No panteísmo de Mander, Deus é um ser
consciente e conhecedor que sabe todas as coisas, inclusive as mudanças
temporais. Portanto, o panteísmo de Mander é ETCKW. Novamente: o que distingue
o panteísmo do panenteísmo? A demarcação proposta por Clayton não aponta o
núcleo duro do panenteísmo.
A Demarcação de Benedikt
Paul Göcke entre Panenteísmo e Teísmo
Mencionei
anteriormente que Göcke considera insatisfatórias a maioria das propostas para
delimitar o panenteísmo. Ele aponta outras tentativas de distinguir o
panenteísmo do teísmo e explica por que elas também fracassam. Por exemplo, uma
tentativa de delimitação consiste em afirmar que o teísmo clássico sustenta que
Deus não muda nem é influenciado pelo universo. O panenteísmo, segundo essa
delimitação, afirma que Deus muda e é influenciado pelo universo. Göcke
argumenta que essa distinção falha porque nem os teístas clássicos nem os
panenteístas acreditam que Deus seja um ser entre outros seres; portanto, em
nenhuma das duas visões Deus é influenciado pelo universo.64
Embora eu
concorde que isso não delimita o teísmo em relação ao panenteísmo, sustento que
essa afirmação de Göcke é falsa por pelo menos duas razões. Primeiro, como
observado acima, existem teístas que afirmam que Deus é influenciado pelo
universo. É verdade que Göcke tem em mente apenas o teísmo clássico, mas
existem outras formas de teísmo além do clássico, como amplamente discutido nos
debates contemporâneos. Segundo, há muitos panenteístas que sustentam que o
universo influencia Deus e que Deus é um ser entre muitos. Por exemplo, Philip
Clayton e Arthur Peacocke são dois dos mais proeminentes panenteístas
contemporâneos, e ambos afirmam que Deus é influenciado pelo universo.65
De qualquer modo, concordo com Göcke que essa tentativa de delimitação entre
teísmo e panenteísmo fracassa, mas por uma razão diferente.
A afirmação
de Göcke de que o Deus panenteísta não muda é falsa. Os panenteístas sustentam
que sua compreensão de Deus é dinâmica e relacional, enquanto o Deus do teísmo
seria estático e distante.66 No entanto, a afirmação panenteísta de
que o Deus teísta é estático e distante é falsa. É verdade que o Deus do teísmo
clássico não muda e não é influenciado pelo universo, mas isso não se aplica ao
teísmo neoclássico ou ao teísmo aberto. Os defensores do teísmo neoclássico e
do teísmo aberto concebem um Deus que é dinâmico, relacional e que muda à
medida que interage continuamente com o universo criado. O fato de Deus ser
dinâmico, relacional e mutável não serve para distinguir o panenteísmo do
teísmo. Portanto, ainda não dispomos de uma definição clara do panenteísmo.
Göcke acredita que pode fornecer uma definição clara de panenteísmo e apresenta
uma razão sólida para rejeitá-lo. Sua proposta é que o teísmo clássico e o
panenteísmo diferem apenas quanto ao status modal do mundo. Segundo Göcke, o
panenteísmo afirma que o mundo é uma propriedade intrínseca de Deus. Portanto,
existe um mundo necessariamente. No teísmo clássico, o mundo é uma propriedade
extrínseca de Deus. O mundo existe de forma contingente. Com essa distinção em
mente, Göcke explica que, enquanto não tivermos um argumento a favor da
necessidade do mundo, não teremos razão para pensar que o panenteísmo é
verdadeiro.67
Para maior
clareza, é possível refinar a linguagem utilizada por Göcke.68
Primeiramente, acredito que Göcke deveria usar o termo "universo" em
vez de "mundo". Um universo é um conjunto espaço-temporal de objetos
físicos que não mantém relações espaciais, temporais ou causais com qualquer
outro conjunto espaço-temporal de objetos físicos desse tipo. Um mundo é um
estado de coisas maximalmente compossível. Existe um mundo possível no qual
Deus existe sozinho. Existe um mundo possível no qual Deus e um universo
existem. Existe um mundo possível no qual Deus e um multiverso existem.69
Com essas distinções entre mundos e universos em mente, percebe-se por que
Göcke não deveria falar em termos do status modal do mundo. Dizer que o mundo
existe necessariamente é trivial, pois algum tipo de mundo deve existir. Em vez
disso, Göcke deveria afirmar que a diferença entre o teísmo e o panenteísmo
reside no status modal do universo. Os panenteístas, segundo a perspectiva de
Göcke, deveriam afirmar que o universo é uma propriedade necessária de Deus.
