Autor: William Rowe
Transcrição cedida por Cezar Souza

Retirado do livro "Filosofia da religião", por Jeffrey Jordan, cap. 3.


As três primeiras “Cinco vias” de São Tomás de Aquino constituem-se como três importantes versões do argumento cosmológico [1]. Se usarmos a tradução da edição Blackfriars, a primeira via procede da seguinte maneira.
A primeira e mais óbvia via está baseada na mudança. Algumas coisas no mundo estão certamente em processo de mudança: vemos isto claramente. Ora, qualquer coisa que está em processo de mudança está sendo mudada por outra coisa. Isto se dá porque é característica das coisas em processo de mudança que elas não possuem a perfeição para a qual tendem, embora aptas a tê-la; enquanto é característico de algo que provoca a mudança ter aquela perfeição. Com efeito, provocar mudança é trazer à existência o que anteriormente apenas era capaz de ser, e isto só pode ser feito por algo que já é: deste modo, o fogo, que na verdade é quente, faz com que a madeira, que é capaz de aquecer-se, fique de fato aquecida e, desta forma, provoca mudança na madeira. Ora, uma mesma coisa não pode ser ao mesmo tempo tento de fato X e potencialmente Y,: o que de fato é quente não pode ser ao mesmo tempo potencialmente quente, embora possa ser potencialmente frio. Consequentemente, uma coisa em processo de mudança não pode, ela própria, provocar a mesma mudança; ela não pode mudar a si mesma. Necessariamente, portanto, qualquer coisa em processo de mudança está sendo transformada por outra coisa. Ademais, esta outra coisa, se em processo de mudança, ela própria está sendo mudada ainda por outra coisa; e esta última, por outra. Ora, em algum lugar devemos deter-nos, do contrário não haverá nenhuma causa primeira da mudança e, como resultado, nenhuma causa subsequente. Com efeito, somente quando afetadas pela causa primeira é que as causas intermédias produzirão a mudança: se a mão não move o bastão, o bastão não moverá outra coisa. Por conseguinte, é-se forçado a chegar a alguma coisa primeira da mudança, não sendo ela mesma mudada por nada, e isto é o que todos entendem por Deus [2].
Antes de examinar a estrutura deste argumento, precisamos observar que esta é tão somente a primeira parte do argumento cosmológico, ou seja, um argumento para estabelecer a existência de um modificador imutável, uma causa primeira da transformação, que não se encontra, ela mesma, em processo de mudança. Após concluir sua defesa do modificador imutável, Aquino simplesmente acrescenta “e isto é o que entendemos por Deus”. Mas, obviamente, há uma questão séria quanto a se um modificador imutável precisa ter as propriedades de um Deus teísta. Seria injusto com Aquino, porém, acusá-lo de simplesmente pressupor que um modificador imutável teria de ser Deus. De fato, em outras partes da Summa Theologica, Aquino apresenta argumentos racionais destinados a demonstrar que o modificador imutável deve possuir as propriedades associadas ao conceito teísta de Deus [3]. O argumento para estabelecer a existência de um modificador imutável representa, portanto, uma versão importante da primeira parte do argumento cosmológico. O desenvolvimento completo do argumento na Summa Theologica de Aquino estende-se muito além desta breve asserção das três primeiras vias.

Com o termo “mudança” Aquino tenciona incluir mudança no espaço, mudança na quantidade (por exemplo, algo que se torna maior ou menos) e mudança na qualidade (por exemplo, algo que muda de frio para quente)> O argumento, creio, é mais potente quando a mudança em questão é da terceira ordem: mudança na qualidade; contudo, ao avaliar o argumento, não limitarei a discussão a exemplos de mudança qualitativa. O argumento começa com o fato acerca do mundo que a experiência nos ensina: algumas coisas mudam.

1. Algumas coisas estão em processo de mudança. 

A próxima premissa no argumento representa o que Aquino veria como um princípio metafísico estabelecido por um raciocínio a priori, mais do que o fato estabelecido por experiência. 

2. O que quer que esteja em processo de mudança está sendo mudado por outra coisa.


Aquino reconhece a necessidade de estabelecer esta premissa e, portanto, tenta apoiá-la com um argumento. Examinaremos este argumento para (2), abaixo.

3. Um retrocesso infinito de modificadores, casa um mudado por outro, é impossível.

(3) tem sido frequentemente negado por críticos deste argumento. Examinaremos (3) e o argumento de Aquino em favor dele.

