Tradução: David Ribeiro

Devo me converter ao catolicismo por causa de todos os milagres?

Meu amigo Joe Schmid se converteu ao catolicismo. O mesmo aconteceu com muitos outros amigos meus. Rendidos pela força irresistível dos argumentos de Ethan Muse, meus amigos mais brilhantes estão se convertendo aos montes diante do avanço constante dos relatos de milagres. E, no entanto, eu não me converti e, até agora, não tenho planos de fazê-lo. Então, por que tantas pessoas estão se convertendo? E por que eu não?

A principal razão para tantas conversões são todos esses milagres católicos. Você pode conferir o Substack de Ethan para saber mais sobre eles; de fato, o catolicismo parece apresentar alguns milagres aparentes bastante impressionantes. São Padre Pio ostentou estigmas por décadas — que cicatrizaram completamente após sua morte —, protagonizou diversas curas aparentemente milagrosas e registrou temperaturas corporalmente inexplicáveis ​​que ultrapassavam 49°C (120°F).

Em Lourdes, depois que uma jovem chamada Bernadette teve uma visão de Maria — na qual ela declarou: "Eu sou a Imaculada Conceição" —, houve uma série de curas aparentemente inexplicáveis ​​pela medicina. E há muitos outros exemplos: milagres eucarísticos, Fátima, etc. Sou muito mais cético em relação a Fátima e não possuo, de forma alguma, a expertise necessária para investigar milagres eucarísticos, mas admito: acho alguns dos milagres católicos inquietantes, especialmente os de Lourdes e os de Padre Pio.

Então, por que não planejo me converter? Não vou me perder nos detalhes minuciosos de todos os argumentos (principalmente porque grande parte das questões históricas depende de evidências de ordem superior e está além da minha capacidade de análise). Vou apenas descrever, em linhas gerais, como estou encarando essa questão.

Argumentos contra o Catolicismo

O primeiro grande motivo: considero muito forte a argumentação contra o catolicismo. Os três pontos que mais me deixam reticente são o inferno, a ética normativa e a inerrância bíblica.

Quanto ao inferno, os católicos sustentam a doutrina do tormento eterno e consciente. Considero essa visão extremamente implausível — talvez uma das mais implausíveis que existem. Não acho nem um pouco plausível que o melhor mundo que Deus poderia conceber seja aquele em que Ele condena multidões às chamas — onde "o verme não morre" e o fogo do inferno as faz sofrer para sempre.

É verdade que talvez exista uma maneira de evitar a ideia de que as pessoas sofrem infinitamente no inferno. Talvez o sofrimento diminua de intensidade, de modo que a quantidade total seja finita. Mas, mesmo deixando de lado a questão do sofrimento infinito, é muito implausível que esse seja o estado final das pessoas — que Deus não consiga imaginar uma alternativa melhor.

No que diz respeito à ética normativa, os católicos defendem uma espécie de absolutismo quanto à imoralidade de certas categorias de atos. Esses ensinamentos são obrigatórios, embora não sejam infalíveis. Exemplos incluem a masturbação, a fornicação, a homossexualidade e o ato de matar direta e voluntariamente um ser humano inocente (este último, provavelmente, é um ensinamento infalível). Isso exigiria que eu acreditasse em quatro coisas distintas que considero muito implausíveis:

1. Deontologia, pelo menos no sentido mínimo de considerar que certos atos são inadmissíveis, mesmo que tenham boas consequências.

2. A falsidade de várias visões liberais da ética sexual.

3. Absolutismo quanto às proibições morais.

4. Absolutismo inclusive quanto às proibições da ética sexual.

Rejeitar a opção 2 teria um custo, mas não intransponível. Rejeitar a 1 também seria custoso. Acontece que acho a deontologia muito implausível. Ela sofre com vários contraexemplos fatais. Mas é nos pontos 3 e 4 que a situação se complica de verdade. Argumentos baseados em riscos destroem o absolutismo da deontologia. E, se há algo óbvio, é que, se a única maneira de impedir que todas as pessoas da Terra fossem torturadas para sempre fosse um casal gay amoroso manter relações sexuais homossexuais, então não seria errado que eles o fizessem. Não consigo acreditar — numa perspectiva puramente psicológica — que tal coisa seja falsa. É completamente absurdo. Estamos chegando a níveis de implausibilidade comparáveis ​​aos de cenários céticos.

Talvez existam maneiras de evitar ter de afirmar essas coisas sendo católico, recorrendo a algum tipo de acrobacia interpretativa. Mas, no mínimo, acho que você terá de pagar um preço.