No entanto,
isso também não parece correto. Um universo não pode ser uma propriedade. Um
universo é um objeto concreto ou uma coleção de objetos concretos, enquanto
propriedades são objetos abstratos. Parece que Göcke quer dizer que, no
panenteísmo, o universo existe necessariamente. Mas será que Göcke pretende
sugerir algo mais com a afirmação de que o universo é uma propriedade de Deus?
Creio que não. Göcke afirma reiteradamente que a relação de Deus com o mundo
(leia-se: universo) é uma relação necessária. Alguns poderiam pensar que a
afirmação de que o universo é uma propriedade intrínseca de Deus é uma
tentativa de dizer algo além disso. Parece que Göcke está tentando abordar o
sempre esquivo "em" do panenteísmo. Talvez se possa sugerir que Göcke
esteja, na verdade, tentando dizer que o universo é uma parte própria de Deus.70
Contudo, Göcke afirma explicitamente que o panenteísta não deve optar por
uma abordagem mereológica em relação a Deus e ao universo.71
Concordo
plenamente com ele neste ponto, uma vez que uma abordagem mereológica fracassa
exatamente pela mesma razão que vimos acima em relação à encarnação: ela não
nos diz nada de único sobre Deus. A mereologia poderia fazer parte da narrativa
metafísica do panenteísmo, mas certamente não toca no cerne da demarcação do
panenteísmo. No máximo, uma abordagem mereológica nos dirá algo único sobre a
mereologia. Suponha que o panenteísta sustente uma composição irrestrita, de
modo que Deus e o universo constituam um todo maior. Qualquer teísta poderia
adotar essa mereologia sem alterar sua doutrina sobre Deus. Mudar a mereologia
não captura a pretensão do panenteísta de possuir uma compreensão de Deus
teologicamente mais adequada. Assim, parece-me justificado que Göcke rejeite as
abordagens mereológicas ao panenteísmo como meio de demarcar essa doutrina.
O que, então,
Göcke está dizendo? Parece que a única afirmação feita aqui por Göcke é que o
panenteísmo sustenta que o universo existe necessariamente, enquanto o teísmo
sustenta que o universo existe contingentemente. Como devemos interpretar essa
demarcação entre panenteísmo e teísmo? Ela distingue claramente o teísmo do
panenteísmo? Não. Apresentarei três razões para considerar que essa demarcação
fracassa.
Primeiro,
como observado acima, teístas clássicos como Rogers e McCann sustentam
explicitamente que existe apenas uma maneira de o mundo ser. O mundo atual é o
único mundo possível. Em outro lugar, argumentei que o compromisso do teísmo
clássico com a simplicidade divina implica a existência de apenas um mundo
possível.72 Há várias maneiras de desenvolver esse argumento, mas
aqui está a mais rápida. Segundo a doutrina da simplicidade divina, a essência
de Deus é idêntica à Sua existência. Além disso, o único ato simples de Deus é
idêntico à Sua essência/existência. O ato de Deus de criar o universo é
idêntico a esse único ato simples e, portanto, idêntico à essência/existência
de Deus. Deus existe por necessidade absoluta. Logo, Seu ato de criação ocorre
por necessidade absoluta, visto que é idêntico à Sua essência/existência.
Certos
teístas clássicos responderão prontamente dizendo que a criação existe apenas
por necessidade condicional, mas isso é falso. Se o ato de criação de Deus for
de necessidade condicional, Seu ato não é idêntico à Sua essência. Isso ocorre
porque a necessidade condicional não é idêntica à necessidade absoluta.
Portanto, se o teísta clássico adotar essa posição, estará abandonando a
simplicidade divina, pois será forçado a afirmar que o ato de Deus não é
idêntico à essência de Deus. Visto que a simplicidade faz parte do núcleo
fundamental do teísmo clássico, essa não é uma opção viável para o teísmo
clássico.
Além disso, o
mundo atual é o único mundo possível. O mundo atual contém um universo. Pode
conter um multiverso. Não tenho certeza, mas certamente contém este universo.
Assim, no teísmo clássico, o status modal do universo é de necessidade. Até
mesmo um teísta neoclássico como Timothy O’Connor argumenta que é inevitável
que Deus crie o multiverso.73 O teísta neoclássico Klaas Kraay
argumentou que o único mundo possível é aquele em que Deus cria um multiverso.
