Autor: Gregory Gaboardi
Tradução: Iran Filho
1. INTRODUÇÃO [1]
A pergunta “ateísmo é crença?” confunde muita gente, mas é importante tentar respondê-la porque não há como discutir o ateísmo sem saber o que ele é. Começarei pelos argumentos que defendem que o ateísmo não é crença. Após mostrar as falhas desses argumentos me aprofundarei na noção de “crença” (através da Teoria dos Sistemas Intencionais de Dennett). Nas partes finais defenderei que o ateísmo é uma crença e comentarei algumas consequências disso.
Negar que o ateísmo é crença é um erro que não acontece sozinho. Suponho que ele surgiu e se disseminou nas tentativas de responder quem afirma que ateísmo é crença e que, por isso, dependeria da fé. Tornou-se comum negar que o ateísmo seja crença quando caberia mostrar o erro de supor que crença é o mesmo que fé. Respondendo que o ateísmo não é uma crença, mas uma ausência de crença (ou algo similar) ateus podem imediatamente colocar o ônus da prova sobre teístas. Por mais conveniente que isso seja em debates, é um erro erguido sobre outro. Sem ter que oferecer qualquer argumento positivo para o ateísmo, basta repetir que a ciência dispensa divindades, que religiões são más, entre outras afirmações que até podem refutar certos teístas, mas que também poderiam ser feitas por um agnóstico ou mesmo por um panteísta. Afirmações que ficam, enfim, longe de estabelecer o próprio ateísmo.
Embora seja falsa, a afirmação “ateísmo é ausência de crença” ameaça ganhar ares de obviedade. Se tudo que queremos dizer com ela é que o ateísmo não depende da fé, não há problema: basta dizer “o ateísmo não depende da fé”. Porém, insistir que o ateísmo não é crença em absoluto é insistir em um erro fatal para o ateísmo.
2. ARGUMENTOS E REFUTAÇÕES
Há pelo menos dois argumentos que tentam estabelecer que o ateísmo não é uma crença. Chamarei um de “argumento da fé” e o outro de “argumento da prova”. Possivelmente existem mais argumentos, mas discutirei apenas estes por brevidade e porque, ainda que não funcionem, são intuitivos e populares (mesmo que raramente sejam explicitamente formulados).
2.1. ARGUMENTO DA FÉ
(1) Se o ateísmo é uma crença, então o ateísmo depende da fé.
(2) O ateísmo não depende da fé.
(3) Logo, o ateísmo não é uma crença.
Por outro lado, alguém poderia insistir que não há maneira criteriosa de distinguir crença de fé, que não poderíamos determinar se crença e fé são realmente diferentes, e que seria errado (ou perda de tempo) se preocupar com isso. Talvez alguns até batam o pé e insistam que crença e fé são a mesma coisa, ou que “crença” e “fé” são sinônimos. Contudo, é possível distinguir crença e fé de maneira criteriosa, mas isso exige uma compreensão mais precisa do que são crenças. Por essa razão introduzirei na seção 3 uma teoria sobre elas. Isso revelará uma situação irônica: quem pensa que crença e fé são a mesma coisa talvez tenha, no fundo, apenas a fé de que são a mesma coisa.
2.2. ARGUMENTO DA PROVA
(1) Se devemos crer no ateísmo, então é possível provar o ateísmo.
(2) Não é possível provar o ateísmo.
(3) Logo, não devemos crer no ateísmo.
Aqui tudo depende de como entendemos a palavra “prova” em P. Podemos entender “prova” como significando um procedimento dedutivo que parte apenas de verdades lógicas ou matemáticas, como um cálculo, e alcança conclusões necessariamente verdadeiras (nesse sentido só poderíamos exigir provas no terreno da Lógica e da Matemática). Podemos também entender “prova” de maneira mais ampla, significando qualquer procedimento dedutivo pelo qual se estabelece alguma conclusão. Nesse caso a conclusão não tem que ser necessariamente verdadeira, basta que o argumento seja sólido (válido e com premissas verdadeiras), de modo que nas premissas não precisa haver apenas verdades lógicas ou matemáticas. Enquanto o primeiro sentido de “prova” é comum na Lógica e na Matemática, o segundo é mais corrente em outras áreas. Observe o seguinte argumento, por exemplo: se Sócrates é homem, então Sócrates é mortal, Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal. Se entendemos “prova” da primeira maneira, que chamarei de “prova*”, não poderemos dizer que esse argumento prova sua conclusão (que Sócrates seja homem não é uma verdade lógica ou matemática). Por outro lado, se entendemos “prova” da segunda maneira, que chamarei de “prova**”, o argumento prova que Sócrates é mortal. O ateísmo não pode ter uma prova*, mas pode ter uma prova**, e em nenhum dos casos o argumento da prova se sustenta. Primeiro vejamos o que acontece caso interpretemos “prova” como “prova*”.
No caso de “prova*” a premissa (1) e P são falsas. Podemos provar* pouquíssimas coisas. Não podemos provar* que seres humanos costumam ter pernas e que porcos não voam, por exemplo, do que não segue que não devemos acreditar em tais coisas. Estamos racionalmente justificados em crer em inúmeras coisas que não temos como provar*: que as pessoas dormem, que montanhas não são feitas de chocolate, que a Lua é menor que a Terra. Se podemos estar racionalmente justificados em crer em algo que não podemos provar*, então é falso que só se deve crer no que se pode provar*. Logo, devemos rejeitar a premissa (1) do argumento se entendemos “prova” como “prova*”.
Caso entendamos “prova” como “prova**”, (2) é a premissa falsa. Não podemos provar* o ateísmo, mas podemos prová-lo** da seguinte forma, por exemplo: se algo existe, então é físico. Divindades não são físicas, portanto, divindades não existem. O exemplo pode parecer apressado (ele será melhor desenvolvido adiante), mas é uma prova** da veracidade do ateísmo (depois teríamos que recorrer aos nossos conhecimentos filosóficos para provar** que só existe o que é físico, mas já seria outra questão). Assim, é falso que “Não é possível provar o ateísmo” e o argumento da prova também falha se entendemos “prova” como “prova**”.
Uma confusão comum é dizer que “não se pode provar afirmações existenciais negativas”. Isso é incorreto para ambos os sentidos de “prova”. Tanto podemos provar* a inexistência de algum número (o maior número natural, por exemplo) como podemos provar** a inexistência de um homem com oito metros de altura. A sutileza que faz a confusão passar despercebida está em supor que não podemos provar* a inexistência de um homem com oito metros de altura, mas alterar o significado de “prova” durante a inferência que assume tal suposição. No caso do ateísmo comete-se, assim, a seguinte falácia: se devemos crer no ateísmo, então é possível provar** o ateísmo, não é possível provar* o ateísmo; logo, não devemos crer no ateísmo. Típica falácia de equivocação que se aproveita, nesse caso, da ambiguidade de “prova”. Ocorre que não se pode provar* o ateísmo, mas também que não se deve crer no ateísmo apenas se for possível prová-lo*. Ao mesmo tempo, se pode provar** o ateísmo. Resumindo: se entendemos “prova” como “prova*” o argumento da prova fracassa porque é falso que só devemos crer no que podemos provar. Se entendemos “prova” como “prova**” o argumento fracassa porque podemos provar a veracidade do ateísmo.[3]
A questão do ônus da prova (expressão em que “prova” geralmente é entendida como “prova**”) será mais discutida adiante. Mas, se o ateísmo é uma posição racionalmente justificada, cabe ao ateu conseguir prová-lo**: o ateísmo não permite o comodismo argumentativo. Um ateu que diz ser ateu por não encontrar evidências para a existência de divindades não é, de fato, ateu, pois tampouco ele encontrará, pelos mesmos critérios, evidências para a inexistência de divindades. Se julgar que existem tais evidências, então ou ele as apresenta como razões para provar** que divindades não existem ou ele simplesmente continua em uma suspensão de juízo, talvez em uma especulação probabilística (“acho que provavelmente divindades não existem, mas não sei”) e nesse caso não será ateu (estará suspendendo juízo em virtude de considerar as evidências inconclusivas). Não há como ser ateu e defender que o ônus da prova cabe exclusivamente aos teístas. O comodismo argumentativo não é apropriado nem mesmo para os agnósticos (que também precisam provar** que não temos como saber se divindades existem ou não), mas unicamente para quem ainda não assumiu posição alguma. Não há lugar privilegiado para o ateu nesse debate.
Tanto no argumento da fé, segundo o qual o ateísmo não seria uma crença por não depender da fé, quanto no argumento da prova, segundo o qual o ateísmo não deveria ser considerado uma crença por não poder ser provado, não foi estabelecido que o ateísmo não é ou não deve ser uma crença: não foi estabelecido, enfim, que se o ateísmo for racional ele não pode ser uma crença. Isso ainda não mostra que o ateísmo é uma crença, só mostra que não há porque pensar que não seja. No restante do texto mostrarei porque é fundamental que o ateísmo seja entendido como a crença de que não existem divindades. Veremos que é precisamente para poder ser racional que o ateísmo tem que ser entendido desse modo.
