Resumo
Cutter e
Crummett (no prelo) defendem um novo argumento a favor do teísmo: um argumento
baseado na "harmonia psicofísica". Eles sustentam que esse argumento
"merece um lugar de destaque ao lado dos argumentos teístas
tradicionais".1 Seja como for, sustento que o argumento da harmonia
psicofísica não é um bom argumento. Em particular, sugiro que o argumento se
vale indevidamente de (i) escolhas "judiciosas" quanto ao
conhecimento de fundo que pode ou não figurar em nossa avaliação de
probabilidades a priori e verossimilhanças; e/ou (ii) uma escolha
"judiciosa" de definições para os termos centrais utilizados na
formulação do argumento.
1. O Argumento da
Harmonia Psicofísica
No cerne do
argumento da harmonia psicofísica está um apelo a uma versão do Teorema de
Bayes expressa em termos de razão:
Pr
(Teísmo/Harmonia) Pr (Teísmo) Pr (Harmonia/Teísmo)
================= = ========== . ====================
Pr
(Ateísmo/Harmonia) Pr (Ateísmo) Pr
(Harmonia/Ateísmo)
ou, se
incluirmos explicitamente o conhecimento de fundo *k* em nossa representação:
Pr
(Teísmo/Harmonia & k) Pr
(Teísmo/k) Pr (Harmonia/Teísmo
& k)
====================== = =========== . ========================
Pr
(Ateísmo/Harmonia & k) Pr
(Ateísmo/k) Pr (Harmonia/Ateísmo
& k)
Vale
ressaltar, de início, que não existe nenhum princípio bayesiano respeitável
segundo o qual, para alguns dos termos da razão, leva-se em conta o
conhecimento de fundo, enquanto para outros termos da razão, não se leva em
conta o conhecimento de fundo.
O argumento
da harmonia psicofísica possui duas premissas:
1. Pr
(Harmonia/Teísmo) é muito maior do que Pr (Harmonia/Ateísmo).
2. Pr
(Ateísmo) não é muito maior do que Pr (Teísmo).
Dessas duas
premissas, por meio da versão de razão relevante do Teorema de Bayes, segue-se
que
3. Pr
(Teísmo/Harmonia) é significativamente maior do que Pr (Ateísmo/Harmonia).
Naturalmente,
se incluirmos explicitamente o conhecimento de fundo, o argumento assume a
seguinte representação:
1. Pr
(Harmonia/Teísmo & k) é muito maior do que Pr (Harmonia/Ateísmo & k).
2. Pr
(Ateísmo/k) não é muito maior do que Pr (Teísmo/k).
Dessas duas
premissas, por meio da versão de razão relevante do Teorema de Bayes, segue-se
que
3. Pr
(Teísmo/Harmonia & k) é significativamente maior do que Pr
(Ateísmo/Harmonia & k).
Todos os
termos do argumento possuem definições específicas atribuídas a eles por Cutter
e Crummett.
Cutter e
Crummett entendem o teísmo como a afirmação de que "o fundamento da
realidade consiste em uma mente que possui algumas características
razoavelmente naturais — poder, bondade, conhecimento — em um grau
razoavelmente natural — talvez máximo".2 Com base nisso, eles afirmam que
é simplesmente irracional atribuir ao teísmo uma probabilidade *a priori*
extremamente baixa.
Cutter e
Crummett entendem o ateísmo como a afirmação obtida ao conjugar a negação do
teísmo com a afirmação de que "o universo não tem propósito, não sendo
teleologicamente ordenado para a realização de qualquer tipo de valor, seja
extrinsecamente... ou intrinsecamente".3
Cutter e
Crummett consideram que a harmonia psicofísica consiste no "fato de que
estados fenomenais estão correlacionados com estados físicos e entre si de
maneiras surpreendentemente favoráveis".4 Eles distinguem diferentes tipos
de harmonia psicofísica. Para os nossos propósitos, basta dizer um pouco mais
sobre um desses tipos, a saber, a harmonia normativa psicofísica:
"Harmonia
Normativa: Em todos os casos, um estado físico com um determinado papel
funcional está correlacionado a uma experiência cujo papel normativo essencial
harmoniza-se com esse papel funcional, quando, concebivelmente, tal estado
poderia ter sido correlacionado a uma experiência cujo papel normativo
essencial fosse não harmonioso — talvez até mesmo desarmonioso — em relação a
esse papel funcional."5
Cutter e
Crummett afirmam que a correlação em questão é "surpreendentemente
afortunada", pois "a esmagadora maioria dos conjuntos de leis
psicofísicas concebíveis [puramente *a priori*] teria produzido desarmonia...