Kraay é explícito ao afirmar que isso implica um colapso modal; portanto, a
relação de Deus com o multiverso é necessária.74 Assim, o status
modal do universo não distingue o teísmo clássico e o neoclássico do
panenteísmo. Ambos parecem sustentar que o status modal do universo é de
necessidade.
Em segundo
lugar, nem todos os panenteístas consideram que o status modal do universo seja
de necessidade. Thomas Jay Oord defende uma tese mais branda: é necessário que
Deus exista com algum tipo de universo, mas não é necessário que Deus exista
com *este* universo. Para compreender essa tese mais branda, deve-se notar que
Oord nega a doutrina da criação *ex nihilo*. Deus cria *ex chaosmos*. Existe um
cosmos caótico coeterno que está intimamente relacionado a Deus e depende
d’Ele. Deus cria um universo ordenado a partir desse cosmos caótico. Dada a
natureza amorosa de Deus, Ele está sempre criando algum tipo de universo. Oord
propõe uma cosmologia cíclica na qual um universo ordenado surge por meio de um
*Big Bang*, segue seu curso e, eventualmente, entra em colapso, dando origem a
um novo *Big Bang* que inicia outro universo. Esse processo de expansão e
colapso de universos é eterno. Segundo essa perspectiva, Deus não precisa
existir com um tipo específico de universo, mas deve existir com um universo de
algum tipo.75 A afirmação de que um Deus amoroso deve criar um
universo de algum tipo assemelha-se notavelmente a alegações feitas pelo teísta
neoclássico O’Connor. Como observado anteriormente, O’Connor argumenta que é
inevitável que um Deus amoroso crie um universo de algum tipo. O amor de Deus
transborda em um ato criativo que produz um multiverso. Assim, tanto
panenteístas quanto teístas neoclássicos podem sustentar que Deus deve existir
com um universo de algum tipo. Portanto, nada aqui distingue claramente o
panenteísmo do teísmo.
Em terceiro
lugar, nem todos os panenteístas sustentam que Deus deve existir juntamente com
algum tipo de universo. Philip Clayton, o principal panenteísta contemporâneo,
afirma que Deus criou o universo livremente. O universo é contingente e não
existiu desde sempre. Deus existiu antes e sem o universo. Deus criou o
universo *ex nihilo*. O universo não é o resultado inevitável da natureza
divina.76 Assim, no panenteísmo de Clayton, o estatuto modal do
universo é contingente, não necessário. A demarcação proposta por Göcke não
corresponde às visões defendidas pelos panenteístas. Além disso, a maioria dos
teístas descritos anteriormente concorda com a doutrina da criação de Clayton.
Portanto, nada aqui distingue o teísmo do panenteísmo.
Contudo, pode
haver uma réplica aos meus argumentos. Suponhamos que Göcke insista em sua
demarcação entre teísmo e panenteísmo. Talvez se possa dizer que esses teístas
clássicos e neoclássicos, que afirmam que Deus deve criar um universo, são, na
verdade, apenas panenteístas disfarçados. Isso seria bastante estranho.
Queremos realmente afirmar que Tomás de Aquino, Rogers, McCann, O’Connor e
Kraay são todos panenteístas ocultos? Isso parece desafiar a credulidade. Além
disso, visto que existem panenteístas que não insistem que Deus deva criar,
pode-se alegar que a demarcação de Göcke simplesmente não captura com precisão
o núcleo essencial do teísmo ou do panenteísmo. Em outras palavras, Göcke não
oferece uma interpretação precisa daquilo em que os próprios teístas e
panenteístas realmente acreditam. Como afirma Lataster, Göcke está interessado
apenas em um Deus de sua própria invenção.77
No entanto,
Göcke pode apresentar uma contra-argumentação a isso. Como já foi observado,
Göcke tem dificuldade em discernir o que é o panenteísmo examinando o que os
próprios panenteístas dizem. Em uma série de artigos trocados com Lataster
sobre o panenteísmo, Göcke queixa-se de que Lataster não declara quais são as
características únicas e definidoras do panenteísmo. A tentativa de Göcke de
delimitar o panenteísmo não precisa ser considerada uma descrição precisa do
que dizem os panenteístas, uma vez que é difícil compreender o que eles estão
dizendo. Em vez disso, ela deve ser tomada como uma prescrição plausível sobre
o que os panenteístas deveriam afirmar. 78 Assim, Göcke poderia
admitir que nem todos os panenteístas sustentam a necessidade do universo, mas
insistir que eles deveriam fazê-lo. Por quê? Porque essa é a melhor maneira de
distinguir o panenteísmo de suas correntes teístas rivais.