3. A NATUREZA DAS CRENÇAS
O que são crenças? Filósofos, neurocientistas e psicólogos ofereceriam respostas que não seriam necessariamente excludentes. Sendo assim, por onde começar? Uma teoria que não se afaste muito de nossas intuições, ainda que não tenha por isso algum mérito científico, seria bem-vinda para os presentes propósitos. Não pretendo me aprofundar muito na discussão acerca da natureza das crenças. Não que haja algum problema em investigar cientificamente o assunto, ocorre apenas que “ateísmo” não é um termo científico, e na presente discussão colocá-lo no interior de uma teoria científica sobre crenças acabaria por obscurecê-lo.Assim, manter a proximidade com o senso comum não deve ser visto como uma atitude anticientífica, e sim como uma dose saudável de objetividade. Para quem continuar incomodado com isso observo que até as mais complexas teorizações científicas dependem de alguns pressupostos filosóficos, estes eventualmente inerentes ao senso comum ou oriundos dele. Não que teorias filosóficas não possam ser complexas e cientificamente informadas, só que entre as teorias filosóficas há opções que podemos compreender sem ter que estar atualizados sobre resultados experimentais pontuais, sem ter que consultar um cientista ou mesmo sem ter que levantar da poltrona. Além disso, da mesma forma que se afastar do senso comum não é necessariamente um mérito teórico, deixar de fazê-lo não é necessariamente um prejuízo. Portanto, abordarei a questão das crenças de uma perspectiva filosófica e, pelas razões expostas, optei pela teoria filosófica que considero mais simples e intuitiva: a Teoria dos Sistemas Intencionais (TSI daqui em diante) de Dennett.
Antes de apresentar a teoria descreverei aquilo que ela tenta elucidar. A palavra “crença” faz parte de um vocabulário composto também pelas palavras “desejo”, “medo”, “expectativa”, entre outras. Um vocabulário que é empregado para compor frases como “Aurélio crê que está chovendo”, “A menina deseja comer bolo de chocolate”, “O presidente do México teme a inflação”, “Maria sabe que seu filho espera ganhar uma bicicleta”. Esse vocabulário é qualificado como mentalista porque ao empregar seus termos atribuímos mentes aos indivíduos sobre os quais fazemos afirmações como as exemplificadas. A aplicação desse vocabulário com o propósito de interpretar, explicar e predizer o comportamento das pessoas é conhecida como psicologia popular (“folk psychology”). Considerando o que uma pessoa crê ou deseja em certa circunstância podemos tentar antecipar o que ela fará ou, em sentido inverso, ao constatar o que ela fez podemos explicar sua ação com base nas crenças e desejos que supomos que ela teve. Estamos tão acostumados com a psicologia popular, tão hábeis em aplicá-la tanto nos outros quanto em nós mesmos, que seu grande poder explanatório passa despercebido. No entanto, ao tentarmos obter predições em outros termos notamos seu valor. Sequer sabemos em que consiste a crença de que “Está chovendo” em termos puramente neurológicos, por exemplo, quanto mais saber que, pela mesma terminologia, se um sujeito acredita que está chovendo e deseja não se molhar, ele irá se abrigar sob algo. Pela psicologia popular é possível observar o comportamento e compreendê-lo rapidamente.
3.1. TEORIA DOS SISTEMAS INTENCIONAIS
A postura intencional é melhor discernida se comparada com as outras posturas que podemos adotar: a postura física e a postura de projeto. Adotar uma postura é aplicar certo vocabulário para compreender um fenômeno. Portanto, adotar a postura física é tentar compreender os fenômenos em termos de “massa”, “força”, “velocidade” (e demais termos da física), através de leis físicas e equações. Com a postura física nós podemos saber quando um objeto vai atingir certa posição apenas sabendo coisas como a sua aceleração e outras propriedades físicas, não sendo necessário saber se o objeto é uma pedra, uma torradeira, uma pessoa ou um planeta: podemos ignorar tais “detalhes” contanto que saibamos as propriedades físicas relevantes.[6] Muitos fenômenos podem ser compreendidos com a postura física. Entretanto, conforme aquilo que desejamos explicar fica mais complexo, mais trabalhosa se torna sua aplicação. Imaginemos que queremos saber qual a função de certo aparelho elétrico e se ele está funcionando. Se tentássemos saber através da postura física teríamos que ligá-lo e checar toda a passagem da corrente elétrica, investigar como a energia seria transmitida aos componentes do aparelho e quais efeitos seriam provocados. Se um dos efeitos for, por exemplo, aquecer a fatia de pão que foi introduzida no aparelho (se estamos lidando com uma torradeira) e se esse for um efeito esperado, teremos descoberto que a torradeira está funcionando. Contudo, isso seria bastante custoso (teríamos que desmontar toda a torradeira e lançar mão de diversas ferramentas para examiná-la), tanto em material quanto em tempo.
A postura de projeto é a solução que surge para nos poupar de todo esse trabalho. Na postura de projeto as noções principais são “mecanismo” e “função”: podemos saber o que algo vai fazer ou explicar o que fez identificando seus componentes e as funções dos mesmos. No caso da torradeira, se não houvesse um manual, ainda teríamos de desmontá-la para descobrir o que faz; contudo, se soubermos o que suas partes fazem (o que fazem a grelha, a mola, a alavanca, os fios) saberemos para que serve a torradeira (que ela serve para torrar coisas, levaria mais algum tempo para descobrir as maravilhas que elas fazem com pães). Seria complicado, mas seria ainda muito mais simples do que empregar a postura física, pois nesta teríamos que avaliar os efeitos da energia elétrica em cada parte da torradeira. Em alguns casos pode ser preciso saber algo sobre a física do objeto para conhecer sua função[7], mas não é assim na maioria das vezes. Não precisamos saber o peso de uma chave ou de que material ela é feita se desejamos saber que ela serve para abrir alguma fechadura. Sabemos que essa é a função de uma chave sem que seja preciso estudar a física do atrito nos eventos que ocorrem dentro da fechadura. Sequer precisamos ver o que realmente há dentro de uma fechadura e só iremos fazê-lo se por alguma razão a chave não for capaz de abri-la e for sabido que aquela é sua única chave. Se sabemos que a chave está sendo utilizada da maneira correta e que a fechadura não está estragada, então saberemos que a fechadura será aberta independentemente de sabermos as minúcias físicas envolvidas no processo.
Além disso, a postura de projeto não é eficaz somente quando lidamos com mecanismos artificiais e artefatos, ela produz bons resultados também ao lidarmos com órgãos e sistemas fisiológicos de animais. O estômago humano, por exemplo, é constituído por glândulas, mucosas e outras partes. Se soubermos as funções de cada uma das partes e pressupormos que todas estão funcionando regularmente, então saberemos o que faz o estômago sem ter que identificar cada processo químico que ocorre nele. Assim, o importante para a postura de projeto é que assumamos que aquilo que investigamos tem uma função e esteja exercendo-a corretamente, feito isso nós teremos simplificado a compreensão de diversos fenômenos que seriam complicados pela postura física. Como Dennett (2009, p.3) coloca:
“Predições da postura de projeto são mais arriscadas que predições da postura física, porque há suposições adicionais que tenho de levar em conta: que uma entidade foi projetada como suponho que ela tenha sido, e que ela vai operar de acordo com este projeto—isto é, que não vai falhar […] Quando uma coisa projetada é bastante complicada (uma serra elétrica em contraste com um machado, por exemplo) o preço moderado que se paga em risco é mais que compensado pela tremenda facilidade de predição. Ninguém preferiria recuar até as leis fundamentais da física para predizer o comportamento de uma serra elétrica se, em vez disso, um diagrama prático de suas partes móveis estivesse disponível para ser consultado.”[8]
3.2. A POSTURA INTENCIONAL
A postura intencional é uma variação da postura de projeto, uma versão mais restrita e eficiente na compreensão de coisas que superam torradeiras ou fechaduras em complexidade: seres humanos e outros animais. Se na postura de projeto nós temos que pressupor que as partes de um dispositivo estão fazendo o que devem para que possamos explicar ou predizer o que o dispositivo faz, na postura intencional nós devemos pressupor que os indivíduos são agentes racionais que tomam decisões e se comportam baseados em suas crenças e desejos. Adotar a postura de projeto nos poupa o trabalho que teríamos com a postura física, adotar a postura intencional nos poupa o trabalho que teríamos com ambas as anteriores. Na passagem da postura física para a postura de projeto nós substituímos a reflexão sobre eventos físicos por uma reflexão que pressupõe funções cujas execuções são permitidas por eventos físicos quaisquer. Ignoramos os detalhes físicos porque sabemos que, quaisquer que eles forem, uma chave será feita para abrir uma fechadura e é isso que acontecerá se tudo estiver funcionando, por exemplo. Na passagem da postura de projeto para a postura intencional nós substituímos a reflexão sobre a constituição funcional de algo, sobre o que suas partes fazem, por uma reflexão que pressupõe um evento psicológico realizável por uma constituição funcional qualquer. Ignoramos os detalhes funcionais porque sabemos que, quaisquer que eles forem, um desejo será satisfeito se for possível satisfazê-lo sem problemas para o organismo que deseja. Se alguém nos diz “Estou faminto” e pega uma maçã, para predizer que essa pessoa irá comer a maçã não precisamos saber se todos os seus dedos são capazes de pressionar coisas, se sua dentição é apropriada e se seu estômago e cérebro trabalham em conjunto ao detectar a necessidade por consumir alimentos naquele instante. Para predizer que a pessoa irá comer a maçã precisamos apenas ter evidências de que ela deseja comer algo, de que acredita que maçãs lhe satisfariam e de que é racional, evidências que coletamos baseados na mera observação de seu comportamento, sem ter que estudar sua anatomia ou examinar seu corpo.A postura intencional é aplicável em ainda menos fenômenos. No entanto, são fenômenos cuja análise seria extremamente trabalhosa nas outras posturas, ou até impossível baseando-se no que sabemos atualmente. Não sabemos as funções de todas as atividades cerebrais ou todos os seus detalhes físicos. Mesmo que suponhamos que todo comportamento depende somente da atividade cerebral, a postura física e a postura de projeto ainda não nos explicariam tudo porque ainda não identificamos tudo. Enquanto isso não acontece a postura intencional é a melhor estratégia explanatória.