Eu sei que os católicos têm argumentos sobre por que não devo confiar em minhas intuições morais. Nossos corações estão obscurecidos pelo pecado e, portanto, não conseguimos ver com clareza. Mas convenhamos: algumas visões são tão implausíveis que, mesmo que se consiga contar uma história sobre como poderíamos estar enganados a respeito delas, não pode ser racional afirmá-las. Se você me disser que a lei da não-contradição é falsa — mesmo que apresente uma explicação para desbancá-la —, eu tenho muito mais confiança na lei da não-contradição do que na sua explicação. E acho muito mais óbvio que usar contraceptivos para evitar uma tortura infinita seria permissível do que considero a própria lei da não-contradição. Simplesmente não pode ser errado.

Por fim, a última consideração: os católicos estão comprometidos com algum tipo de inerrância bíblica. Ora, os detalhes exatos são discutíveis. A *Dei Verbum* afirma, numa passagem que, em geral, é considerada isenta de erros:

“Ao compor os livros sagrados, Deus escolheu homens e, enquanto estes agiam sob a ação d'Ele (2), valeram-se de suas faculdades e capacidades, de modo que, com Ele agindo neles e por meio deles (3), eles — como verdadeiros autores — registraram por escrito tudo aquilo, e apenas aquilo, que Ele queria. (4)

Portanto, visto que tudo o que os autores inspirados ou escritores sagrados afirmam deve ser considerado como afirmado pelo Espírito Santo, segue-se que os livros da Escritura devem ser reconhecidos como aqueles que ensinam, de modo firme, fiel e sem erro, a verdade que Deus quis que fosse consignada nos escritos sagrados (5) para a salvação. Por isso, “toda a Escritura é divinamente inspirada e útil para ensinar a verdade e refutar o erro, para a correção dos costumes e a disciplina na vida reta, a fim de que o homem de Deus seja eficiente e esteja preparado para toda boa obra”” (2 Tm 3,16-17, texto grego).

Acredito que a Bíblia esteja repleta de erros sobre moralidade, história, genealogia, autoria e muito mais. Não acho plausível que o Espírito Santo afirmasse uma mentira sobre o autor de Daniel, por exemplo, ou fizesse uma afirmação moral bárbara. Embora um ou dois erros aparentes pudessem talvez ser explicados, eles são numerosos e graves demais para que o catolicismo continue sendo plausível.

Essas são as três considerações que mais me impactam. Mas há também outras questões. Por exemplo, tenho quase certeza de que Jesus não declarou Pedro como Papa. Seria estranho se esse fosse um dos atos mais importantes de sua vida, mas aparecesse mencionado apenas em uma passagem altamente ambígua de Mateus. Além disso, o fato de Pedro ser o Papa não surge em nenhum outro momento dos Evangelhos, nem mesmo durante grandes disputas teológicas. Também tenho a impressão — sem ter examinado a fundo as evidências históricas — de que não existem boas provas da existência dos primeiros Papas; isso é reconhecido até mesmo por historiadores católicos como Eamon Duffy. Acredito que esse também seja um consenso entre historiadores seculares que não têm interesse direto na questão.

Da mesma forma, tenho a impressão — sem ter investigado muito a fundo — de que a Igreja mudou de posição em algumas questões importantes, como a possibilidade de salvação fora da Igreja. A bula *Unam Sanctam* afirma: "Além disso, declaramos, proclamamos e definimos que é absolutamente necessário para a salvação que toda criatura humana esteja sujeita ao Pontífice Romano". É verdade que há um debate complexo sobre isso e posso estar enganado, mas, à primeira vista, parece realmente que houve uma mudança de posição. No entanto, preciso ler mais a respeito.

Da mesma forma, os dogmas marianos parecem ter sido inventados posteriormente. Não temos evidências antigas que os sustentem. A primeira sugestão de que Maria foi sempre virgem aparece em um texto apócrifo do século II chamado *Protoevangelho de Tiago*, no qual o autor mentia ao afirmar ser Tiago. E, se Maria foi sempre virgem, é estranho que a Bíblia se refira aos irmãos de Jesus sem dar qualquer indício de que não eram irmãos biológicos. A palavra usada para irmão é *adelphoi*; ela pode, ocasionalmente, referir-se a parentes mais distantes ou a meio-irmãos. Mas seria muito estranho se o Novo Testamento continuasse falando sobre os meio-irmãos de Jesus, usando a palavra padrão para "irmão", sem nunca fazer um esclarecimento. A palavra *syngenes* era um termo perfeitamente adequado para designar parentes. Mateus 1:25 diz que José "não teve relações conjugais com ela até que ela desse à luz um filho", o que sugere que eles tiveram relações conjugais posteriormente. E várias outras passagens apontam para uma direção semelhante. A doutrina da Assunção corporal de Maria, à qual os católicos estão dogmaticamente vinculados, surgiu ainda mais tarde!

