Esta é a
tradução da resposta ao texto “A Teoria da Lei Natural é Obviamente Falsa! Uma Refutação da Teoria da Lei Moral Natural Escolástica e sua Ética Sexual Restritiva!” de Matthew Adelstein (Bentham’s Bulldog) feita por Brian Besong no
substack de Patrick Flynn em defesa da teoria da lei natural. Eu (David
Ribeiro) irei traduzir o debate completo conforme as publicações forem sendo
feitas.
Introdução
A internet
está em polvorosa com a notável conversão de Joe Schmid. Isso traz consigo um
novo escrutínio sobre o conjunto de ideias que costumam atrair os católicos,
entre elas a lei natural. Nesse contexto, Matthew Adelstein resgatou algumas
objeções antigas e, com aquele entusiasmo típico de quem vive imerso na
internet, concluiu que a teoria é "obviamente falsa". Curiosamente —
e sem nenhuma surpresa —, Adelstein não dialoga com nenhuma obra publicada
sobre a lei natural, mesmo ao transitar por um terreno já amplamente explorado.
Fica a impressão de que seu conhecimento sobre o tema provém quase
exclusivamente de ter assistido ao meu debate com Dustin Crummett e de algumas
informações esparsas coletadas na internet. Ao omitir literalmente qualquer
argumento apresentado pelos defensores da lei natural, ele transmite a ideia de
que se trata de uma visão peculiar, sustentada apenas por católicos e incapaz
de resistir ao menor escrutínio filosófico. Sem dúvida, é isso que Adelstein
pensa; daí a imprecisão filosófica de sua postagem no blog. Embora este não
seja o lugar para retomar todos esses argumentos, destaco o último capítulo do
meu livro recente, *Sex in Theory*, que apresenta um argumento robusto — e até
agora incontestado — a favor da lei natural: trata-se da única teoria moral
existente capaz de explicar as verdades "mooreanas" sobre a vida
sexual. Embora Adelstein conteste a forma como a lei natural explica essas
verdades — pontos que abordarei mais adiante —, a ausência de uma explicação rival
genuína é reveladora. O que ouço constantemente é que, sem a lei natural, as
coisas se tornam confusas. Tenho certeza de que ficam mesmo, e estou aqui para
colocar ordem na casa.
Objeções respondidas
As objeções
de Adelstein padecem de um duplo defeito: são ruins e pouco originais. Se não
fosse pelo fato de eu ser citado nominalmente — inclusive pelo primeiro nome,
como se fôssemos velhos amigos —, eu as ignoraria. Assim, tratarei delas
rapidamente.
Cada um dos
argumentos pode ser formulado como um silogismo simples, contendo uma premissa
controversa e mal defendida.
O argumento da primeira seção é
simples:
1. A lei
natural é uma forma de egoísmo ético.
2. Toda forma
de egoísmo ético é falsa.
3. Logo, a
lei natural é falsa.
Não tenho
problemas com a primeira premissa: pelo menos, ela é verdadeira em relação à
minha compreensão da lei natural. Por que considerar verdadeira a segunda
premissa? Adelstein recorre a uma intuição que não compartilho: "isso
inverte a ordem da explicação". E, pior ainda, ele faz uma afirmação que
favorece a minha visão ao tentar defendê-la: "Parte da razão pela qual
você deve ajudar outras pessoas é pelo bem delas". Parte. Sim, concordo.
Como ser social, importar-se com os outros "pelo bem deles" faz parte
da minha natureza — uma natureza que não devo ignorar. É uma parte da
explicação.