Se o comportamento de algo é amplamente compreensível pela postura intencional, então esse algo se trata de um sistema intencional. Essa é a única condição para que algo seja um sistema intencional. Até agora tenho mencionado a aplicação da postura intencional na compreensão do comportamento de pessoas e animais, sugerindo que somente tais seres poderiam ser sistemas intencionais. Porém, não é bem assim. Bactérias, torradeiras e computadores podem ser sistemas intencionais tanto quanto seres humanos e gatos. Contanto que possamos explicar e predizer o comportamento de algo através da postura intencional, podemos qualificá-lo como um sistema intencional. Em alguns casos isso não é tão conveniente, como no caso da torradeira. Até poderíamos explicar as coisas que a torradeira faz dizendo “Ela acredita que o pão está torrado”, “Ela deseja que retiremos o pão” ou “Ela quer torrar as fatias que colocarmos nela”. Contudo, uma vez que se trata de um equipamento simples, cujo funcionamento nós conhecemos, empregar a postura intencional parece até engraçado, um exagero. Conforme o objeto que tentamos compreender se torna sofisticado a postura intencional deixa de ser um exagero. O exemplo favorito de Dennett (ibid., pp.3-4.) para ilustrar isso é o computador enxadrista:
“Considere computadores enxadristas. Todos sucumbem perfeitamente à mesma estratégia simples de interpretação: apenas pense que eles são agentes racionais que desejam vencer, e que sabem as regras e princípios do xadrez e a posição das peças no tabuleiro. Instantaneamente seu problema de antecipar e interpretar o comportamento deles se tornará amplamente mais fácil do que seria se você tentasse usar a postura física ou a postura de projeto.”[9]
Se disputássemos uma partida com esse computador a postura intencional renderia a melhor estratégia para interpretar e prever suas jogadas. Pensaríamos nas jogadas que o computador poderia fazer (supondo que ele respeita as regras e que deseja vencer), com isso teríamos uma lista dos melhores movimentos até os piores. Como também suporíamos que o computador é racional, nossa aposta seria a de que ele faria aquela que nos parece ser a melhor jogada. Poderíamos errar, poderia ser o caso que o computador tivesse um entendimento melhor da situação e das jogadas possíveis do que nós, mas ainda assim nós poderíamos sempre eliminar vários movimentos que o computador não faria, o que garantiria um grande ganho de poder preditivo. Se entre vinte movimentos possíveis eliminarmos quinze nós aumentamos consideravelmente a chance de estarmos certos sobre a próxima jogada. Também poderíamos antecipar as ações do computador através da postura de projeto e da postura física, se conseguíssemos as nossas predições seriam ainda mais precisas. Porém, pela postura de projeto teríamos de calcular os inúmeros códigos que são processados pelo computador enquanto ele
É parte central da TSI a ideia de que não temos como separar aquilo que realmente tem crenças e desejos daquilo que não tem. Quando a postura intencional funciona ela o faz independentemente de que existam crenças e desejos de fato. Perguntar se o computador realmente tem tais atributos mentais seria, no fim das contas, um despropósito. Antes de qualquer coisa a postura intencional é um tipo de “faz de conta” que funciona. Dado que ela funciona para coisas tão diferentes como computadores, seres humanos ou bactérias, fica nítido que seu sucesso não depende da existência concreta de crenças ou desejos. Um ser é um sistema intencional se pode ter seu comportamento compreendido pela postura intencional: é uma condição propositalmente fácil de ser satisfeita. Não sabemos se existem as coisas que são representadas pelos termos da psicologia popular, mas sabemos que não é necessário que existam para que a psicologia popular (que é apenas o nome dado ao uso da postura intencional) funcione. É esse funcionamento que a TSI se interessa em elucidar, não a constituição íntima de estados psicológicos, a natureza neurológica das crenças ou desejos. Se nosso conhecimento progredir podemos até abandonar a postura intencional, pode ser que identifiquemos rigorosamente as funções das atividades cerebrais e nos tornemos capazes de compreender o comportamento através delas com a postura de projeto. Isso não anularia as vantagens práticas da postura intencional e não reduziria sua eficiência, mesmo que fosse descoberto que não existem fenômenos cerebrais correspondentes ao que chamamos de “crença” ou de “desejo”.
Utilizamos a postura intencional tanto em nós quanto nos outros e encontramos sistemas intencionais o tempo todo. Fazemos isso irrefletidamente, por hábito. Mas, disso não segue que seja uma prática que não possa ser de alguma maneira sistematizada, descrita de forma que fique claro o modo como ocorre. Uma descrição de como operamos poderia seguir deste jeito: identificamos as crenças que o sistema deve ter baseado nas informações que esperamos que ele recolha de seu ambiente, presumimos que ele tenha necessidades ou desejos que impliquem em objetivos e supomos que ele é racional, isto é, que dado aquilo de que ele está ciente em certa circunstância, realizará a ação mais adequada para alcançar seu objetivo. Dependendo do que estamos analisando podemos preferir falar “informações” ao invés de “crenças”, “necessidades” ou “objetivos” ao invés de “desejos”, enfim, uma preferência que tenta evitar a aura antropomórfica da psicologia popular. Entretanto, segundo a TSI isso não fará muita diferença. Podemos dizer que um sistema tem certas informações e objetivos ou que tem certas crenças e desejos, no primeiro caso teremos uma terminologia com aparência mais técnica, mas não será menos mentalista e, em decorrência disso, não será mais fundamental que a psicologia popular em qualquer sentido. Quaisquer que sejam os termos que prefiramos, a TSI nos mostra que eles seguirão a mesma estrutura baseada na presunção de racionalidade.
Se empregarmos a postura intencional e falharmos repetidamente na compreensão do comportamento de um sistema, então duvidaremos do pressuposto de que se trata de um agente racional. Nas situações em que não conseguimos perceber racionalidade alguma no comportamento do sistema a postura intencional fica inútil e nos obrigamos a retroceder para a postura de projeto ou para a postura física. Por exemplo, no caso do indivíduo faminto que pega uma maçã, suponhamos que ele pega a maçã e arremessa-a longe. Se manteremos a posição de que esse indivíduo é racional, então revisaremos algumas crenças ou desejos que nós havíamos suposto que ele tinha: que aquela maçã estava em bom estado ou que ele estava com fome, por exemplo. Digamos que ele vai encontrando outras maçãs e repetindo a ação, então teríamos de abandonar a ideia de que ele crê que maçãs sejam comestíveis, por exemplo. Nessas situações há um enorme conjunto de crenças e desejos que podemos ir ajustando e revisando para preservar a presunção de racionalidade. Porém, poderíamos chegar em um extremo onde o indivíduo insiste que está com fome e continua se livrando dos alimentos que encontra. Em um caso extremo desses teríamos que abandonar a presunção de racionalidade, o que significaria que a postura intencional deixaria de permitir a compreensão do comportamento observado (plausivelmente suspeitaríamos que a percepção do indivíduo hipotético estaria funcionando mal, e aí adotaríamos a postura de projeto para compreender o que ocorre, por exemplo).
Resumindo: adotamos a postura intencional para predizer e compreender o comportamento de algo que pode ser tanto uma pessoa quanto um computador ou uma bactéria (basta que consigamos predizer e compreender o comportamento do que nos interessa, não interessam as semelhanças físicas). Fazemos isso atribuindo certas crenças, desejos e esperando que, dadas tais crenças e desejos, aquilo que é observado faça o que for racional. Caso isso ocorra poderemos considerar aquilo que é observado um sistema intencional.[10] Agora conseguiremos compreender melhor o que são crenças e como é a relação delas com a fé.