Portanto:

4. Há uma causa primeira da mudança, não estando, ela própria, em processo de mudança.


O cerne deste argumento, conforme Aquino reconhece claramente, consiste em duas alegações: que qualquer mudança esteja em mudança está sendo modificada por outra coisa, e que um retrocesso infinito de modificadores, casa um mudado pelo outro, é impossível. Comecemos nossa análise do argumento esquadrinhando o argumento de Aquino para apoiar a premissa (2).

Se algo encontra-se em processo de mudança qualitativa, então, na opinião de Aquino, está passando a determinado estado no qual, de fato, não se encontra agora. Por exemplo. se a água na chaleira está mudando de fria para a fervura, então se pode dizer que ela está passando para o estado de fervura, mas somente à medida que ela está passando para esse estado, ainda não se encontra no estado, mas em um estado algo intermédio entre frio e em ebulição. Ora, se algo não está realmente em determinado estado, mas pode passar para esse estado - como a água que não está deveras quente, isto não obstante, ela pode tornar-se quente -, na opinião de Aquino, este algo está potencialmente naquele estado, mas não efetivamente nele. Destarte, a água fria é potencialmente quente, mas não efetivamente quente, e a água quente é potencialmente fria, mas não efetivamente fria. Tais considerações levam Aquino ao princípio de que nada pode estar tanto efetivamente quanto potencialmente no mesmo estado ao mesmo tempo. “Ora uma mesma coisa não pode ser ao mesmo tempo tanto de fato X quanto potencialmente X, embora possa ser de fato X e potencialmente Y: o que de fato é quente não pode ser ao mesmo tempo potencialmente quente, embora possa ser potencialmente frio”. Até aqui, o argumento de Aquino parece convincente, mas ainda estamos a um passo importante de estabelecer que qualquer coisa que esteja em processo de mudança está sendo mudada por outra coisa.

Chegamos agora ao passo crucial do argumento de Aquino para a premissa (2). Aquino alega que, se algo encontra-se em processo de mudança para um estado A, deve haver algo efetivamente no estado que está fazendo com que a coisa em questão esteja mudando para o estado A. Esta é a interpretação mais plausível de sua observação: “Com efeito, provocar mudança é trazer à existência o que anteriormente apenas era capaz de ser, e isto só pode ser feito por algo que já é: deste modo, o fogo, que na verdade é quente, faz com que a madeira, que é capaz de aquecer-se, fique de fato aquecida e, desta forma, provoca mudança na madeira”.


Há duas objeções importantes para esta alegação fundamental no raciocínio de Aquino em apoio à premissa (2). Mas antes de considerar tais objeções, precisamos ver o papel básico que a alegação de Aquino desempenha neste argumento para a premissa (2). Tal argumento pode ser exibido como segue:

i. Se algo está em processo de mudança para um estado A, então ele está potencialmente no estado A.

ii. Se algo está em processo de mudança para um estado A, deve haver algo que está efetivamente no estado A que está levando a coisa em questão a ser mudada para o estado A.

iii. Nada pode estar tanto efetivamente no estado A quanto potencialmente no estado A ao mesmo tempo.

Portanto:

2. O que quer que esteja em processo de mudança está sendo mudado por outra coisa.

Conforme observado acima, há duas objeções importantes ao passo crucial (ii) no argumento de Aquino para (2). Primeira, não parece ser universalmente verdadeiro que se uma coisa leva uma segunda coisa a mudar para determinado estado, a primeira coisa deve efetivamente estar naquele estado. Não parece verdadeiro que se algo torna a água quente deve ele próprio estar quente. Mas suponhamos que uma planta está em processo de morte. Deve aquilo que leva a planta a estar mudando para o estado de estar morta ser algo que ele próprio já está efetivamente morto? Ademais, Aquino não acredita que Deus pode diretamente fazer com que a água fria se torne quente? No entanto, não faz sentido dizer que Deus está no estado de ser quente. Talvez Aquino tenha apenas tido a intenção de afirmar que se uma coisa leva uma segunda coisa a estar mudando para determinado estado a primeira coisa deve efetivamente estar naquele estado ou ter tudo o que aquele estado representa em outra forma. Destarte, embora Deus não seja efetivamente quente, ele tem todo o poder que é representado pelo estado de calor. Contudo, uma vez que começamos a restringir o princípio básico de Aquino desta maneira, o princípio torna-se vago a ponto de tornar difícil compreender exatamente o que está sendo afirmado e se torna menos claro que uma coisa não possa provocar a mudança em si mesma. Assim, de acordo com a primeira objeção, se tomarmos o princípio de Aquino literalmente, parece haver contraexemplos para ele. Por outro lado, se tentarmos restringir o princípio não insistindo em que a causa efetivamente esteja no estado para o qual ela está levando outra a mudar o princípio torna-se vago e difícil de compreender, daí resultando que se torna menos do que certo que uma coisa não possa levar a si mesma a mudar para determinado estado. De fato, enquanto está claro que nada pode estar tanto efetivamente quanto potencialmente em determinado estado ao mesmo tempo, não é tão claro que uma coisa possa ter o poder ou grau de realidade representado por determinado estado, ainda que esteja efetivamente naquele estado.