(e) também parece que os padrões de correlação psicofísica... mais simples
seriam desarmoniosos."6
Para
completar o argumento, precisamos avaliar as razões de probabilidade *a priori*
e as razões de verossimilhança relevantes. Em sua discussão sobre as razões de
probabilidade *a priori*, Cutter e Crummett dizem o seguinte: "A
probabilidade *a priori* do teísmo é o resultado de dois fatores: (i) sua
probabilidade intrínseca, isto é, sua probabilidade na ausência de evidências,
e (ii) sua compatibilidade com o conhecimento de fundo."7 Isso pode
sugerir que necessitamos de um argumento bayesiano *a priori* para calcular a
razão de probabilidade *a priori*:
Pr (Teísmo|k)
Pr (Teísmo) Pr
(k|Teísmo)
========== = ========== . ==============
Pr
(Ateísmo|k) Pr (Ateísmo)
Pr (k|Ateísmo)
Seja como
for, para levar em conta a "compatibilidade com o conhecimento de
fundo", precisamos saber exatamente o que é "conhecimento de
fundo". A única orientação que obtemos de Cutter e Crummett a esse
respeito é a seguinte: "É crucial para o [nosso] argumento que informações
sobre correlações psicofísicas não sejam tratadas como parte do nosso
conhecimento de fundo"8. Uma questão que surge imediatamente é se devemos
supor que nosso conhecimento de fundo é fechado sob a consequência lógica:
seria automaticamente ilegítimo incluir em nosso conhecimento de fundo qualquer
coisa que tenha consequências para as correlações psicológicas?
2. Coelhinhos da Páscoa
Intuitivos e Tímidos
Um coelho da
Páscoa tímido e intuitivo é um coelho que entrega ovos de Páscoa, mas — por ser
tímido e intuitivo — nunca é observado por seres humanos e, em particular,
nunca desperta neles a suspeita de ter entregue ovos de Páscoa. Um coelho da
Páscoa tímido e intuitivo específico caracteriza-se por sua posição em certas
escalas: seus percentis de comprimento, peso, força, velocidade, inteligência e
afins. Visto que essas escalas medem grandezas de valor real e que as medidas
dessas grandezas possuem limites superior e inferior, as posições nas escalas
relevantes correspondem a valores reais no intervalo fechado entre zero e um.
Suponhamos
que consideremos um conjunto de N coelhos da Páscoa tímidos e intuitivos que
sejam possíveis de um ponto de vista puramente *a priori*. Então, puramente *a
priori* e seguindo o raciocínio de Cutter e Crummett, é muito provável que
existam, de fato, aproximadamente N/2 coelhos da Páscoa tímidos e intuitivos
nesse conjunto — uma vez que há muito mais maneiras de obter aproximadamente
N/2 coelhos desse conjunto do que, por exemplo, de ter apenas um coelho, ter
todos os N coelhos ou não ter nenhum coelho da Páscoa tímido e intuitivo nesse conjunto.