Por que
considerar falsa a segunda premissa? Uma razão é que certas formas de egoísmo
ético podem oferecer uma resposta adequada às preocupações de Bernard Williams
sobre o amoralista. Há uma razão pela qual o eudaimonismo tem atraído filósofos
desde Aristóteles até Annas. Para os leitores não familiarizados com o tema: os
realistas morais tendem a pensar que as razões morais são categóricas e possuem
uma autoridade ineludível. Elas se aplicam a todos, independentemente dos
desejos ou interesses contingentes de cada um. O problema reside em explicar
isso. Afinal, é bastante fácil imaginar um "amoralista" para quem o
fato de um ato ser profundamente depravado não desperta mais interesse do que o
fato de estar comendo panquecas com um garfo para camarão. Esse perfil parece
coerente. Os realistas viram-se forçados a desenvolver uma noção de razões que
— para retomar uma expressão de J.L. Mackie — são "estranhas"
(*queer*): o amoralista possui razões, embora tais razões jamais pudessem explicar
seu comportamento, nem ele jamais pudesse chegar a elas por meio de uma boa
deliberação. Trata-se de "razões" peculiares. Algo próximo a esse
problema tem sido a principal força motriz para a rejeição do realismo moral em
favor de alternativas menos "estranhas" (defendidas por figuras como
Mackie, Richard Joyce, Jonas Olson e outros). A lei natural, assim como outras
perspectivas eudaimonistas, contornam naturalmente esse problema, preservando o
realismo moral diante de uma objeção séria e relevante: a de que as razões
morais estão sempre profundamente ligadas àquilo com que cada indivíduo
necessariamente se importa.
Embora eu
tenha apontado isso em debates com Dustin Crummett, Amos Wollen, Matthew
Adelstein e o próprio Joe Schmid (antes de sua conversão), trata-se de um
argumento a favor de visões amplamente egoístas ao qual ninguém respondeu — não
apenas de forma inadequada, mas sequer respondeu. (Crummett, cuja formação o
torna especialmente versado nessa área, teve dificuldades para explicar por que
o contratualismo ao estilo de Scanlon — sua abordagem preferida — não é
derivativamente egoísta exatamente no mesmo sentido em que a lei natural o é;
afinal, Scanlon fundamenta a prioridade das razões morais no valor que, para
cada um de nós, reside em manter uma relação de "reconhecimento
mútuo" com os outros.) Adelstein simplesmente age como se o argumento
nunca tivesse sido apresentado e recomeça do zero, presumivelmente porque seu
público desconhece o espantalho que está sendo criado. Talvez isso ocorra
porque se trata de um problema difícil para a visão deles, sendo mais fácil
fingir que a lei natural não passa de Ayn Rand vestida com as roupas de Tomás
de Aquino.
Adelstein
rapidamente se desloca para um terreno seguro: destacar uma implicação
contraintuitiva da lei natural, na esperança de que isso reforce sua segunda
premissa. Afinal, ele tem razão ao afirmar que, segundo a lei natural, não se
deve mentir para salvar a própria família da tortura. O problema, aqui, é que o
argumento revela um truque óbvio. O egoísmo ético trata de explicar razões
últimas (morais). Ele não nos diz nada sobre quais são as normas morais. A
verdadeira objeção de Adelstein recai sobre a norma moral, e não sobre a
explicação das razões. Basta substituir a situação por uma norma menos
controversa para que o problema se torne evidente: se a tortura sexualizada de
uma criança pequena fosse a única maneira de salvar o mundo de um dano moderado
(digamos, uma dor de cabeça) — e se tal ato gerasse, no cômputo geral, mais
felicidade do que qualquer alternativa (seja qual for o cálculo utilizado,
utilitarista ou pluralista, não importa) —, a lei natural ainda assim diria que
isso é errado. Não deveríamos fazê-lo, pois constitui uma violação flagrante
dos direitos da menina — direitos que respeitamos por serem essenciais à sua
busca pela felicidade (e porque somos seres sociais que devem zelar por tais
coisas). Pelo que vejo, a ética consequencialista preferida por Adelstein
aprovaria tal tortura sexualizada. Todas as teorias morais apresentam
conclusões contraintuitivas e, no balanço geral, considero muito mais aceitável
“morder a bala” sobre mentir do que encarar as situações que um
consequencialista enfrenta rotineiramente.
O argumento central da segunda seção
é:
1. Se a lei
natural é verdadeira, a bondade consiste no funcionamento adequado.
2. A bondade
não consiste no funcionamento adequado.
3. Logo, a
lei natural não é verdadeira.
Prefiro o
termo "teleológico" a "funcionamento adequado", mas não vou
discutir detalhes sem importância. Grande parte do argumento aqui depende de
intuições pré-teóricas para sustentar a segunda premissa. As tentativas de
oferecer um embasamento independente para a premissa completam o raciocínio:
uma "pílula da alegria", por exemplo, que deveria ser boa para mim
(de que maneira? Alguém se lembra da "máquina de experiências"?),
apesar de não ter relação com o funcionamento adequado (por que não teria?). Ou
poderíamos imaginar uma criatura cujo funcionamento adequado fosse algo ruim.