Não quero sugerir que isso seja decisivo por si só. Mas realmente parece que muitas doutrinas católicas foram inventadas posteriormente, sem evidências históricas externas. Combine isso com dúvidas sobre a simplicidade divina, preocupaçõesgerais em relação ao cristianismo e outras doutrinas católicas estranhas, como a transubstanciação e a regeneração batismal, e torna-se muito difícil para mim acreditar no catolicismo. Os argumentos contrários me parecem muito sólidos.

Pior ainda: o conjunto de argumentos contrários é cumulativo. Há muitos tipos diferentes de considerações. Se os únicos argumentos contrários fossem de natureza normativa, eu poderia suspeitar que minhas intuições morais são falhas. Mas, quando eles também são bíblicos, teológicos e históricos — e quando dependem de muitos tipos diferentes de intuições —, simplesmente parece difícil acreditar.

Milagres?

Em contrapartida, existe apenas um argumento a favor do Catolicismo que realmente me sensibiliza: o argumento dos milagres. Ora, os milagres são, de certa forma, independentes entre si; há muitos tipos diferentes de milagres católicos. Mas, se uma investigação rigorosa pode revelar um milagre aparentemente inexplicável, é provável que também possa revelar vários outros. Se ficar comprovado que existe uma explicação natural para todas as curas de Lourdes, provavelmente haverá uma explicação natural para os milagres eucarísticos também. Alguns desses milagres me impressionam, mas, se eu estiver enganado quanto ao caráter impressionante do primeiro, é provável que também esteja enganado quanto aos demais!

Talvez eu seja um tanto ingênuo quando o assunto são milagres — subestimando o poder da credulidade humana. Eis algumas coisas que, embora eu tenha quase certeza de que não são inexplicáveis ​​por meios naturais, me surpreenderam ao conhecê-las:

1. Muitas pessoas acreditaram que bruxas haviam roubado seus pênis. Como é possível alguém se enganar sobre algo desse tipo?

2. Temos inúmeros relatos sobre um notório charlatão chamado Sathya Sai Baba, que realizava feitos inexplicáveis ​​por meios naturais em plena luz do dia. As pessoas afirmam que ele se teletransportava, lia mentes, materializava comida magicamente, realizava a bilocação e exalava um odor misterioso perceptível a longa distância — inclusive por céticos —, tal como o Padre Pio. E esses não são os únicos milagres impressionantes atribuídos a Sai Baba!

3. Por todo o Irã, muitas pessoas disseram ter visto o rosto de Khomeini na Lua.

4. Muitas crianças entram em transes profundos nos quais afirmam ver Maria, movem-se em sincronia, não piscam por longos minutos e deixam de reagir à dor — mesmo em casos em que a situação é claramente não milagrosa.

5. Crianças relataram ter visto grupos de alienígenas descendo do céu. Elas não voltaram atrás em suas afirmações (as crianças, não os alienígenas; embora eu suponha que os alienígenas também não tenham voltado atrás). Da mesma forma, temos relatos de grupos que afirmam ter visto fadas.

6. O povo Pirahã afirma ver espíritos em plena luz do dia — espíritos que pessoas de fora não conseguem enxergar. Em um caso, um visitante da tribo viu um esqueleto dançando.

7. Há inúmeros relatos de pessoas que olharam para o Sol e o viram girar, mover-se e mudar de cor, além de constatarem que não era doloroso contemplá-lo.

8. Temos relatos de curas sobrenaturais associadas a um curandeiro protestante que faz falsas profecias e tem visões ligadas à teologia do Arrebatamento, o que levou a muitas conversões. Mais detalhes em uma nota de rodapé.2

9. Temos relatos de memórias de vidas passadas aparentemente inexplicáveis ​​por meios naturais. Algumas dessas memórias conduziram pessoas ao Cristianismo; portanto, não é plausível atribuí-las a demônios enganadores, mesmo sob a ótica do Catolicismo.