3.3. O PAPEL DAS CRENÇAS
A TSI elucida como funciona a postura intencional e mostra que a tese da presunção de racionalidade ocupa um lugar central na psicologia popular (sem ela a postura intencional, e consequentemente a psicologia popular, não teriam poder explanatório). Agora podemos responder a questão “Por que a psicologia popular funciona?”: funciona porque adotar a postura intencional funciona. E por que adotar a postura intencional funciona? Porque na maioria das vezes os sistemas intencionais que encontramos são racionais, isto é, dadas as crenças e desejos que possuem (ou informações e objetivos), farão aquilo que for melhor.[11] O termo “melhor” não precisa ser definido, basta que consigamos separar o que nos parece mais provável que um sistema faça daquilo que não nos parece tão provável. A idealização é inevitável: presumimos uma racionalidade ideal, ou um comportamento idealmente racional para certa situação, e observamos o sistema intencional se comportar com base nesse parâmetro. Quando assistimos uma partida de futebol, por exemplo, julgamos qual jogada é ideal que certo jogador faça em dado momento, e anteciparemos qual jogada ele fará com base na jogada ideal. Não diremos necessariamente que ele é irracional caso não faça tal jogada (podemos estar errados sobre ser a jogada ideal), mas não deixamos de presumir que, dado aquilo que supomos que ele vê e pensa naquele momento, há um conjunto de ações que são as melhores (em virtude de aumentarem as chances de que certo objetivo seja alcançado). Todavia, como o jogador é falível, é sempre possível que não faça aquilo que é mais racional (o que vale para todos nós). O sucesso das explicações e predições da postura intencional não exige que sejamos infalíveis.As crenças são aquilo que assumimos que um sistema aceita como verdade.[12] Quando avaliamos a jogada que o jogador de futebol deve fazer assumimos que ele acredita que está em uma partida de futebol, que está em posse da bola, que seus adversários estão se aproximando e que deve fazer algo, que um companheiro de time está mais próximo que outro, e assumimos que ele tem muitas outras crenças (potencialmente mais complexas). Supor tais crenças é fundamental para entendermos seu comportamento. Se não supormos que ele acredita estar em uma partida de futebol, por exemplo, então nada nos impede de esperar que ele pegue a bola nas mãos e saia correndo. Utilizamos as crenças que supomos que ele tem para explicar e antecipar as coisas que ele faz. Se supomos que ele deseja fazer um gol e que acredita que está em posse da bola, então anteciparemos que ele tentará marcar o gol; se supomos que ele tem o mesmo desejo mas acredita que não está em posse da bola, então anteciparemos que ele tentará tirar a bola do adversário. As crenças que atribuímos determinam o comportamento que esperamos observar. Em sentido inverso, diremos que o jogador tentou marcar o gol porque acreditava estar com a bola e desejava fazê-lo, ou que tentou tirar a bola do adversário porque acreditava não estar com ela. Assim, as crenças que atribuímos também determinam a explicação que daremos para o comportamento observado.
O papel fundamental das crenças é essa determinação de comportamentos na explicação ou predição do que os sistemas intencionais fazem. Nós não conseguiríamos compreender o comportamento dos seres humanos sem falar de crenças, pois a postura física e a postura de projeto têm poder explanatório bem menor que a postura intencional quando lidamos com seres humanos, e a postura intencional não pode prescindir das atribuições de crenças. Uma questão que poderia ser levantada é a seguinte: não existem crenças que, caso atribuídas, seriam incapazes de predizer ou explicar qualquer comportamento? Podemos pensar em algumas crenças bizarras, como crer que a Lua é uma bola de golfe, que parecem não permitir a predição ou explicação de comportamento algum. O problema é que aí estaremos esquecendo dos comportamentos verbais: atribuir para alguém a crença de que a Lua é uma bola de golfe significa predizer que, caso lhe perguntem o que a Lua é, este indivíduo responderá que é uma bola de golfe. Ou, caso ele afirme sinceramente tal absurdo, explicaremos sua afirmação dizendo que ele acredita em tal coisa, por mais absurda que seja.
Alegar que certas crenças estão ausentes em um sistema intencional serve apenas nos contextos em que tentamos compreender o comportamento do sistema em relação ao que ele nunca encontrou ou considerou antes. Se um indivíduo da Idade Média encontrasse um aparelho televisor (fosse de chocolate ou não) explicaríamos ou anteciparíamos sua reação supondo que ele não teria crença alguma sobre aparelhos televisores. É exatamente isso que explicaria ou anteciparia o choque e a perplexidade que tomariam conta do indivíduo. Portanto, também devemos distinguir a situação em que não se tem certas crenças das situações em que suspendemos nossos juízos ou crenças. As suspensões de juízo são processos deliberados e que podem ser perfeitamente racionais, ocorrem quando pensamos sobre algo e decidimos suspender algumas crenças sobre esse algo. A mera ausência de crença, por outro lado, não pode ser racional nem irracional. Lembremos que consideramos um comportamento racional quando conseguimos explicá-lo ou predizê-lo como uma maneira adequada de, dadas certas crenças ou informações, realizar certos desejos ou objetivos. Se não há crenças para atribuir não há comportamento para ser explicado ou predito, quanto mais para ser considerado racional. Se o indivíduo hipotético da Idade Média cutucasse o aparelho televisor com uma espada, diríamos que ele deseja preservar sua saúde e que acredita que coisas desconhecidas podem ser perigosas, e que o aparelho lhe é desconhecido porque não tinha crença alguma sobre ele. Entretanto, precisaremos atribuir a crença de que coisas desconhecidas podem ser perigosas, não bastará a ausência de crença para que entendamos o que ele fizer. Ausência de crença é sempre parte da explicação, por si só ela não explica nada. A mera ausência de crença não pode, assim, ser racional ou irracional.[13] Podemos, finalmente, oferecer a razão para separar “crença” e “fé” que foi aludida anteriormente. Utilizamos “fé” para compreender diversos comportamentos: das preces aos apedrejamentos.[14] Por outro lado, a presença do vocabulário mentalista no português evidencia que “crença” não significa e nem pode significar sempre o mesmo que “fé”: “crença” é um termo muito mais importante e amplo. É um termo que não pode ser eliminado da psicologia popular e que, por isso, é igualmente ineliminável da sistematização feita pela TSI. Compreendemos melhor o que são as crenças uma vez que elas são separadas da fé. Compreendendo melhor o que são crenças também compreendemos melhor o ateísmo.
4. RACIONALIDADE E ATEÍSMO
Fui vago sobre o que pode ser considerado racional: as crenças, os comportamentos ou os indivíduos? Crenças e comportamentos podem ser considerados racionais ou irracionais, indivíduos só podem ser considerados racionais ou irracionais indiretamente, em função de como se comportam e daquilo que desejam ou em que acreditam. No caso dos comportamentos, julgamos que são irracionais quando contrariam aquilo que supomos que se deveria crer ou desejar, por exemplo: se acreditamos que um indivíduo deseja beber a água que está em uma garrafa (porque aparenta ter sede) e ele quebra a garrafa, então ou julgaremos que ele se comportou de maneira irracional ou mudaremos de opinião sobre ele desejar a água (ou acreditar que era água). Em contrapartida, os comportamentos são considerados racionais quando não contrariam as suposições feitas com a postura intencional. Assim, as crenças e desejos que atribuímos aos sistemas intencionais determinam os comportamentos que consideraremos racionais ou irracionais.E as próprias crenças e desejos, quando são racionais ou irracionais? Podemos fazer o caminho inverso e dizer que os comportamentos determinam as crenças e desejos que são racionais, mas essa não seria a história toda. Podemos dizer, por exemplo, que para o indivíduo que aparenta ter sede e que desta vez bebe a água, ter o desejo de beber água e a crença de que é o que ele está fazendo seria racional (enquanto ter o desejo de beber ácido e a crença de que está fumando charuto seriam irracionais). No entanto, essa não seria a história toda porque não é apenas o comportamento observado que determina quais crenças ou desejos seriam racionais. Existem crenças e desejos que nos parecem racionais em si mesmos, sem depender do contexto, do comportamento do sistema ao qual são atribuídos. O desejo de preservar a própria vida, por exemplo, é considerado racional em si mesmo. Normalmente supomos que qualquer indivíduo racional o tem, mesmo que não observemos todo seu comportamento ou que não consigamos compreendê-lo precisamente.
O que nos permite dizer algo como “Para alguém que se comporta de tal forma é racional acreditar ou desejar tal coisa”? Com isso não estaremos apenas dizendo que, mantendo o exemplo, se um indivíduo está bebendo água e for racional ele acreditará que está bebendo água. Não é como se o ato de beber água fosse a causa para que ele tivesse a crença e para que ela fosse racional. O que faz com que ele tenha a crença e que ela seja racional difere do comportamento: é a experiência. O indivíduo tem certa experiência (vê que segura uma garrafa com água, identifica o conteúdo pelo paladar) e essa experiência causa sua crença e a torna racional. Logo, quando observamos o comportamento e dizemos quais crenças e desejos seriam racionais, o que estamos supondo é que um indivíduo que tem certos comportamentos tem também certas experiências. E assim determinamos, baseados nas experiências inferidas do comportamento observado, quais crenças e desejos seriam racionais. Se supuséssemos exatamente o mesmo comportamento (o indivíduo ingerindo o conteúdo da garrafa), mas também supuséssemos que o indivíduo tem a experiência de que está ingerindo água e, ainda assim, que pensa estar bebendo ácido, nós o consideraríamos irracional, mesmo que na verdade ele estivesse mesmo bebendo ácido (um ácido muito parecido com água, por exemplo). A crença de que está bebendo ácido seria irracional por não ser coerente com a experiência atribuída, de parecer estar bebendo água, mesmo que nesse caso a crença fosse condizente com o comportamento, com o que o indivíduo faz de fato. As crenças e desejos que atribuímos aos indivíduos determinam os comportamentos que consideramos racionais e pelos quais esperaremos. Os comportamentos observados determinam as experiências que podemos atribuir aos indivíduos.