Se
considerarmos conjuntos de coelhos da Páscoa tímidos e intuitivos com tamanhos
progressivamente maiores, chegando por fim ao conjunto que contém todos os
coelhos da Páscoa tímidos e intuitivos possíveis *a priori*, será
"verdadeiro no limite" que é muito mais provável termos, de fato, um
número "intermediário" de coelhos da Páscoa tímidos e intuitivos: nem
zero, nem um, nem todos eles. Além disso, levando em conta apenas considerações
puramente *a priori*, não há razão para supor que qualquer posição específica
em uma das escalas relevantes seja mais provável do que qualquer outra posição
nessas mesmas escalas. Em particular, não há nada de distintivo *a priori* em
posições extremas, ou em posições caracterizadas exatamente por um número real
cujo único dígito diferente de zero esteja na primeira casa decimal, ou algo do
gênero. A afirmação de que existe um coelho da Páscoa tímido e intuitivo com
valores extremos em todos os quesitos — comprimento, peso, força, velocidade,
inteligência e afins — não é uma afirmação que, puramente *a priori*, possua
maior probabilidade "intrínseca" do que outras afirmações
existenciais individuais sobre coelhos da Páscoa tímidos e intuitivos. Assim,
ao que parece, seguindo o estilo de raciocínio apresentado por Cutter e
Crummett, deveríamos pensar que, puramente *a priori*, existem de fato muitos
coelhinhos da Páscoa tímidos e intuitivos. Mas, é claro, nenhum de nós acredita
seriamente que existam coelhinhos da Páscoa tímidos e intuitivos; e suspeito
que a maioria de nós considere bastante irracional acreditar na existência de
muitos coelhinhos da Páscoa tímidos e intuitivos. No entanto, se levarmos a
sério a afirmação de que, puramente *a priori*, deveríamos considerar muito
provável a existência de uma enorme quantidade de coelhinhos da Páscoa tímidos
e intuitivos, então — novamente seguindo o estilo de raciocínio de Cutter e
Crummett — precisaríamos de alguma evidência bastante convincente, suficiente
para anular essa elevada probabilidade puramente *a priori*. Mas que evidência
seria essa? O cenário estabelece que, como os coelhinhos da Páscoa são tímidos
e intuitivos, jamais os observaremos nem teremos qualquer outra evidência que
corrobore sua existência. Portanto, o fato de não encontrarmos qualquer
evidência da existência de coelhinhos da Páscoa de qualquer tipo não constitui
prova contra a afirmação de que existem coelhinhos da Páscoa tímidos e
intuitivos. Além disso, por exemplo, o fato de nunca observarmos ovos de Páscoa
que tenhamos razão para supor terem sido entregues por coelhinhos da Páscoa
tímidos e intuitivos também não é evidência contra a existência deles; afinal,
esses coelhinhos só entregam ovos quando sabem que a entrega passará
despercebida. Assim, por exemplo, durante uma caça aos ovos de Páscoa, eles
podem muito bem acrescentar um ovo extra em algum lugar, mas apenas quando têm
certeza de que ninguém notará que aquele ovo não foi colocado por um dos
organizadores da brincadeira.
Talvez,
seguindo Cutter e Crummett, possamos propor a existência de uma ordem divina
contra os coelhinhos da Páscoa tímidos e intuitivos: o Senhor Deus decretou que
não existam coelhinhos da Páscoa tímidos e intuitivos e, eis que assim é.
Naturalmente, o problema aqui não se resume aos coelhinhos da Páscoa tímidos e
intuitivos: há, no mínimo, uma infinidade não enumerável de outras ordens que o
Senhor Deus precisaria emitir para descartar criaturas que, seguindo o estilo
de raciocínio de Cutter e Crummett, apresentam uma probabilidade puramente *a
priori* significativa.
Se o Senhor
Deus não fosse onipotente, Ele teria um trabalho árduo pela frente.
3. Deuses
Um deus é um
ser que satisfaz as seguintes condições: (1) é um ser não natural; (2) exerce
algum poder sobre seres naturais; (3) nenhum ser natural exerce poder sobre
ele; e (4) caracteriza-se por suas posições em certas escalas: percentis de
poder, conhecimento, retidão, beleza, amor, beneficência e afins. Visto que as
escalas são percentis, as posições nas escalas relevantes correspondem a
valores reais no intervalo fechado entre zero e um. Como os deuses possuem e
exercem poder sobre seres naturais, eles não podem carecer de poder nem de
conhecimento. No entanto, o fato de um ser ocupar o percentil zero em termos de
poder e conhecimento não implica que ele não possua poder ou conhecimento;
implica, antes, que nada do que está sendo medido possui menos poder ou
conhecimento do que ele.
De uma
perspectiva puramente *a priori*, não há incoerência na afirmação de que existe
um deus situado em percentuais específicos (expressos em valores reais) para
uma gama de atributos. Além disso, puramente *a priori*, nada estabelece uma
distinção probabilística entre conjuntos específicos de percentuais reais para
tais atributos. Cutter e Crummett afirmam (na prática) que um deus que
apresente valores máximos para todos os atributos é muito mais provável do que
qualquer outro deus. Afirmam também (na prática) que é muito mais provável a
existência de apenas esse deus máximo do que a existência de muitos deuses.