Talvez. Mas, como apontei anteriormente em nosso debate, parece-me que
deveríamos adotar uma forma de axiarquismo. Brian Cutter, John Pittard e (em um
artigo a ser publicado) Pat Flynn defenderam uma visão segundo a qual a
natureza de Deus restringe a possibilidade metafísica. Não existe mundo
possível no qual Deus crie uma natureza fundamentalmente maligna, tal como
Adelstein imagina; contudo, seria necessário que tal mundo existisse para
fundamentar a alegação de Adelstein. A capacidade de Adelstein de conceber
coerentemente tal mundo constitui uma evidência — passível de refutação — de
sua possibilidade, mas este é um caso em que tal evidência foi refutada. E, se
mundos impossíveis podem servir como contraexemplos a uma teoria normativa,
então o fato de eu conceber coerentemente um mundo no qual o sofrimento é
intrinsecamente bom refuta o consequencialismo que ele prefere.
Na terceira seção, ele argumenta:
1. Se a lei
natural é verdadeira, usar uma faculdade natural de maneira não natural nunca é
permissível.
2. Às vezes,
usar uma faculdade natural de maneira não natural é permissível.
3. Logo, a
lei natural está errada.
Novamente, o
peso maior recai sobre as intuições que sustentam a segunda premissa: os
nazistas à porta, o maníaco do bagel (por que eu teria de dizer algo?), etc. Mais
adiante, Adelstein sustenta a segunda premissa de forma independente, ao falar
sobre pequenos usos indevidos em prol do florescimento (ou funcionamento)
pleno; contudo, isso pressupõe uma visão de felicidade voltada à maximização, o
que é simplesmente equivocado (e não apenas porque Adelstein confunde
repetidamente felicidade com sentimentos subjetivos). Se a lei natural se
comprometesse como tal visão, ela também apoiaria o "Larry do Suporte à
Vida" (*Life Support Larry*), que percebe que salvar pessoas à beira da
morte é a melhor expressão de suas virtudes e impulsos interiores e, por isso
(enquanto está na UTI), permite que os pacientes cheguem perigosamente perto da
morte para que ele possa salvá-los. O Larry do Suporte à Vida não compreende o
verdadeiro florescimento humano e, ao que parece, ele não está sozinho.
Adelstein está importando análises consequencialistas para contextos onde elas
são profundamente inadequadas.
Quarta seção:
1. Se atos
sexuais são errados por envolverem o uso de faculdades naturais de maneira não
natural, então mascar um canudo, lamber selos ou usar fones de ouvido com
cancelamento de ruído também o são.
2. Esses
últimos atos não são errados.
3. Logo, atos
sexuais não são errados por envolverem o uso de faculdades naturais de maneira
não natural.
Aqui, o
problema reside na primeira premissa. Como argumento em um artigo a ser
publicado na revista *The Thomist* (e que discuti recentemente com Pat Flynn),
cada um desses resultados contraintuitivos decorre de uma compreensão equivocada
das distinções entre o que chamo de faculdades integrais e constitutivas. Como
o artigo é extenso e será publicado (se Deus quiser) ainda este ano, serei
breve aqui: fones de ouvido com cancelamento de ruído, assim como o
antitranspirante, não utilizam uma faculdade contra a sua própria finalidade. A
audição não é uma faculdade voltada para a maximização da entrada de som, nem o
sistema de regulação térmica é uma faculdade voltada para a maximização do
suor. Esses argumentos são pistas falsas (e isso ficaria claro para quem lesse
artigos recentes de, digamos, John Skalko ou Tim Hsiao, entre outros). Tanto
lamber um selo quanto mastigar um canudo são usos supérfluos de uma faculdade
constitutiva cujos objetivos imediatos não foram frustrados (a capacidade de
salivar e de mastigar, respectivamente). A confusão surge, principalmente,
quando se confunde a finalidade imediata dessas subfaculdades
"constitutivas" com a finalidade da faculdade integral à qual elas
servem: tanto para a salivação quanto para a mastigação, a finalidade integral
é a saúde (por meio da digestão). Não cabe aqui um paralelo com atos sexuais,
uma vez que estes visam à concepção e, em última análise, à procriação.