Essas experiências, por sua vez, determinam as crenças e desejos que serão consideradas racionais para o indivíduo. O diagrama abaixo ilustra a cadeia inferencial que articula nossa adoção da postura intencional: do comportamento observado inferimos as experiências que o agente observado deve ter, das experiências assumidas inferimos as crenças e desejos, e destas inferimos como o agente se comportará ou explicamos porque ele se comportou de certa forma. Algumas crenças e desejos, porém, são intrinsecamente racionais e são atribuídas universalmente pela presunção de racionalidade: são racionais para qualquer indivíduo em qualquer circunstância. [15] Portanto, crenças são racionais quando são consequência lógica de outras crenças racionais ou por serem produzidas por experiências normais, verídicas. As coisas podem ficar mais complicadas, mas grosso modo esses são os processos básicos de justificação de crenças, os processos que tornam certas crenças racionais ou irracionais, que podem torná-las instâncias de conhecimento.
Diagrama da cadeia inferencial da postura intencional:
(1) Se o ateísmo é racional, então o ateísmo é uma crença ou uma suspensão de crença.
(2) O ateísmo é racional e não é uma suspensão de crença.
(3) Logo, o ateísmo é uma crença.
Por ora cabe notar que mesmo que o ateísmo fosse irracional (como muitos teístas devem pensar que seja) ele ainda seria uma crença. A premissa “O ateísmo é racional” talvez fosse melhor entendida se formulada como “O ateísmo pode ser racional”, atentando para o fato de que o ateísmo pode ser amparado por argumentos, pode resultar logicamente de crenças racionais. Mesmo um teísta reconheceria que o ateísmo pode ser racional nesse sentido, da mesma forma que um ateu reconhece que um teísta poderia ser racional se divindades existissem e se manifestassem. Os únicos que estariam interessados em defender que o ateísmo não pode ser racional (nem irracional) são aqueles que contam pedras ou bebês como ateus também.
A primeira razão para insistir na ambiguidade é que consta em alguns dicionários que o ateísmo seria ausência de crença. Ou então isso é o que seguiria da etimologia do termo. Esse é, por si só, um raciocínio ruim (tipicamente classificado como falácia etimológica): da etimologia de um termo não podemos inferir o que ele significa ou deve significar. Por exemplo, da etimologia de “cálculo” não segue que o termo deve significar o mesmo que “pedra” (embora esse possa ainda ser um dos seus significados). O significado dos termos muda e depende do uso que fazemos deles, não é algo que fica congelado pela etimologia ou pelos dicionários. Muitos termos até perdem completamente seus significados originais (como “combustível”, que inicialmente significava qualquer substância capaz de entrar em combustão e hoje é usado para significar substâncias que fazem coisas funcionarem).
Outro problema com esse raciocínio é que, além de não haver razões para pensarmos que o ateísmo é ausência de crença, assumir esse significado inutilizaria o termo porque faria ele se aplicar para qualquer coisa ou ser que não crê em divindades, o que abrange a maior parte do universo. Mesmo que se restringisse apenas para aquilo que não crê em divindades mas que pode ter crenças (como bebês e alguns animais suficientemente inteligentes) ainda seria excessivo. Afinal, qual seria o sentido de usar “ateu” ou “ateísmo” para falar de bebês, ou de qualquer ser ou coisa que não diga respeito a seres humanos adultos com alguma complexidade mental/comportamental? A mera banalização do termo é uma consequência que já lança dúvida sobre a adequação do sentido de “ausência de crença”, seja ele defendido em virtude da etimologia ou dos argumentos refutados na segunda seção. A outra razão que pode apoiar a insistência na ambiguidade é uma reformulação disfarçada: a distinção entre “ateísmo negativo” e “ateísmo positivo” (ou “ateísmo fraco” e “ateísmo forte”, “ateísmo implícito” e “ateísmo explícito”, etc.). Aceitar essas distinções consiste apenas em pressupor a ambiguidade, não em fornecer qualquer razão para aceitá-la. Se não houver razão para aceitar que o ateísmo possa ser ausência de crença, então não haverá razão para aceitar que exista ateísmo negativo (ou fraco, implícito, etc.).
O fato de “ateísmo” significar somente a crença na inexistência de divindades muda algo para os ateus? O fato em si muda pouca coisa, já o reconhecimento dele traz mudanças importantes. Muitos indivíduos que se consideravam e eram considerados ateus não deixariam de sê-lo, e mesmo um ateu de dicionário (aquele que aceita a falácia etimológica) poderia ser realmente ateu contanto que respondesse “sim” ao seguinte: sua posição sobre a existência de divindades é como sua posição sobre a existência de Papai Noel? Suponho que os ateus que entendem “ateísmo” como ausência de crença acabariam, em sua maioria, sendo ateus por acreditarem que divindades não existem, tal como acreditam que Papai Noel não existe. Agora, nos casos em que a resposta fosse algo como “Papai Noel não existe, mas não tenho crença alguma sobre a existência de divindades”, não haveria ateísmo, por mais que o indivíduo se julgasse ateu. Ele na verdade seria um agnóstico (se pensasse que não há como saber se divindades existem), um cético (se pensasse que somente ainda não é capaz de alcançar alguma conclusão), alguém que ainda não entende o que seriam divindades ou alguém confuso. Pensar que ateísmo é ausência de crença é, em todo caso, um erro disseminado, escondido na aparência de plausibilidade etimológica ou nos enganos sobre termos como “crença”, “fé” e “prova”.
Apresentarei três argumentos. O primeiro é o argumento do naturalismo metafísico:
Esse argumento é o mais geral dos três que serão apresentados, serve para negar a existência de qualquer tipo de divindade contanto que a divindade seja sobrenatural (o que abrange a maioria das divindades rejeitadas pelos ateus). Sua generalidade faz dele o mais ambicioso e também o mais difícil de defender. A primeira premissa é a menos frágil, pois normalmente os próprios teístas concedem que divindades são sobrenaturais, que não estão no tempo e no espaço (ou que transcendem essas dimensões). Só vai negá-la quem defende a existência de divindades físicas, concretas. Para quem rejeita a primeira premissa a questão que o ateu pode levantar é: por que considerar algo assim uma divindade? Se a suposta divindade concreta não for nada antropomórfica (não tiver mente, por exemplo) parece excêntrico ou metafórico chamá-la de “Deus” (aqui encontramos a velha polêmica do Deus de Einstein). Por outro lado, se a suposta divindade concreta for antropomórfica, ela seria no mínimo peculiar (caberia ao interlocutor fornecer razões para que acreditássemos que tal ser existe).