Não é difícil ver a ideia fundamental que subjaz no raciocínio de Aquino. Se algo sofre mudança, e como resultado, chega a ter algum traço que não possuía anteriormente, pareceria que o único modo pelo qual ele poderia obter esse traço é de algo que já o tem. Uma vez que ele próprio não o tinha, ele não pode ter sido a causa da mudança que ele sofreu ao chegar a adquiri-lo. Tampouco nenhuma outra coisa que carecesse daquele traço poderia ter levado esta coisa a chegar a adquirir tal traço. Supor diferentemente seria supor que algo provém do nada. Consequentemente, o que quer que leva uma coisa a chegar a possuir algo deve ser uma coisa que já tem aquele algo e, por conseguinte, pode transmiti-lo à coisa que está sofrendo mudança. 

Por mais atraente que esta ideia fundamental pareça ser, ela esconde uma pressuposição de enorme importância, e a intenção da segunda objeção principal é trazer à tona esta pressuposição. O melhor modo de ter acesso a esta pressuposição é observar que Aquino considera somente duas alternativas na discussão do fato de que algumas coisas estão em um processo de mudança. Ele considera a possibilidade de que uma coisa possa ser a causa de seu próprio processo de mudança e considera a possibilidade de que outra coisa possa ser a causa da mudança que está sofrendo. O que ele não considera é uma terceira possibilidade: ou seja, que é simplesmente um fato bruto que determinadas coisas estão mudando. Naturalmente, sabemos que muitas coisas que estão mudando estão sendo mudadas por outras coisas - deste modo, a água está sendo mudada de fria para quente através de outra coisa: o fogo. Mas a questão é, por que não se pode saber algumas coisas em processo de mudança que não estão nem levando a si mesmas a mudar nem sendo mudadas por outras coisas? Suponhamos que digamos que é um fato bruto que X está mudando, somente no caso de X estar mudando, mas não há nada que o esteja levando a mudar. E a questão é: que razões Aquino apresenta para excluir a possibilidade de que é um fato bruto que determinadas coisas estão mudando? A resposta é que Aquino não apresenta razão alguma para rejeitar esta possibilidade. Ele simplesmente não considera uma possibilidade genuína. Deste modo, depois de recusar a possibilidade de que uma coisa provoque mudança em si mesma, Aquino infere imediatamente: “Necessariamente, portanto, qualquer coisa em processo de mudança está sendo transformada por outra coisa”. Enfatizar esta inferência é uma pressuposição básica, a saber, que jamais é um fato bruto que algo está mudando.

A segunda objeção importante questiona esta pressuposição. Por que deveríamos acreditar que jamais é um fato bruto que algo está mudando? Naturalmente, se houve tal fato bruto, então haveria algum fato que é sem nenhuma explanação causal. E se uma explanação causal é a única forma de explanação apropriada quando o fato em questão é alguma coisa que está mudando de um estado para o outro, então admitir fatos brutos é admitir fatos que são ininteligíveis no sentido de que eles não admitem explanação. Mas, novamente: por que não admitir que alguns fatos que envolvem mudança são definitivos no sentido de que enquanto eles podem entrar na explanação de outros fatos eles próprios não têm nenhum tipo de explanação? Tendo levantado esta questão sob a forma de uma objeção ao raciocínio de Aquino para a premissa (2), não precisamos levá-la adiante por enquanto. No momento, basta observar que Aquino está pressupondo mudança qualitativa. A intenção da objeção é simplesmente trazer à tona esta pressuposição e questionar sua verdade.