Contudo, seguindo o mesmo raciocínio aplicado anteriormente ao caso dos
coelhinhos da Páscoa intuitivos e tímidos, fica claro que — puramente *a
priori* e sem levar em conta qualquer tipo de evidência — o mais provável é que
exista, de fato, um número "intermediário" de deuses (sendo esse
número um cardinal infinito) e que, além disso, exista um número infinito
semelhante de deuses possíveis *a priori* que não existem na realidade. Ao
contrário do que eles alegam, a probabilidade puramente *a priori* do
monoteísmo máximo que defendem é "proibitivamente baixa"9; de fato,
pode-se argumentar que a probabilidade puramente *a priori* desse monoteísmo
máximo é zero. Além disso, visto que eles consideram o ateísmo como a negação
do teísmo, na abordagem que preferem, a probabilidade puramente *a priori* do
ateísmo é "surpreendentemente alta"; de fato, pode-se argumentar que
a probabilidade puramente *a priori* do ateísmo é igual a um. Naturalmente,
isso não traz nenhum consolo real aos ateus: se, em vez disso, entendermos o
ateísmo como a afirmação de que não existem deuses, então a probabilidade
puramente *a priori* do ateísmo é exatamente a mesma que a probabilidade
puramente *a priori* do teísmo: zero.
Se as
probabilidades puramente *a priori* do teísmo e do ateísmo são zero, então,
segundo a definição padrão de probabilidade condicional, a verossimilhança da
harmonia condicionada ao teísmo ou ao ateísmo é simplesmente indefinida. É
verdade que existem teóricos que consideram a noção de probabilidade
condicional como primitiva; e esses teóricos poderiam supor que é possível
calcular as verossimilhanças puramente *a priori* da harmonia, mesmo que as
probabilidades puramente *a priori* do teísmo e do ateísmo sejam zero. Contudo,
no mínimo, a validade de tais cálculos é controversa. De qualquer modo, como
veremos agora, mesmo que a verossimilhança puramente *a priori* da harmonia no
teísmo seja maior do que a verossimilhança puramente *a priori* da harmonia no
ateísmo, isso não precisa ser motivo de preocupação para os naturalistas.
4. Naturalismo
Cutter e
Crummett entendem o teísmo como a afirmação de que o fundamento da realidade
consiste em uma mente (divina) que possui algumas características razoavelmente
(simples) — poder, bondade, conhecimento — em um grau razoavelmente (simples) —
talvez máximo. E eles entendem o ateísmo como a afirmação conjuntiva de que não
é o caso de o fundamento da realidade consistir em uma mente (divina) que
possui algumas características razoavelmente (simples) — poder, bondade,
conhecimento — em um grau razoavelmente (simples) — talvez máximo; e de que não
é o caso de o universo ser dotado de propósito, ou de ser extrínseca ou
intrinsecamente ordenado de forma teleológica para a realização de algum tipo
de valor. Há uma falta de simetria insatisfatória entre essas definições. Para
restaurar a simetria, o melhor caminho é contrapor o naturalismo ao teísmo,
sendo que o naturalismo afirma algo como o seguinte:
A realidade
causal consiste apenas em objetos causais naturais com apenas propriedades
causais naturais; seres causais dotados de mente possuem histórias evolutivas
muito longas na realidade causal; e nada na realidade causal é divino.
A questão
importante — do ponto de vista dos naturalistas — não é como o ateísmo se
compara ao teísmo, mas sim como o naturalismo se compara ao teísmo.
Como vimos na
seção anterior, é plausível que a probabilidade puramente *a priori* do teísmo
seja muito próxima de zero. Não há mal algum em admitir que a probabilidade puramente
*a priori* do naturalismo é, de modo semelhante, próxima de zero. Dada essa
concessão, as probabilidades puramente *a priori* do teísmo e do naturalismo
são mais ou menos iguais, e a razão entre essas probabilidades puramente *a
priori* é próxima de um. Resta apenas calcular as probabilidades puramente *a
priori* de haver harmonia sob o teísmo e sob o naturalismo.