Tendo isso em
mente, Göcke poderia apresentar uma réplica como esta. Ele poderia argumentar
que meus argumentos não estabelecem a impossibilidade de distinguir entre
teísmo e panenteísmo. Em vez disso, estabeleço apenas que o teísmo clássico e o
neoclássico não podem ser distinguidos do panenteísmo. Por quê? O teísmo
clássico e o neoclássico implicam logicamente que Deus deve criar o universo; o
universo existe necessariamente. Portanto, embora pensadores como Aquino,
Rogers e Kraay não se declarem panenteístas, suas visões implicam logicamente o
panenteísmo. Contudo, o teísmo aberto — com sua negação da simplicidade divina
e sua ênfase mais forte na liberdade divina — não implica que Deus deva
necessariamente criar o universo. Assim, o teísmo aberto distingue-se do
panenteísmo.
Essa pode ser
uma via possível, mas não me parece justificar as afirmações dos panenteístas.
Embora eu simpatize imensamente com a abordagem prescritiva de Göcke, acredito
que qualquer definição prescritiva adotada deve abarcar as diversas afirmações
feitas pelos panenteístas. Por exemplo, os panenteístas sustentam que seu
modelo de Deus apresenta uma relação entre Deus e o universo mais radical e
íntima do que a proposta pelo teísmo. O estatuto modal do universo parece
irrelevante para essa afirmação. Pode-se dizer que Deus é atemporal ou
temporal, fortemente imutável ou fracamente imutável, e assim por diante, e
ainda assim afirmar a necessidade do universo.
Parece-me que
isso fracassa por uma razão semelhante àquela pela qual fracassa a afirmação de
que o universo é o corpo de Deus. Nenhuma dessas demarcações diz algo de único
sobre a natureza de Deus, sendo que o panenteísmo deveria, justamente,
apresentar uma afirmação singular a respeito da natureza divina. Todo o
trabalho de demarcação concentra-se no âmbito da criação. Basta alterar a
definição de "corpo" para que o universo passe a ser considerado o
corpo de Deus, ou mudar o estatuto modal do universo, e teremos o panenteísmo.
Nenhum desses procedimentos revela algo de único sobre Deus — e é exatamente
isso que se exige para que um modelo de Deus possa ser demarcado em relação a
outros modelos rivais.
Mais uma Tentativa de delimitar
o Panenteísmo
Talvez
existam algumas opções possíveis para o panenteísta. Nesta seção, apresentarei
uma possibilidade que precisará ser explorada em trabalhos futuros. Reiterando,
simpatizo imensamente com a abordagem prescritiva de Göcke em relação ao
panenteísmo. No entanto, não estou convencido de que sua proposta capture as
afirmações que os próprios panenteístas desejam fazer, nem que ela realmente
pareça "cortar a realidade em suas articulações naturais". O que é
necessário é uma proposta que (a) diga algo único sobre Deus que outros modelos
não dizem e (b) que esclareça a afirmação de que o universo está em Deus.
Aqui está
minha tentativa de oferecer uma definição prescritiva de panenteísmo. No que
diz respeito à condição (a), um panenteísta poderia fazer do espaço e do tempo
atributos de Deus. Existem passagens em pensadores como Nicole Oresme, Pierre
Gassendi, Isaac Newton e Samuel Clarke nas quais eles parecem equiparar a
onipresença e a eternidade de Deus ao espaço e ao tempo absolutos.79
Contudo, é difícil estabelecer que eles realmente pretendam dizer isso. Por
exemplo, em algumas de suas cartas, Clarke esclarece esse ponto. Não é que o
espaço e o tempo sejam atributos de Deus; em vez disso, o espaço e o tempo são
concomitantes necessários da existência de Deus.80 Talvez um
panenteísta não devesse fazer esse esclarecimento. Em vez disso, um panenteísta
deveria insistir que o espaço e o tempo absolutos são atributos de Deus.81
O espaço e o tempo absolutos existem independentemente das coisas físicas e
temporais neles contidas.