Até aqui, Aquino demonstrou que algumas coisas estão em processo de mudança, e o que quer que esteja em processo de mudança está sendo mudado por outra coisa. Ora, se começarmos com algo que está em um processo de mudança, ao traçarmos as causas de seu processo de mudança devemos deparar-nos seja com um retrocesso infinito de modificador, cada um em processo de mudança, e portanto, sendo mudado por outra coisa, seja que o retrocesso deva terminar em algum lugar em uma causa de mudança, ela própria, é imutável. O passo final do argumento de Aquino é estabelecer que:

3. Um retrocesso infinito de modificadores, cada um mudado por outro, é impossível.


Seu argumento é que se não há nenhuma causa primeira de mudança, ela mesma imutável, não pode haver nada em processo de mudança. “Com efeito, somente quando afetadas pela causa primeira é que as causas intermédias produzirão a mudança: se a mão não move o bastão, o bastão não moverá nenhuma outra coisa”. Na superfície, deve-se admitir que o argumento de Aquino parece não ser nada mais do que uma instância bastante grosseira de argumento circular. Queremos saber por que Aquino pensa que a série deve terminar em um primeiro modificador, ele próprio imutável, em vez de regressar ao infinito, cada causa de mudança, ela mesma, em um processo de mudança, e portanto, sendo mudada por outra coisa. Em resposta a nossa investigação, Aquino, de fato, nada mais diz do que, em uma série que tem um primeiro membro, se esse primeiro membro não provoca mudança, então não haverá nenhum processo de mudança em nenhum membro da série. E isto parece suficientemente verdadeiro. Mas, obviamente, nossa questão não era por que, em uma série com um primeiro membro, o primeiro membro deva estar provocando a mudança a fim de que outros membros da série estejam em processo de mudança, mas por que precisa haver um primeiro membro em uma série na qual há membros em processo de mudança. Ao dar este tipo de resposta, Aquino parece pressupor que toda série na qual há membros em processo de mudança tem um primeiro membro. Mas esta é justamente a questão que ele se empenhou em estabelecer. Por conseguinte, seu argumento incorre em petição de princípio. 


Quando um filósofo da estatura de Aquino apresenta um argumento que parece ser um exemplo de argumento circular tirado de um compêndio, é prudente, de quando em vez, buscar algo sob a superfície que pode ter sido precariamente expresso, mas que, no entanto, pode representar sua verdadeira visão sobre o assunto. Embora, conforme afirmado, o argumento de Aquino seja, creio, circular, talvez haja mais em sua visão do que percebe à primeira vista. Em todo caso, com o risco de interpretar mal Aquino, apresentarei uma linha de raciocínio contra o retrocesso infinito que pode representar pelo menos parte de sua visão sobre o assunto. Contudo, visto que Aquino, mais uma vez, argumenta contra o retrocesso infinito na segunda via, e dado que a interpretação que eu quero sugerir é mais facilmente apresentada em conexão com a segunda via, adiarei seu desenvolvimento por enquanto.

A segunda via está baseada na natureza da causação. No mundo observável, as causas são encontradas ordenadas em séries; jamais observamos - nem jamais poderíamos - algo originar a si mesmo, pois isto significaria que ele precede a si mesmo, e isto não é possível. Tal série de causas, porém, deve parar em algum lugar; com efeito, nela um membro anterior origina um intermediário e o intermediário um último (quer o intermediário seja um, quer muitos). Ora, se se elimina a causa, eliminam-se igualmente seus efeitos, de modo que não se pode ter uma causa última nem uma intermediária, a menos que se tenha uma causa primeira. Não havendo nenhuma interrupção na série de causas e, portanto, nenhuma causa primeira, haveria tampouco causas intermediárias, e nenhum efeito derradeiro, e isto seria um franco engano. É-se forçado a supor alguma causa primeira, a que todos chamam “Deus” [4].


Talvez a primeira questão que vem à mente - ou, mais precisamente, fere o olho - quando a segunda via é comparada com a primeira, é que a segunda é um argumento mais breve. A razão para isto é clara. Em cada via há dois pontos a serem estabelecidos. O primeiro, que nada pode ser sua própria causa eficiente; o segundo, que um retrocesso infinito de causas é impossível. Ora, na segunda via o primeiro ponto é claro. Com efeito, na segunda via é pela existência de uma coisa que estamos indagando inicialmente, e parece óbvio que nada pode ser causa da própria existência. Destarte, na segunda via o primeiro ponto a ser estabelecido é tão óbvio a ponto de não exigir muito na forma de argumentação. Na primeira via, porém, não é a existência de uma coisa que é o objeto inicial de investigação, mas o fato de que uma coisa existente está em processo de mudança para algum estado, e não é absolutamente óbvio que algo não possa levar a si mesmo a sofrer mudança. Portanto, Aquino sente-se forçado a apresentar um argumento bastante elaborado para estabelecer a primeira via, e isto responde pelo fato de que a primeira via tem o dobro de extensão da segunda.