Segundo
Cutter e Crummett, Pr(Harmonia/Teísmo) é significativamente maior do que
Pr(Harmonia/Ateísmo). Embora, puramente *a priori*, não seja
extraordinariamente improvável que um deus máximo decretasse leis psicofísicas
que garantissem a harmonia, é extraordinariamente improvável, puramente *a
priori*, que a harmonia prevalecesse se o ateísmo fosse verdadeiro. Na visão
deles, visto que, puramente *a priori*, mapeamentos harmoniosos são raros no
espaço de mapeamentos possíveis, é extraordinariamente improvável, puramente *a
priori*, que a harmonia se verifique.
Cutter e
Crummett afirmam o seguinte:
"As leis
psicofísicas poderiam, concebivelmente, ter mapeado [o estado físico que faz
com que você evite ou elimine um estímulo específico no futuro] para o prazer,
enquanto mapeavam a base neural real do prazer para a dor. Nesse cenário,
evitaríamos sistematicamente um estado que temos razão para buscar e
buscaríamos sistematicamente um estado que temos razão para evitar. Nossas
vidas seriam uma farsa patética: recuaríamos diante de experiências prazerosas
e infligiríamos dor, alegremente, aos nossos entes queridos."10
A situação é
muito pior do que Cutter e Crummett supõem. No cenário imaginado, as criaturas
correriam para o abraço voluntário de predadores e fugiriam da presença de
membros da mesma espécie. Se, *per impossibile*, existissem espécies de
criaturas constituídas dessa maneira, elas caminhariam imediatamente para a
extinção. É simplesmente impossível que existam criaturas com uma longa
história evolutiva constituídas da forma exigida pelo cenário imaginado. Indo
além: é impossível que haja desarmonia psicofísica em criaturas que são produto
de uma longa história evolutiva e que possuem um funcionamento neural
suficientemente sofisticado. Além disso, em uma variação do cenário previsto —
no qual as criaturas, devido a uma não harmonia psicofísica que não chega a ser
uma desarmonia psicofísica, carecem de motivação para fugir de predadores e
acasalar com membros da mesma espécie —, a espécie caminha de forma igualmente
imediata para a extinção. Visto que nossa espécie possui uma longa história
evolutiva, não é possível que estejamos sujeitos a uma não harmonia psicofísica
ou a uma desarmonia psicofísica.
Se adotarmos
a concepção de naturalismo que propus acima, então, puramente *a priori*, a
Pr(Harmonia/Naturalismo) é muito alta e, plausivelmente, significativamente
mais alta do que a Pr(Harmonia/Teísmo). Afinal, puramente *a priori*, não há
como dizer qual é a probabilidade de que um deus supremo crie criaturas nas
quais sejam necessárias ordenações divinas para assegurar a harmonia. Nossa
ignorância a respeito das possibilidades puramente *a priori* para a criação
divina é, certamente, muito profunda. Mas, dado esse fato, não é possível que,
puramente *a priori*, a Pr(Harmonia/Teísmo) seja muito alta.
Talvez se
possa objetar que, visto que incorporamos ao naturalismo a premissa de que
somos produtos de longas histórias evolutivas, deveríamos também incorporá-la
ao teísmo. Justo. Nesse caso, concluir-se-á que, puramente *a priori*, a
probabilidade de harmonia é praticamente a mesma tanto no teísmo quanto no
naturalismo. Isso não constitui uma vitória para o argumento teísta baseado na
harmonia psicofísica.
5. Conhecimento de Fundo
Como observei
anteriormente, Cutter e Crummett fazem referência à "compatibilidade com o
conhecimento de fundo" ao discutirem "a probabilidade *a priori* do
teísmo", mas não mencionam a "compatibilidade com o conhecimento de fundo"
ao discutirem "a verossimilhança do teísmo", "a probabilidade *a
priori* do ateísmo" e "a verossimilhança do ateísmo". Na seção
anterior, discuti o que acontece se supusermos que o fato de sermos produtos de
uma longa história evolutiva está incorporado à nossa definição de naturalismo.
Nesta seção, considero o que acontece se, em vez disso, supusermos simplesmente
que o fato de sermos produtos de uma longa história evolutiva está incorporado
ao nosso conhecimento de fundo.