Nenhuma das etapas é inquestionável (pelo contrário, são muito debatidas na Filosofia), mas juntas elas fornecem uma justificativa razoável para alguém aceitar o ateísmo em virtude de aceitar o argumento do naturalismo metafísico. Em suma, podemos dizer que esse é um bom argumento na medida em que ele funciona contra qualquer divindade sobrenatural e depende de uma área do conhecimento bem assentada, a Física. Sua fraqueza é depender de uma premissa que exige teorização intensa para ser justificada. É um argumento inapropriado para persuadir quem não é ateu em um debate. Para fins de debate o próximo argumento é tanto mais efetivo quanto mais popular, o argumento do mal:
Talvez o argumento mais antigo em defesa do ateísmo, embora não estabeleça a inexistência de todo tipo de divindade. Ao contrário do argumento anterior, esse é compatível com a existência de divindades sobrenaturais onipotentes e moralmente indiferentes ou divindades sobrenaturais que não são moralmente indiferentes, mas que têm poderes limitados. A premissa mais disputável é de longe a primeira, dado que a ocorrência de males fortuitos (males que não são causados por agentes morais, como catástrofes naturais) é bastante evidente. Tipicamente a saída do teísta é tentar conciliar a existência de Deus (assumindo que a divindade negada é a cristã, poderia ser qualquer outra onipotente e sumamente bondosa) com a existência dos males. Contudo, não é fácil para o teísta tornar essa saída convincente. Isso beneficia o argumento do mal em debates. Por outro lado, é um argumento que torna razoável o ateísmo restrito às divindades onipotentes e sumamente bondosas, e nesse sentido pode não ser satisfatório para alguns. O próximo argumento é similar ao argumento do mal porque também ataca a possibilidade de uma divindade onipotente e sumamente bondosa, é o argumento do deus escondido. Neste caso, entretanto, é levantada uma dificuldade diferente para o teísta:
4.1. ATEUS E DICIONÁRIOS
Devemos aceitar (ou defender) que “ateísmo” seja ambíguo entre a crença na inexistência de divindades e a ausência de crença na existência de divindades? Se não há porque pensar que o ateísmo seja ausência de crença, como foi argumentado na segunda seção, então não há porque defender essa ambiguidade. Entretanto, há pelo menos mais quatro razões que explicam, mas não justificam, que se aceite a ambiguidade. Duas dessas razões serão abordadas na última seção, as demais serão discutidas agora.Outro problema com esse raciocínio é que, além de não haver razões para pensarmos que o ateísmo é ausência de crença, assumir esse significado inutilizaria o termo porque faria ele se aplicar para qualquer coisa ou ser que não crê em divindades, o que abrange a maior parte do universo. Mesmo que se restringisse apenas para aquilo que não crê em divindades mas que pode ter crenças (como bebês e alguns animais suficientemente inteligentes) ainda seria excessivo. Afinal, qual seria o sentido de usar “ateu” ou “ateísmo” para falar de bebês, ou de qualquer ser ou coisa que não diga respeito a seres humanos adultos com alguma complexidade mental/comportamental? A mera banalização do termo é uma consequência que já lança dúvida sobre a adequação do sentido de “ausência de crença”, seja ele defendido em virtude da etimologia ou dos argumentos refutados na segunda seção. A outra razão que pode apoiar a insistência na ambiguidade é uma reformulação disfarçada: a distinção entre “ateísmo negativo” e “ateísmo positivo” (ou “ateísmo fraco” e “ateísmo forte”, “ateísmo implícito” e “ateísmo explícito”, etc.). Aceitar essas distinções consiste apenas em pressupor a ambiguidade, não em fornecer qualquer razão para aceitá-la. Se não houver razão para aceitar que o ateísmo possa ser ausência de crença, então não haverá razão para aceitar que exista ateísmo negativo (ou fraco, implícito, etc.).
O fato de “ateísmo” significar somente a crença na inexistência de divindades muda algo para os ateus? O fato em si muda pouca coisa, já o reconhecimento dele traz mudanças importantes. Muitos indivíduos que se consideravam e eram considerados ateus não deixariam de sê-lo, e mesmo um ateu de dicionário (aquele que aceita a falácia etimológica) poderia ser realmente ateu contanto que respondesse “sim” ao seguinte: sua posição sobre a existência de divindades é como sua posição sobre a existência de Papai Noel? Suponho que os ateus que entendem “ateísmo” como ausência de crença acabariam, em sua maioria, sendo ateus por acreditarem que divindades não existem, tal como acreditam que Papai Noel não existe. Agora, nos casos em que a resposta fosse algo como “Papai Noel não existe, mas não tenho crença alguma sobre a existência de divindades”, não haveria ateísmo, por mais que o indivíduo se julgasse ateu. Ele na verdade seria um agnóstico (se pensasse que não há como saber se divindades existem), um cético (se pensasse que somente ainda não é capaz de alcançar alguma conclusão), alguém que ainda não entende o que seriam divindades ou alguém confuso. Pensar que ateísmo é ausência de crença é, em todo caso, um erro disseminado, escondido na aparência de plausibilidade etimológica ou nos enganos sobre termos como “crença”, “fé” e “prova”.
Reconhecer que o ateísmo é a crença na inexistência de divindades é importante porque com isso eliminamos confusões envolvendo noções fundamentais para o que pensamos sobre a realidade e o conhecimento. Confusões que podem ter graves consequências, pois como dizia Aristóteles: “O menor desvio inicial da verdade é depois multiplicado mil vezes”.
4.2. ARGUMENTOS PELO ATEÍSMO
Nesta seção apresentarei argumentos que, por serem razoáveis, tornam o ateísmo uma tese razoável, e consequentemente tornam racional a crença nele (e assim ficará estabelecido o argumento da racionalidade). Até aqui “ateísmo” foi entendido tanto como a crença na inexistência de divindades quanto como a tese de que divindades não existem (em que podemos ou não acreditar). Agora entenderemos “ateísmo” apenas como a tese de que divindades não existem. Os argumentos pelo ateísmo que serão apresentados são, portanto, argumentos que têm essa tese como conclusão (que provam o ateísmo no sentido de “prova**” da seção 2.2).Apresentarei três argumentos. O primeiro é o argumento do naturalismo metafísico:
(1) Se tudo que existe é físico, então divindades não existem.
(2) Tudo que existe é físico.
(3) Logo, divindades não existem.
Esse argumento é o mais geral dos três que serão apresentados, serve para negar a existência de qualquer tipo de divindade contanto que a divindade seja sobrenatural (o que abrange a maioria das divindades rejeitadas pelos ateus). Sua generalidade faz dele o mais ambicioso e também o mais difícil de defender. A primeira premissa é a menos frágil, pois normalmente os próprios teístas concedem que divindades são sobrenaturais, que não estão no tempo e no espaço (ou que transcendem essas dimensões). Só vai negá-la quem defende a existência de divindades físicas, concretas. Para quem rejeita a primeira premissa a questão que o ateu pode levantar é: por que considerar algo assim uma divindade? Se a suposta divindade concreta não for nada antropomórfica (não tiver mente, por exemplo) parece excêntrico ou metafórico chamá-la de “Deus” (aqui encontramos a velha polêmica do Deus de Einstein). Por outro lado, se a suposta divindade concreta for antropomórfica, ela seria no mínimo peculiar (caberia ao interlocutor fornecer razões para que acreditássemos que tal ser existe).
(1) Se existem males fortuitos, então Deus não existe.
(2) Existem males fortuitos.
(3) Logo, Deus não existe.
(1) Se Deus existisse, então não haveria dúvida razoável de sua existência.
(2) Há dúvida razoável de sua existência.
(3) Logo, Deus não existe.
Esses três argumentos, tanto em conjunto quanto individualmente, tornam o ateísmo razoável em diferentes graus de abrangência. Isto é, aceitá-los justifica a adoção do ateísmo em oposição ao teísmo ou ao agnosticismo. No entanto, não são argumentos acabados e definitivos, são antes convites ao raciocínio que podem fornecer uma salvaguarda provisória para o ateu, mas na qual ele deve estar certo de que não está absolutamente protegido. Afinal, as formulações dos argumentos que foram apresentadas não são as mais sofisticadas e fortes que existem, principalmente porque alguns desses argumentos (o argumento do mal em particular) desfrutam de uma literatura imensa, de farta discussão especializada. O ateu não precisa ir até as linhas mais avançadas do debate para se defender, pode confiar no serviço que os filósofos estarão fazendo lá na frente, mas deve estar ciente de que há uma longa distância para ser percorrida até os debates decisivos dos quais depende sua posição.
Enfatizo que os filósofos são, em última instância, os responsáveis pela razoabilidade do ateísmo porque o ateísmo é uma tese filosófica. Não há teoria científica que possa estabelecer que divindades não existem, sequer há interesse científico em estabelecê-lo. Tudo que o conhecimento científico pode fazer na questão do ateísmo é neutralizar argumentos teístas, mas nunca refutar o próprio teísmo. A ciência nos permite dispensar razões para crermos na existência de divindades (como a Teoria da Evolução permitiu dispensar o Criacionismo), mas sem oferecer-nos razões para crermos na inexistência de divindades. É por isso que tanto um ateu quanto um agnóstico e um teísta podem igualmente aceitar o conhecimento científico. A ideia, de inspiração cientificista, de que basta a ciência para tornar o ateísmo razoável é tão comum quanto falsa. Quando se diz que o conhecimento científico torna divindades extremamente improváveis se pressupõe que o conhecimento científico é responsável pela distribuição das probabilidades do que pode existir. Esse pressuposto resulta da inferência feita na primeira etapa da defesa da premissa (2) do argumento do naturalismo metafísico. É um pressuposto filosófico, não científico. A ideia de que a ciência descreve o que objetivamente existe ou pode existir é filosófica e, por mais que pareça óbvia ou banal para alguns, é controversa. Há quem negue-a e defenda, por exemplo, que o que a ciência faz é descrever somente nossa experiência do mundo, não a realidade independente de tal experiência. Essas duas posições são filosóficas e não há meio científico de resolver o impasse entre elas. Quem pensa que a ciência justifica o ateísmo já está fazendo uma interpretação filosoficamente carregada do conhecimento científico, mesmo que não perceba. A tese de que o conhecimento científico nos mostra como o mundo realmente é não é, ela mesma, uma tese científica.
Agora deve estar claro que não há o comodismo argumentativo discutido anteriormente. O ateísmo só é razoável quando defendido com algum argumento como os que foram apresentados. No momento em que o indivíduo assume o ateísmo ele se imputa o ônus de ter algum argumento que justifique sua posição. Talvez o argumento seja ruim, e ele não deixará de ser ateu por isso, mas deverá estar ciente de que precisa de um argumento e que deverá cobrar dos opositores tanta razoabilidade quanto cobra de si. De qualquer modo, o ateu ciente dessas dificuldades já será mais razoável que o ateu que sequer reconhece que seu ateísmo é uma crença. E, finalmente, podemos considerar estabelecido o argumento da racionalidade, pois o ateísmo pode ser racional (uma crença formada em decorrência de argumentos razoáveis).