Para fins de
clareza, deve-se notar uma distinção específica. Às vezes, faz-se uma distinção
entre espaço e tempo metafísicos e espaço e tempo físicos. Diz-se que o espaço
e o tempo metafísicos existem independentemente das medições que tentamos fazer
deles e independentemente da existência ou não de objetos físicos. Já o espaço
e o tempo físicos existem se, e somente se, objetos físicos existirem.82
Às vezes, o espaço e o tempo metafísicos são concebidos em termos de um
hiperespaço e de um hipertempo nos quais o espaço e o tempo físicos estão
inseridos.83 Dada essa distinção, o panenteísta estaria afirmando
que o espaço e o tempo absolutos devem ser interpretados como espaço e tempo
metafísicos. Estes são atributos divinos, ao passo que o espaço e o tempo
físicos não o são. Quando Deus cria um universo, Deus cria o espaço e o tempo
físicos. O espaço e o tempo físicos existem dentro do espaço e do tempo
metafísicos — ou seja, dentro de Deus.
O que se pode
dizer sobre a forma de demarcar o panenteísmo? Essa abordagem satisfaz a
condição (a) porque faz uma afirmação singular sobre Deus que outros modelos de
Deus não fazem. Os teístas clássicos tipicamente afirmam que Deus cria o espaço
e o tempo e que, portanto, o espaço e o tempo não são atributos de Deus. Alguns
teístas neoclássicos e teístas do "teísmo aberto" (*open theists*)
afirmam que o tempo absoluto é um concomitante necessário do ser de Deus (por exemplo,
Clarke e Swinburne), mas não insistem que o espaço e o tempo absolutos sejam
atributos divinos. Assim, isso permite ao panenteísta distinguir sua
compreensão de Deus daquela dos teístas.
E quanto ao
panteísmo? Pode o panenteísta distinguir-se do panteísmo? Sim. O panenteísta
não deve insistir que Deus e o universo são a mesma substância. Ele pode
sustentar que Deus e o universo são substâncias distintas. Deus e o universo
não são idênticos. O universo não é idêntico ao espaço e ao tempo absolutos. O
universo existe no espaço e no tempo absolutos. Ao identificar Deus e o
universo, o panteísta elimina a distinção entre o espaço e o tempo
absolutos/metafísicos e os físicos. O panenteísta, por sua vez, insistirá nessa
distinção.
Quanto a
satisfazer a condição (b), o panenteísta pode dizer que o estatuto modal do
universo é irrelevante para captar o sentido de "em" no panenteísmo.
Ele é livre para afirmar a necessidade ou a contingência do universo. No
entanto, afirmará que o universo está literalmente em Deus, porque o universo
está espacial e temporalmente situado em Deus. O universo está situado no
espaço e no tempo absolutos, e o espaço e o tempo são atributos divinos. Isso
pode, de fato, captar o sentido de "em" do panenteísmo em termos
metafísicos, em vez de metafóricos. O universo está literalmente em Deus, uma
vez que o espaço e o tempo são atributos de Deus. Se alguém seguir Clarke e
disser que o espaço e o tempo são concomitantes necessários da existência de
Deus, não será um panenteísta. Não estará dizendo que estamos literalmente em
Deus, mas apenas no espaço e no tempo. Ao afirmar que o espaço e o tempo são
atributos divinos, o panenteísta estará afirmando que o universo está
literalmente em Deus.
Acredito que
essa proposta possa ser mais bem desenvolvida para abarcar tanto o núcleo
essencial do panenteísmo quanto a diversidade existente em seu interior. Ela
confere conteúdo substantivo à afirmação de que o universo não é idêntico a
Deus, mas sim que está em Deus. Os panenteístas poderiam utilizá-la para justificar
a alegação de que seu modelo de Deus estabelece uma relação com o universo mais
radical e íntima do que a do Deus teísta. Além disso, permite que os
panenteístas continuem a divergir quanto ao estatuto modal do universo. Não me
parece claro como o panenteísta poderia usar isso para justificar a alegação de
que seu modelo de Deus é mais científico do que os modelos rivais, embora eu já
nutra dúvidas independentes sobre essa afirmação.
Naturalmente,
esse modelo suscita muitas questões e possíveis objeções. Vejo isso como uma
vantagem, pois atende a uma das intenções de Göcke ao delimitar o panenteísmo.