Não é
obviamente implausível supor que o conhecimento que não favorece evidentemente
uma das duas hipóteses concorrentes — teísmo e naturalismo — deva ser
admissível como conhecimento de fundo. Em particular, por exemplo, o fato de
termos uma história evolutiva muito longa deveria ser admissível como
conhecimento de fundo. É verdade que existem algumas pessoas equivocadas que
supõem que a teoria evolutiva não é admissível como conhecimento de fundo
porque favorece o naturalismo em detrimento do teísmo. Mas Cutter e Crummett
aceitam que temos uma história evolutiva muito longa, e estão, no mínimo,
abertos à sugestão de que o conhecimento de fundo deve incluir os dados aos
quais se recorre em vários outros argumentos a favor e contra o teísmo.11
Mas, se
supusermos que o fato de termos uma história evolutiva muito longa faz parte do
nosso conhecimento de fundo, então Pr(Harmonia/Naturalismo & k) é muito
alta, simplesmente porque Pr(Harmonia/k) é muito alta. Cutter e Crummett
afirmam que:
"É
crucial para o [nosso] argumento que informações sobre correlações psicofísicas
não sejam tratadas como parte do nosso conhecimento de fundo."12
Mas, se
informações relevantes para as alegações sob avaliação não puderem ser tratadas
como parte do conhecimento de fundo, então não há razão para incluir o
conhecimento de fundo entre os itens que levamos em consideração. Talvez seja
razoável excluir informações sobre correlações psicofísicas — por exemplo, que
estes eventos neurais reais estão correlacionados com aqueles eventos
experienciais reais — porque isso realmente trivializaria a avaliação da
veracidade da harmonia. Mas parece — para mim, pelo menos — que não ocorre esse
tipo de trivialização simplesmente por termos incluído, em nosso conhecimento
de fundo, o fato de possuirmos uma longa história evolutiva.
6. Teoria da Identidade
Cutter e
Crummett discutem uma visão que denominam "funcionalismo de
identidade", segundo a qual, por exemplo, a dor é uma propriedade
funcional situada entre as possibilidades epistêmicas *a priori*¹³. No entanto,
como sugeri em seções anteriores, Cutter e Crummett não apresentaram nenhuma
razão clara pela qual o conhecimento de fundo não poderia descartar meras
possibilidades epistêmicas *a priori* que não sejam possibilidades metafísicas.
Assim como o conhecimento de fundo sobre a teoria da evolução nos dá boas
razões para descartar todas as "correlações" não harmoniosas e
desarmoniosas entre estados físicos e estados fenomenais, esse mesmo
conhecimento de fundo também nos fornece boas razões para descartar candidatos
— epistemicamente possíveis *a priori*, porém não harmoniosos ou desarmoniosos
— para a propriedade funcional que constitui a dor.
A meu ver,
Cutter e Crummett deveriam interessar-se particularmente por uma teoria da
identidade que estabeleça o seguinte:
"Os
estados dos seres humanos dividem-se em dois casos. Por um lado, existem
estados corporais que não são estados experienciais. Por outro, existem estados
corporais que são estados experienciais. Em cada caso deste último tipo, há um
estado único que é, simultaneamente, um estado corporal e um estado
experiencial. Assim, por exemplo, em qualquer ocasião específica em que sinto
dor, existe um estado corporal específico de estar com dor que é também o meu
estado fenomenal de estar com dor."
Decorre
simplesmente dessa teoria da identidade que não há possibilidade de falta de
harmonia ou de desarmonia — normativa ou de outra natureza — entre o estado
corporal e o estado fenomenal, pois não existe qualquer distinção entre o
estado corporal e o estado fenomenal. Naturalmente, essa teoria da identidade é
controversa, mesmo entre aqueles que se enquadram na minha caracterização de
naturalismo. Contudo, qualquer argumento contra o naturalismo que não leve essa
visão em consideração é, evidentemente, incompleto.
7. Algumas Considerações
Gerais
É difícil saber
que tipo de bayesianismo é defendido por Cutter e Crummett.
Uma ideia é
que os seres humanos são adequadamente modelados como agentes que realizam
condicionamentos probabilísticos (*conditionalizers*): eles partem de um estado
no qual atribuíram probabilidades epistêmicas puramente *a priori* a todas as
proposições e, então, mantêm-se probabilisticamente consistentes à medida que
realizam condicionamentos com base em novas evidências. É quase desnecessário
dizer que é totalmente fantasioso supor que essa descrição corresponda à
realidade dos seres humanos. Também é quase desnecessário dizer que não é muito
menos fantasioso supor que essa descrição seja, de alguma forma, normativa para
os seres humanos. Pode ser que possamos considerar as probabilidades epistêmicas
puramente *a priori* como uma representação idealizada de um certo tipo de
ignorância. Suponha que você possua competência lógica ideal, mas nenhum dado.