5. POR UM ATEÍSMO QUE VALE A PENA
O esforço para mostrar que ateísmo é crença não seria vão? Afinal, quem nega que o ateísmo seja crença normalmente só quer dizer que o ateísmo não depende da fé. Ninguém negaria que o ateísmo seja crença no sentido de ser uma posição que pode ser defendida. Pelo menos não depois de pensar um pouco no assunto, certo? Infelizmente não é bem assim. Se os ateus apenas insistissem que o ateísmo é ausência de fé não estariam cometendo um grande erro, só estariam sendo imprecisos (dado que um ateu pode ter fé na sua posição, ou algo bem parecido com fé: uma certeza que não é articulada em argumentos) e que um teísta pode amparar sua crença em um argumento razoável (ao menos aparentemente). Seria impreciso dizer que “o ateísmo é ausência de fé na existência de divindades”, mas não catastrófico. Contudo, muitos ateus insistem que o ateísmo é ausência de crença de modo obstinado, sustentando até que pedras e bebês possam, por isso, contar como ateus.Inicialmente pensei que esse fosse um erro ingênuo, que fosse mera confusão conceitual com as noções de “crença” e “fé”, entre outras. Pensei que o erro se perpetuava por sua sutileza e pela conveniência ao ímpeto argumentativo dos ateus: permitia desde artifícios retóricos (piadas do tipo “o ateísmo é tanto uma crença quanto careca é uma cor de cabelo”) até as cômodas inversões do ônus da prova. Ter que fazer ressalvas sobre o significado de “crença”, para alguns ateus, já seria conceder muito aos seus opositores. No entanto, depois vi que havia mais coisas por trás desse erro. Além do interesse em vencer debates, muitos ateus também queriam aumentar seu grupo, ou fazer ele parecer maior e mais homogêneo do que realmente é. Se isso incluiria coisas demais, como pedras, azar. O importante seria o ateu traçar uma linha nítida para separá-lo dos religiosos e, ao mesmo tempo, deixar um grande espaço do seu lado, juntando agnósticos, céticos e todos os outros que não simpatizassem com divindades. A prática de adotar certa classificação com um objetivo sócio-político não é novidade. Em si não é má ou incorreta. O problema aparece quando essa prática, para alcançar seus fins, sacrifica a razão. Por mais repressão que os ateus tenham sofrido e ainda sofram, a razão não deveria ser negociável para garantir corpo ao grupo. Os ateus deveriam desde o princípio suspeitar de uma definição pela qual seu grupo seria composto também por pedras ou bebês. Mas, não foi essa suspeita que encontrei. Pelo contrário, encontrei defesas cada vez mais fervorosas (para não dizer dogmáticas) de que o ateísmo seria ausência de crença, e que os detalhes sobre pedras e bebês seriam irrelevantes (preocupar-se com isso seria preciosismo de filósofo ou até elitismo). O que importaria é manter o grupo grande e deixar nítida a fronteira com os religiosos.
Foi aí que percebi que para muitos ateus o que endurece a defesa de que o ateísmo seria ausência de crença são (além do que já foi exposto nas seções 2 e 4.1) o cientificismo (Haack, 2012) e o radicalismo antiteísta. No caso do cientificismo os problemas de ver o ateísmo como ausência de crença podem ser ignorados contanto que o consenso sobre a soberania da ciência seja mantido. Defender o ateísmo se torna menos importante do que defender que o conhecimento oriundo das ciências naturais determina tudo que é aceitável ou razoável, tornando mandatório o abandono do que contraria resultados destas ciências ou que não está sob o alcance das mesmas. Não penso que nosso vasto conhecimento empírico seja irrelevante para a questão do ateísmo, longe disso, mas não é esse conhecimento que justifica o ateísmo. Um ateísmo limitado pelo cientificismo ou não é realmente ateísmo ou não é razoável. Para evitar o dilema os cientificistas geralmente distorcem o ateísmo, atacam a ideia de que o ateísmo precise de qualquer argumento positivo, que seja possível concluir que divindades não existem. Por isso o cientificista precisa defender que o ateísmo é algo diferente, que o ateísmo é ausência de crença: uma posição puramente reativa, inconclusiva, pois se o ateísmo fossa crença na inexistência de divindades estaria fora do alcance das ciências naturais. O que o cientificista precisa aprender, porém, é que só porque não há meio científico para justificar uma posição não significa que não exista qualquer outro meio razoável para fazê-lo. Reconhecer isso não implica liberar tudo para o misticismo ou para o relativismo.
É difícil enfatizar o quão estúpida é essa ideia. Ao impedir que a fé se vincule ao ateísmo por definição, o ateísmo só se protege da fé também na definição, não na prática. Mudar as definições de “rico” e “pobre” não afeta a distribuição de riquezas, por exemplo. Tornar a ausência da crença em divindades algo constitutivo da definição de “ateísmo” não tornaria os ateus automaticamente racionais. É ainda pior, porque a irracionalidade ficaria escondida na linguagem, escondida dos próprios ateus. O senso crítico esbarraria na autoridade de dicionários. Tudo isso alimentando a convicção, talvez fé, de que se é profundamente diferente de qualquer religioso e que as religiões são intrinsecamente más. O erro do antiteísta radical é tentar se convencer de que não está sendo irracional só por não ser religioso, e achar que esse convencimento operará o milagre de fazer com que ele realmente não esteja sendo irracional. No fundo ele não difere de um fundamentalista religioso: tenta passionalmente imunizar sua posição das críticas. O antiteísta radical precisa se lembrar que antes de uma pessoa ser religiosa ou não ela é um ser humano falível.
Não é raro ver o cientificismo misturado ao radicalismo antiteísta. Eventualmente um predomina, outras vezes são vistos como se fossem a mesma coisa. Invariavelmente são os maiores males por trás da ideia de que o ateísmo deve ser defendido como ausência de crença na existência de divindades. Por isso defender que ateísmo é crença na inexistência de divindades não é apenas corrigir um erro, mas é também tomar posição em questões importantes. O ateu honesto e razoável não deve aceitar o cientificismo ou o antiteísmo radical. Não que seja necessário apontar que o ateísmo é crença o tempo todo, é preciso ter sensibilidade para o contexto. Ninguém, por exemplo, corrige uma pessoa toda vez que ela diz que vai medir seu peso (quando o certo seria “medir sua massa”). Cabem ao nosso uso de “ateísmo” essas considerações pragmáticas que cabem ao uso de qualquer palavra. O que não cabe é negligenciar, por isso, o que o ateísmo é de fato. E precisamos ser capazes de ver o que o ateísmo é para saber se ele vale a pena. O ateísmo que vale a pena está livre da mentalidade que idealiza a ciência e que demoniza as religiões. É um ateísmo mais preocupado com a verdade do que com o convencimento, com a discordância tolerante do que com a concordância intolerante. O maior inimigo desse ateísmo não é a fé em divindades, é a fé em si mesmo.
Notas
[1] Agradeço ao Francisco Boni Neto por ter editado algumas partes deste artigo (na época em que foram publicadas no Bule Voador) e pelos comentários. Agradeço também, e especialmente, ao Eli Vieira, que sugeriu o título, revisou o conteúdo, e sempre apoiou as ideias que são aqui defendidas, mesmo que isso tenha danificado sua relação com a comunidade de ateus, céticos e simpatizantes.[2] O argumento foi formulado dessa maneira para ficar explícito. Entretanto, normalmente não é assim que ele aparece. O mais comum é que ele se esconda na afirmação de que o ateísmo seria o ponto de partida, a “hipótese nula”, e que o ônus da prova estaria totalmente do lado do teísta. Assim, a conclusão de que “não devemos crer no ateísmo” não quer dizer que não devemos fazê-lo porque seria errado, mas sim porque não seria sequer necessário.
[3] Mesmo quem nega que o ateísmo possa ser provado (como agnósticos e teístas) concederia que podemos (em alguns casos devemos) crer em coisas que não podemos provar*, e assim concederia que podemos crer no ateísmo (mesmo que defendesse que não devemos fazê-lo). Uma diferença notável do argumento da prova em relação ao argumento da fé é que o segundo tenta mostrar que o ateísmo não é uma crença, enquanto o primeiro tenta mostrar que o ateísmo não deve ser visto como uma crença (mesmo que possa ser uma). Assim, quem defende tanto o argumento da fé quanto o argumento da prova pode pensar algo como “O ateísmo é amparado em evidências, e aquilo que é amparado em evidências não deve ser considerado uma crença”, que é um erro análogo ao de dizer “A teoria da evolução não é uma teoria, é um fato”: uma crença não deixa de ser uma crença por estar amparada em evidências, uma teoria não deixa de ser uma teoria por ter forte apoio empírico.