Ao delimitar claramente o panenteísmo, torna-se possível desenvolver argumentos
sobre a sua veracidade ou falsidade. Isso não seria viável se o panenteísmo
permanecesse vago e nebuloso. Para Göcke, a veracidade ou falsidade do
panenteísmo envolvia examinar o estatuto modal do universo. No modelo de
panenteísmo que proponho, isso envolverá examinar a existência de espaço e
tempo absolutos, bem como argumentos que identifiquem o espaço e o tempo
absolutos como atributos divinos. Isso oferece um caminho claro para futuras
investigações sobre a validade do panenteísmo.
Conclusões
Analisei duas
tentativas de delimitar o panenteísmo em relação ao teísmo e ao panteísmo e
argumentei que ambas fracassam. Se os panenteístas desejam sustentar que sua
visão se situa em um ponto intermediário entre o teísmo e o panteísmo, precisam
apresentar uma maneira clara de distinguir sua posição das rivais. Esbocei uma
possível forma de os panenteístas delimitarem sua posição, mas resta saber se
eles desejarão ou não endossar essa proposta. Caso a rejeitem, resta-me
perguntar mais uma vez: "Será que o panenteísmo constitui, de fato, uma
posição?" Talvez constitua, mas deixo a cargo dos panenteístas explicar
como isso se dá.
Agradecimentos: O autor gostaria de agradecer a Gocke
pelos comentários úteis sobre uma versão preliminar deste artigo.
Notas
1 (Lataster,
2014)
2 Michael W.
Brierley, ‘The Potential of Panentheism for Dialogue between Science and
Religion’, em (Clayton e Simpson, *The Oxford Handbook of Religion and
Science*, 2006). (Clayton, *God and Contemporary Science*, 1997) (Peacocke,
2007).
3 Owen C.
Thomas, ‘Problems in Panentheism’, em (Clayton e Simpson, *The Oxford Handbook
of Religion and Science*, 2006).
4 (Hutchings,
2010, 297)
5 (Hutchings,
2010, 299)
6 (Lataster,
*The Attractiveness of Panentheism – A Reply to Benedickt Paul Gocke*, 2014,
390)
7 (Biernacki
e Clayton, 2014).
8 (Hutchings,
2010, 299)
9 Os leitores
notarão que não incluí o teísmo do processo neste artigo. Diller e Kasher
tratam a teologia do processo como uma categoria distinta do panenteísmo.
Devido a limitações de espaço, optei por não discutir a teologia do processo.
10
(Agostinho, *Cidade de Deus*, 1958, XI.10).
11 Para mais
detalhes sobre atemporalidade, imutabilidade e simplicidade, veja (Mullins,
*Simply Impossible: A Case Against Divine Simplicity*, 2013). (Lombard, 2007,
Dist. VIII.6).
12 (Keating e
White, 2009). (Wolterstorff, 2010). (Arminius, 1986).
13 (Lombard,
2007, Dist. XXXVI-XXXVII).
14 (Aquino,
*Summa Contra Gentiles*, I.66)
15 (Fox,
2006, 226–7)
16 Robert
Pasnau, ‘On Existing All at Once’, em (Tapp e Runggaldier, 2011). Veja também
(Pasnau 2011, capítulo 18).
17 (Dyer
2010)
18
(Agostinho, A Cidade de Deus 1958, XI.21). (Charnocke 1682, 186 e 192).
19 (Helm
2010). (Mawson 2005). (Rogers, Anselmian Eternalism: The Presence of a Timeless
God 2007b).
20 (Hawley
2001).
21 (Blowers
2012, 154 e ss.).
22 Para mais
informações sobre Proclo e Filopono, veja (Mullins, Divine Perfection and
Creation, no prelo).
23 (Rogers,
Anselm and His Islamic Contemporaries on Divine Necessity and Eternity 2007a).
24 (Rogers,
The Anselmian Approach to God and Creation 1997, 68–9). (McCann 2012, 170).
25 (Mullins,
Simply Impossible: A Case Against Divine Simplicity 2013).
26 (Achtner
2005, 396).
27 (Oppy,
2014, 33).
28 (Shults
2005, 101).
29 (Rogers,
Perfect Being Theology 2000, 11–12).
30 (Oppy,
2014, 34).
31 (Scotus
1975, 5.10–11). (Cross 2005, 91 e 99–103).
32 Kevin Timpe,
‘Introduction to Neo-classical Theism’, em (Diller e Kasher 2013).