Embora possamos discutir mais a fundo o que exatamente deve ser considerado
competência lógica ideal, poderíamos modelá-la, de forma muito aproximada, como
uma conjunção de — digamos — conhecimento perfeito de instâncias de teoremas do
cálculo de predicados modal e de verdades analíticas, e ignorância perfeita de
todo o resto. No entanto, não devemos considerar essa representação de
ignorância "inicial" como algo que descreve, ou que estabelece normas
para, algum tipo de estado cognitivo humano "inicial".
Uma ideia
bastante diferente é modelar adultos humanos em pleno funcionamento como
agentes que realizam condicionamentos probabilísticos, possuindo crenças
probabilísticas que atualizam — da melhor maneira possível — por meio do
condicionamento com base em novas evidências. Novamente, podemos questionar em
que medida isso é descritivamente preciso ou normativamente apropriado; talvez
possamos considerar que não é totalmente fantasioso supor que essa descrição
seja precisa e/ou normativa para seres humanos adultos. Contudo, é importante
notar que, nessa perspectiva, é um equívoco supor que as probabilidades *a
priori* sejam probabilidades epistêmicas puramente *a priori*. Nessa abordagem,
as probabilidades *a priori* podem muito bem fundamentar-se em um envolvimento
prévio e significativo com evidências relevantes.
Uma terceira
ideia — com a qual simpatizo um pouco mais — é que utilizamos técnicas e
métodos bayesianos em domínios nos quais temos boas razões para sustentar que o
acúmulo de evidências conduz a um consenso global entre especialistas.
Indivíduos humanos não agem como bayesianos em seu cotidiano; mas os cientistas
— pelo menos coletivamente — agem como bayesianos no decorrer de suas
atividades científicas. Naturalmente, essa linha de raciocínio é altamente
controversa; No entanto, isso deveria, no mínimo, estar em pauta em qualquer
discussão séria sobre o bayesianismo. Talvez valha a pena acrescentar — à luz
do entusiasmo recente pelo processamento preditivo — que é possível que os
cérebros humanos sejam bayesianos, ainda que os seres humanos racionais e
conscientes não o sejam.
Parece-me que,
na medida em que são realmente bayesianos, Cutter e Crummett precisam ater-se à
primeira linha de raciocínio ao elaborar seu argumento da harmonia psicofísica.
Pois, se adotarmos a segunda abordagem, fica bastante claro que não há
obstáculo à suposição de que Pr(harmonia/identidade) seja muito alta, nem
qualquer razão para supor que considerações puramente *a priori* sobre leis
psicofísicas harmoniosas, inarmoniosas e desarmoniosas constituam algum tipo de
desafio a essa suposição; e, se adotarmos a terceira abordagem, então Cutter e
Crummett estão tentando utilizar um argumento bayesiano em circunstâncias nas
quais há boas razões para pensar que não deveríamos estar recorrendo a
argumentos bayesianos.
Pode haver
uma questão legítima sobre até que ponto Cutter e Crummett são realmente
bayesianos. Pois, paralelamente à sua linguagem bayesiana sobre probabilidades
*a priori* e verossimilhanças, Cutter e Crummett também fazem afirmações sobre
"fatos que clamam por explicação", ou sobre ser uma questão de
"sorte", ou de "acasos fortuitos", e coisas do gênero. Além
disso, eles claramente supõem que a mera "concebibilidade" de leis
psicofísicas inarmoniosas ou desarmoniosas gera a necessidade de uma explicação
direta para o fato da harmonia psicofísica. Existem bayesianos teístas
convictos que se opuseram a essas afirmações gerais.14 E — como argumentei
acima — a afirmação específica não é plausível. Uma vez que constatamos que a
teoria evolutiva é incompatível com a inarmonia e a desarmonia, e aceitamos,
com base em fundamentos independentes, que a teoria evolutiva está correta, não
precisamos de nenhuma explicação adicional para o fato da harmonia psicofísica.