[4] Podemos dizer que o vocabulário mentalista não é delimitado tanto pelo seu léxico quanto pelo uso que é feito de seus termos constituintes. Esse uso atravessa as fronteiras regionais da linguagem, de modo que podemos colocar no mesmo vocabulário os termos “crença”, “belief” e “glaube” (estes últimos são, respectivamente, o equivalente inglês e o equivalente alemão de “crença”) porque o que nos interessa ao agruparmos as palavras no vocabulário mentalista é a função que elas desempenham na linguagem, o uso que fazemos delas (RYLE, 1953).
[5] A dedução é intuitiva aqui: se dizemos que certo indivíduo acredita em alguma coisa, então é plausível dizer que ele pensa em alguma coisa, que tem pensamentos. Se é plausível dizer que ele tem pensamentos, então diríamos que ele tem uma mente. O mesmo valeria para desejos, pois se um indivíduo deseja algo é plausível supor que ele pensa que seu desejo pode ser saciado (ignorando os casos de desejos irracionais), e também diríamos que há uma mente envolvida em nossas atribuições. O que crenças e desejos compartilham é a intencionalidade que lhes é inerente. Cabe observar que “intencionalidade” não é o mesmo que “intenção” ou “ter uma intenção”, “intencionalidade” é um termo técnico da filosofia e não deve ser confundido com “intenção” (DENNETT e HAUGELAND, 1987; SEARLE, 2002).
[6] A postura física não precisa, contudo, estar restrita ao vocabulário técnico da física em suas aplicações. Quando alertamos as crianças dizendo “Se enfiar o dedo na tomada vai levar um choque!” estamos aplicando a postura física para predizer um fenômeno, mesmo que nenhuma equação tenha sido mencionada em nosso alerta.
[7] É quando um dispositivo apresenta algum defeito que se torna necessário investigar suas propriedades físicas. Se ele não for ativado ao ser ligado na energia elétrica, por exemplo, então poderá haver alguma coisa impedindo a devida passagem da corrente elétrica. O que quer que esteja causando o problema é algo que então será descoberto com a postura física. Portanto, nessas situações as propriedades físicas serão relevantes.
[8] “Design-stance predictions are riskier than physical-stance predictions, because of the extra assumptions I have to take on board: that an entity is designed as I suppose it to be, and that it will operate according to that design—that is, it will not malfunction. […] When a designed thing is fairly complicated (a chain saw in contrast to an ax, for instance) the moderate price one pays in riskiness is more than compensated for by the tremendous ease of prediction. Nobody would prefer to fall back on the fundamental laws of physics to predict the behavior of a chain saw when there was a handy diagram of its moving parts available to consult instead.”
[9] “Consider chess-playing computers, which all succumb neatly to the same simple strategy of interpretation: just think of them as rational agents who want to win, and who know the rules and principles of chess and the positions of the pieces on the board. Instantly your problem of predicting and interpreting their behavior is made vastly easier than it would be if you tried to use the physical or the design stance.”
[10] A TSI permite que sejam levantadas questões como “Se a postura intencional funciona tão bem, como é possível que crenças e desejos não existam de fato?” e por isso mesmo permite que sejam feitas certas críticas (DENNETT, 1987, 1999; FODOR, 1992, pp.6-8). Mas, tais críticas são irrelevantes para nossa discussão. Importa apenas notar que pode parecer estranho dizer que a TSI é uma teoria uma vez que ela não explica seus fenômenos centrais através de fenômenos mais simples, não explica exatamente o que são crenças e desejos. Ocorre que o propósito da TSI não é esse, mas sim elucidar as regras que governam o nosso emprego da postura intencional: elucidar as regras da atribuição de crenças e desejos da mesma forma que poderíamos ter um manual que explicasse as regras de um jogo, que explicasse quais movimentos podem ser feitos, quais são os resultados dos movimentos e objetivos dos jogadores.
[11] Uma explicação, segundo Dennett, para tamanha regularidade de comportamentos racionais (ao ponto de comportamentos irracionais serem incomuns) é a evolução por seleção natural: a evolução foi otimizando nossa capacidade de dar respostas para os problemas que encontramos, embora nem sempre consigamos dar a melhor resposta ou nem sempre a melhor resposta (para fins evolutivos) ser aquela que consideraríamos racional.
[12] Não há maneira de se definir “crença” através da TSI que não acabe sendo circular. Isso é assim porque, como já foi dito, a proposta da TSI não é explicar as crenças em termos mais básicos (neurológicos ou de outros tipos).
[13] “Não diríamos que o sujeito da Idade Média seria irracional se acreditasse que aparelhos televisores são feitos de chocolate (ou que não são)?” Sim, mas isso porque nesse caso a ausência de crença é somente condição necessária para que o indivíduo seja racional, não é condição suficiente. O que inferimos sobre o indivíduo hipotético é: se ele é racional, então ele não acredita que aparelhos televisores são feitos de chocolate (ou que não são). Portanto, a ausência de crença é condição necessária para que ele seja racional, mas não suficiente: ter tais crenças garantiria que ele é irracional, mas não tê-las não garante que ele seja racional nas crenças que tem.
[14] “Fé” também faz parte do vocabulário da psicologia popular. Para que entendêssemos melhor a relação entre “fé” e “crença” teríamos que investigar mais a psicologia popular, algo que não será feito aqui.
[15] Na verdade podem haver exceções. Há filósofos que defendem (como o próprio Dennett) que mesmo o Princípio de Não-Contradição poderia ser abandonado em certas circunstâncias. Aqui, porém, essa questão pode ser ignorada.
[16] Agradeço a Francieli Dezordi por apontar a importância de diferenciar agnosticismo e ceticismo.
[17] Há o ateísmo agnóstico, segundo o qual nós não sabemos se divindades existem ou não, mas ainda assim podemos acreditar que elas não existem, não precisamos suspender crenças. O detalhe aí é que expressar essa crença deixa de ser uma expressão de conhecimento. De qualquer maneira, o ateísmo agnóstico não compromete o argumento porque mesmo no ateísmo agnóstico o ateísmo não deixa de ser a crença na inexistência de divindades. Tanto o agnosticismo quanto o ceticismo são essencialmente teses sobre o que sabemos ou podemos saber, diferentemente do ateísmo, que seria sobre o que (não) existe e, por isso, ainda que sejam teses que possam ser combinadas, nunca seriam equivalentes.
[14] “Fé” também faz parte do vocabulário da psicologia popular. Para que entendêssemos melhor a relação entre “fé” e “crença” teríamos que investigar mais a psicologia popular, algo que não será feito aqui.
[15] Na verdade podem haver exceções. Há filósofos que defendem (como o próprio Dennett) que mesmo o Princípio de Não-Contradição poderia ser abandonado em certas circunstâncias. Aqui, porém, essa questão pode ser ignorada.
[16] Agradeço a Francieli Dezordi por apontar a importância de diferenciar agnosticismo e ceticismo.
[17] Há o ateísmo agnóstico, segundo o qual nós não sabemos se divindades existem ou não, mas ainda assim podemos acreditar que elas não existem, não precisamos suspender crenças. O detalhe aí é que expressar essa crença deixa de ser uma expressão de conhecimento. De qualquer maneira, o ateísmo agnóstico não compromete o argumento porque mesmo no ateísmo agnóstico o ateísmo não deixa de ser a crença na inexistência de divindades. Tanto o agnosticismo quanto o ceticismo são essencialmente teses sobre o que sabemos ou podemos saber, diferentemente do ateísmo, que seria sobre o que (não) existe e, por isso, ainda que sejam teses que possam ser combinadas, nunca seriam equivalentes.
REFERÊNCIAS
- DENNETT, Daniel. The Intentional Stance. Cambridge: MIT Press, 1987.
- Brainstorms: Ensaios Filosóficos sobre a Mente e a Psicologia. São Paulo: ed. Unesp, 1999.
- Intentional Systems Theory. In: MCLAUGHLIN, Brian; et al. (ed.). Oxford Handbook of the Philosophy of Mind. Nova Iorque: Oxford University Press, 2009, pp. 339-50. Disponível em: http://ase.tufts.edu/cogstud/dennett/papers/intentionalsystems.pdf
- DENNETT, Daniel; HAUGELAND, John. Intentionality. In: GREGORY, Richard L. (org.). The Oxford Companion to the Mind. Nova Iorque: Oxford University Press, 1987.
- FODOR, Jerry. A Theory of Content and Other Essays. Cambridge: MIT Press, 1992.
- HAACK, Susan. Seis Sinais de Cientificismo. Eli Vieira Araujo Jnr. (trd.). 2012. Disponível em: http://lihs.org.br/artigos/Haack_Seis_Sinais_de_Cientificismo_LiHS_2012.pdf
- RYLE, Gilbert. Ordinary Language. In: The Philosophical Review, Vol. 62, n.2, pp. 167-186. Durham: Duke University Press, 1953. Disponível em: http://www.philosophie.hu- berlin.de/institut/lehrbereiche/logik/lehre/ryle_ordinary.pdf
- SEARLE, John. Intencionalidade. São Paulo: ed. Martins Fontes, 2002.

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