33 (Clarke
1998). (Wolterstorff 2010). (Morris 1991). (Feinberg 2001). (Craig 2001). 34
Linda Zagzebski, ‘Omnisubjectivity’, em (Kvanvig, *Oxford Studies in Philosophy
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35
(Taliaferro 1989)
36 Timothy
O’Connor, ‘Theism and the Scope of Contingency’, em (Kvanvig, *Oxford Studies
in Philosophy of Religion* 2008).
37 (Hasker,
Oord e Zimmerman 2011).
38 (Swinburne
1977, capítulo 8). John Sanders, ‘Divine Providence and the Openness of God’,
em (Ware 2008, 197).
39 (Rhoda,
Boyd e Belt 2006).
40 Dean
Zimmerman, ‘The A-Theory of Time, Presentism, and Open Theism’, em (Stewart
2010, 800–805).
41 Alan R.
Rhoda, ‘The Fivefold Openness of the Future’, em (Hasker, Oord e Zimmerman 2011,
74–75).
42 Craig
Bourne, ‘Fatalism and the Future’, em (Callender 2011, 46–60).
43 (Peters
2007, 281).
44 (Spinoza
1910, parte 1. Proposições XI-XXIV).
45 (Spinoza
1910, parte 1. Proposições XIII-XV).
46 (Hegel
1975, 214).
47 (Lodzinski
1998).
48 (Mander,
*Does God Know What it is Like to be Me?* 2002). (Leslie 2001).
49 (Mander,
*Omniscience and Pantheism* 2000, 204).
50 Philip
Clayton, ‘Introduction to Panentheism’, em (Diller e Kasher 2013).
51 (Gocke
2013, 63). Cf. (Clayton & Peacocke, 2004). 52 (Biernacki & Clayton,
2014).
53 Owen C.
Thomas, ‘Problems in Panentheism’, em (Clayton e Simpson, 2006).
54 Anna
Case-Winters, ‘Rethinking Divine Presence and Activity in World Process’, em
(Oord 2009, 69–70).
55 Keith
Ward, ‘The World as the Body of God: A Panentheistic Metaphor’, em (Clayton
& Peacocke, 2004).
56 (Mawson,
God’s Body, 2006)
57 (Barua,
2010)
58
(Swinburne, 1977, 102–4).
59 (Clayton,
Panentheisms East and West 2010).
60 Donald
Wayne Viney, ‘Relativising the Classical Tradition: Hartshorne’s History of
God’, em (Diller e Kasher 2013, 67).
61 (Barua,
2010)
62 (Clayton,
Panentheisms East and West 2010, 185).
63 (Clayton,
Panentheisms East and West 2010, 186).
64 (Gocke
2013, 72).
65 (Clayton,
*God and Contemporary Science* 1997). (Peacocke 2007).
66 (Biernacki
& Clayton, 2014).
67 (Gocke
2013, 61).
68 Vale notar
que parte dessa terminologia é esclarecida em Gocke, *Another Reply to Raphael*
(Lataster, 2015). No entanto, para uma compreensão mais profunda de sua própria
abordagem, veja Gocke, *A Theory of the Absolute* (2014a).
69 (Kraay,
*Theism, Possible Worlds, and the Multiverse* 2010).
70 Em sua
resposta a Lataster, ele faz essa sugestão, mas permanece cético quanto a ser
essa uma maneira de delimitar o panenteísmo. (Gocke, *Another Reply to Raphael
Lataster*, 2015)
71 (Gocke
2013, 68).
72 (Mullins,
*Simply Impossible: A Case Against Divine Simplicity*, 2013)
73 (O’Connor
2012, capítulo 5).
74 (Kraay,
*Theism and Modal Collapse* 2011).
75 Thomas Jay
Oord, "An Open Theology Doctrine of Creation and Solution to the Problem
of Evil", em (Oord 2009).
76 (Clayton,
*God and Contemporary Science* 1997, 93–96).
77 (Lataster,
*The Attractiveness of Panentheism – A Reply to Benedickt Paul Gocke*, 2014).
78 (Gocke,
*Reply to Raphael Lataster*, 2014b).
79 (Oresme,
1968) (Charleton, 1654).
80 (Clarke,
1998, 122–3).
81 Agradeço a
J.T. Turner por me incentivar continuamente a aprofundar esse ponto. 82 Para
mais informações sobre a distinção entre espaço e tempo metafísicos e físicos,
veja (Mullins, 2016).
83 (Hudson,
2005)(Hudson, 2014).
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