Ele não "clama por explicação adicional"; não é nem uma questão de
"sorte" nem de "acaso".
Talvez Cutter
e Crummett insistam que, a menos que se comprometam com Deus e com a
promulgação divina de leis psicofísicas, os cientistas devam renunciar ao seu
compromisso com a veracidade da teoria evolutiva. Isso é absurdo. A teoria
evolutiva está tão bem estabelecida quanto qualquer teoria sustentada por seres
humanos. O fato de parecer a Cutter e Crummett que eles podem conceber — de
modo puramente *a priori* — leis psicofísicas inarmônicas ou desarmônicas não constitui
um contra-argumento sequer remotamente plausível contra a teoria evolutiva ou,
em particular, contra a afirmação de que os seres humanos possuem uma história
evolutiva muito longa.
Uma última
consideração é que existem abordagens alternativas para a escolha de teorias —
talvez de natureza bayesiana — nas quais o argumento de Cutter e Crummett
parece evidentemente insatisfatório. Suponhamos que, ao escolhermos entre
teorias, devamos considerar o equilíbrio entre minimizar compromissos —
codificados nas probabilidades *a priori* — e maximizar o ajuste aos dados —
codificados nas verossimilhanças — para as melhores versões
"completas" dessas teorias. As melhores teorias naturalistas estão
comprometidas com a teoria evolutiva; por isso, elas se ajustam aos dados sobre
a harmonia psicofísica. Se Cutter e Crummett estiverem certos, as melhores
teorias teístas postulam a promulgação divina de leis psicofísicas para se
ajustarem aos dados sobre a harmonia psicofísica, mesmo que, além disso, essas
teorias estejam comprometidas com a teoria evolutiva. Mantidas constantes as
demais condições, é óbvio que a teoria teísta acarreta mais compromissos e não
apresenta um ajuste melhor aos dados relevantes. Em vez de ser um argumento a
favor do teísmo, parece que os dados sobre a harmonia psicofísica constituem,
na verdade, um argumento a favor do naturalismo. Naturalmente, os teístas podem
corrigir isso abandonando a postulação da promulgação divina de leis
psicofísicas. O ponto aqui levantado é contra Cutter e Crummett, não contra o
teísmo em geral.
Notas
1 Cutter e
Crummett, “Psychophysical Harmony”, 45.
2 Cutter e
Crummett, “Psychophysical Harmony”, 22.
3 Cutter e
Crummett, “Psychophysical Harmony”, 2.
4 Cutter e
Crummett, “Psychophysical Harmony”, 1. Para outras discussões anteriores sobre
harmonia psicofísica, veja Mørch, “Evolutionary Argument”; Pautz,
“Consciousness and Coincidence”; e Saad, “Harmony”.
5 Cutter e
Crummett, “Psychophysical Harmony”, 17–18.
6 Cutter e
Crummett, “Psychophysical Harmony”, 17–18.
7 Cutter e
Crummett, “Psychophysical Harmony”, 2.
8 Cutter e
Crummett, “Psychophysical Harmony”, 33.
9 Cutter e
Crummett, “Psychophysical Harmony”, 22.
10 Cutter e
Crummett, “Psychophysical Harmony”, 7.
11 Cutter e
Crummett, “Psychophysical Harmony”, 24.
12 Cutter e
Crummett, “Psychophysical Harmony”, 33.
13 Cutter e
Crummett, “Psychophysical Harmony”, 33.
14 Veja, por
exemplo, Hawthorne e Isaacs, “Fine-Tuning”.
Referências
bibliográficas
Cutter,
Brian, and Dustin Crummett. “Psychophysical Harmony: A New Argument for
Theism.” Oxford Studies in Philosophy of Religion (forthcoming). https://doi.
org/10.1093/9780198954712.003.0002.
Hawthorne,
John, and Yoaav Isaacs. “Fine-Tuning Fine-Tuning.” In Knowledge, Belief, and
God: New Insights in Religious Epistemology, edited by Matthew A. Benton, John
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Mørch, Hedda
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Pautz, Adam.
“Consciousness and Coincidence: The Puzzle of Psychophysical Harmony.” Journal
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Saad,
Bradford. “Harmony in a Panpsychist World.” Synthese 200, no. 6 (2022): 1–24.
https://doi.org/10.1007/s11229-022-03974-7.

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