O caso de
Wollen envolvendo rapazes gays de fraternidade universitária pressupõe — de
forma bastante estranha, a meu ver — que a intenção determina plenamente a
natureza do ato de alguém e que essa intenção é totalmente definida pelo que as
pessoas dizem a si mesmas (ou aos outros) sobre suas ações. Ambas as premissas
são profundamente problemáticas por si sós, e não consigo imaginar ilustração
melhor dos problemas inerentes a essas teses do que o caso levantado por Wollen
e, posteriormente, por Adelstein. Se não fosse algo repugnante em sua
depravação, eu ficaria satisfeito por eles continuarem insistindo nisso. Acho
que os jovens chamam isso de "dar um tiro no próprio pé". Em suma, o
que esses rapazes estão fazendo é sexo uns com os outros — ou seja, sexo gay —,
e isso constitui um uso indevido de faculdades naturais, independentemente de
quaisquer racionalizações em contrário. Para usar um exemplo não sexual: um
homem que atira em outro apenas para ver qual é a sensação ainda assim cometeu
um assassinato, e não um mero ato de aquisição de conhecimento.
A quinta seção argumenta que:
1. Se a lei
natural situa a imoralidade da pedofilia, do bestialismo e do incesto na
ausência de potencial procriativo, então esses atos seriam menos condenáveis
caso fossem procriativos, e o incesto procriativo não seria errado.
2. Eles não
seriam menos condenáveis, e o incesto é errado.
3. Logo, a
lei natural não explica por que tais atos são errados.
Aqui, os
problemas são inúmeros, todos decorrentes da primeira premissa. Adelstein
aponta corretamente que o sexo procriativo com crianças é errado. A lei natural
concorda: crianças são emocional e psicologicamente imaturas demais para criar
filhos ou consentir com o casamento — a relação na qual o sexo é legitimamente
circunscrito. Adelstein sugere também que o sexo com animais seria errado mesmo
se fosse procriativo. Presumivelmente, não com marcianos racionais e
humanoides. Mas, mesmo que pudéssemos gerar filhos racionais com algum animal
irracional — e, nesse caso, não tenho certeza de quão fortes seriam nossas
intuições sobre a imoralidade do ato —, um animal irracional é também
psicologicamente incapaz de atuar como progenitor de um agente racional.
Novamente, o casamento — cujas restrições objetivas exigem compromissos
racionais — está fora de cogitação em tal caso; logo, o sexo é errado. Por fim,
ele acredita que, como as taxas de problemas genéticos entre indivíduos
específicos (*tokens*) poderiam se equiparar ou superar os problemas genéticos
do incesto enquanto tipo de ato (*type*), ambos se sustentam ou caem juntos. O
problema é que a lei natural é uma teoria sobre a natureza humana, um tipo
(*type*) e não um indivíduo específico (*token*). Embora devamos nos preocupar
com os efeitos concretos de nossas ações específicas, eles não fundamentam
julgamentos sobre a teleologia intrínseca de tipos de atos. Mais uma vez,
Adelstein está introduzindo furtivamente o consequencialismo. (Não deve
surpreender o leitor que grande parte disso seja discutida extensamente em *Sex
in Theory*, livro com o qual Adelstein parece não estar familiarizado.)
Embora Adelstein
reclame de epiciclos, sua teoria sequer nos oferece ciclos. O que ele apresenta
não é uma explicação filosófica da moralidade na intimidade, mas sim uma lista
de verificação *ad hoc*: "só é aceitável fazer sexo quando todas as partes
envolvidas são adequadamente racionais e quando o ato não perverte nenhuma
relação que deveria ser não sexual". Quão racional e por quê? Quais
relações, e por quê? Ironicamente, ele logo em seguida admite a possibilidade
de incesto, bestialidade e necrofilia serem permissíveis. Se vamos falar sobre
coisas que são obviamente falsas, Adelstein deveria começar por teorias que dão
margem a isso.
Próxima parte
do debate(Parte 3) com resposta de Matthew Adelstein ao Brian Besong em um texto intitulado
"Sim, a Teoria da Lei Natural é obviamente falsa!” será postada em breve.

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