A segunda via de Aquino pode ser expressa como segue:
1. Algumas coisas existem e sua existência é causada.
2. Qualquer coisa que é levada a existir é levada a existir por meio de outra coisa.
3. Um retrocesso infinito de causas que resultasse na existência de uma coisa particular é impossível.

Portanto:
4. Há uma causa primeira da existência.


É evidente que a segunda via tem uma estrutura semelhante à da primeira via. Cada argumento tem três premissas, a primeira das quais afirma um fato bastante simples, que é verificado por nossa experiência do mundo. A seguir, vêm duas premissas, uma afirmando que nada leva a si mesmo a mudar (primeira via) ou a existir (segunda via); e a outra nega a possibilidade de um retrocesso infinito de causas de mudança (primeira via) ou de existência (segunda via). Finalmente, temos a conclusão a afirmar que existe uma causa imutável de mudança (primeira via) ou uma causa incausada da existência (segunda via);

Antes de tomarmos a rejeição de Aquino de um retrocesso infinito de causas da existência, dever-se-ia notar uma importante diferença entre a primeira e a segunda via. Ressaltamos uma pressuposição fundamental que subjaz no raciocínio de Aquino na primeira via: que, sempre que um processo de mudança acontece em uma coisa, algo deve causar este processo de mudança. Não pode haver fatos brutos a envolver um processo de mudança. O análogo a essa pressuposição na segunda via é que, se existe algo, algo deve levar aquela coisa a existir. Mas tal pressuposição não é exigida pelo raciocínio de Aquino na segunda via. A razão para isto é que a segunda premissa da segunda via não é “O que quer que exista é trazido à existência por outra coisa”, mas “O que quer que seja levado à existência é levado a existir por outra coisa”. A fim de provar a última, tudo de que Aquino precisa rejeitar é que algo deveria ser a causa de sua própria existência - e isto ele faz simplesmente observado que se uma coisa provoca sua própria existência ela deveria preceder a si mesma, o que, obviamente, é impossível.

Chegamos, novamente, à questão central nas duas primeiras vias: o argumento de Aquino contra um retrocesso infinito de causas. O argumento para esta conclusão na segunda via parece não ser nada mais do que uma repetição do argumento circular que encontramos na primeira via. Contudo, sugeri anteriormente que deve haver algo mais substancial sob a superfície deste argumento contra um retrocesso infinito de causas; agora é tempo de insistir no assunto.

A impressão superficial que se tem do argumento de Aquino contra o retrocesso infinito de causas é que ele defende que, sempre que temos uma série de mudanças nas coisas existentes (primeira via) ou uma série de causas que resultam na existência de algo (segunda via), a série deve ter uma primeiro membro. Assim, por exemplo, se um ser humano é gerado por outros seres humanos, e eles, em troca, por outros ainda, a impressão que este argumento passa é de que cada série de tais geradores de existência deve parar no primeiro membro, não pode retroceder ao infinito. Mas esta não é a opinião de Aquino. Sem dúvida, ele rejeita explicitamente a visão de que a geração de um ser humano por outros não poderia proceder ao infinito - “não é impossível que um ser humano seja gerado por ser humano até o infinito…” [5]. Está claro, pois, que a impressão que o argumento de Aquino passa contra o retrocesso infinito de causas não representa sua visão. Deve ser porque ele pensa que somente alguns retrocessos de causas não podem proceder ao infinito. Portanto, a fim de compreender seu argumento, precisamos distinguir aqueles retrocessos de causas que ele pensa que podem proceder ao infinito daqueles que ele pensa que não.

Infelizmente, Aquino diz pouco para nos ajudar neste assunto. Ele realmente diz que em causa eficientes é impossível proceder ao infinito per se, mas é possível proceder ao infinito acidentalmente no que diz respeito às causas eficientes. Aparentemente, pois, quando temos uma série de causas eficientes, a série pode ser uma série per se ou uma série acidental. Se a primeira, deve haver um primeiro membro; se a última, pode proceder ao infinito. A série de causas contempladas na primeira e na segunda via devem, portanto, ser séries de causas per se.

Notas
  1. As duas primeiras vias, conforme veremos, partilham um estilo comum de raciocínio.
  2. Summa Theologica, 1a, 2, 3.
  3. Cf. a observação de Padre Copleston sobre este assunto em A History of Philosophy II (Westminster: The Newman Press, 1960), p. 342-343.
  4. Summa Theologica, 1a, 3, 3.
  5. Summa Theologica, 1a, 46, 2.

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  1. A imutabilidade de Deus é sustentada por infinitas mutabilidades transcedentais que ocorrem nEle, logo Deus em Si não pode ser absolutamente imutável.

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