10. Um enorme pelotão de fuzilamento tentou executar o Báb, figura fundadora da Fé Bahá'í, mas todos erraram o alvo.

Diante disso, há algumas possibilidades diferentes:

1. Milagres não acontecem de fato; somos muito bons em enganar a nós mesmos e, assim, pensamos erroneamente que ocorreram vários milagres que, na verdade, não aconteceram.

2. Milagres acontecem, mas Deus não se importa muito com denominações e está até disposto a realizar milagres que levam muitas pessoas a religiões falsas. Talvez ele não se preocupe muito com o fato de que, digamos, curar pessoas em Lourdes tenha levado gente ao Catolicismo.

3. Milagres acontecem, mas apenas aqueles com implicações de validação divina são Católicos.

4. Milagres acontecem, mas Deus os concede aos cristãos de forma bastante indiscriminada. Assim, por exemplo, ele não se importa em permitir que católicos presenciem grandes milagres que convertem pessoas ao cristianismo, da mesma forma que não se importa em fazer com que aparições de Maria ocorram principalmente sobre igrejas coptas, em vez de igrejas católicas.

Não considero que o registro de milagres favoreça conclusivamente um caso em detrimento de outro. Se posso estar enganado ao achar que as pessoas não acreditariam que bruxas roubaram seus pênis, ou que viram o rosto de Khomeini na lua, ou que viram um homem se teletransportar e ler mentes, ou que viram um espírito voando no céu, e assim por diante, por que pensar que não posso estar enganado sobre os milagres católicos? A diferença, em muitos casos, parece-me ser apenas de grau, e não de natureza. Não acho que os milagres atribuídos ao Padre Pio sejam, à primeira vista, muito mais impressionantes do que aqueles atribuídos a Sai Baba — mas temos vídeos de Sai Baba, e fica bem claro que ele está apenas fazendo truques de ilusionismo. Tampouco considero os milagres do Padre Pio muito mais obviamente confirmatórios da fé do que, digamos, milagres relacionados à reencarnação.

Além disso, os milagres católicos mais impressionantes não parecem servir claramente como prova de validação da fé. As curas em Lourdes e os milagres do Padre Pio são os mais impressionantes, mas não está claro se eles validam distintamente o catolicismo. Fátima e os milagres eucarísticos são os que mais claramente servem como validação, mas é muito duvidoso que sejam realmente milagrosos (tenho quase certeza de que Fátima não é, e não tenho conhecimento científico suficiente para avaliar os milagres eucarísticos).

Então, em linhas gerais, a situação é esta: deixando de lado os milagres, não acho nem um pouco impressionante o argumento em favor do Catolicismo. As evidências sobre milagres são razoáveis, mas não muito melhores do que as evidências de vários outros milagres que não se encaixam bem na doutrina católica. Se os católicos descartam esses outros milagres como não autênticos, então os deles também correm o risco de serem descartados da mesma forma. Se os católicos admitem que esses outros milagres são genuínos, então provavelmente os milagres católicos também podem ser explicados por meios naturais. E alguns aparentes milagres bem documentados simplesmente não parecem nem um pouco plausíveis, como aqueles associados a Sai Baba.

Acho que sou muito bom em filosofia. Mas sou comprovadamente péssimo em investigar milagres. Errei repetidamente ao prever quais fenômenos bizarros as pessoas atestariam como verdadeiros. Portanto, quando há um conflito entre julgamentos filosóficos muito claros e alegações controversas de milagres — difíceis de investigar e somadas a outras evidências históricas de ordem superior —, eu opto pelos julgamentos filosóficos.

O Último Argumento

E quanto às outras evidências a favor do catolicismo?

Obviamente, não posso discutir tudo. Não tenho preparo para comentar a maior parte disso. Grande parte das evidências para o catolicismo passa, primeiramente, por defender a veracidade do cristianismo e, em seguida, por apresentar argumentos complexos sobre por que, uma vez aceito o cristianismo, deve-se ser católico. Existem disputas intrincadas sobre se o cânone católico de 73 livros é historicamente mais plausível do que o cânone protestante de 66 livros.

Não falarei sobre a maioria dessas questões. Simplesmente não tenho conhecimento suficiente sobre a história relevante para essas disputas internas complexas. Eu sequer aceito a tese do cristianismo; portanto, esses tipos de argumento não me convencem muito. Em vez disso, discutirei apenas um argumento principal que vejo como capaz de levar alguém a aderir ao catolicismo, e explicarei por que ele não me convence.

O argumento básico é o seguinte: faz sentido que Deus estabeleça uma Igreja na Terra. Tratar-se-ia de uma instituição visível e específica destinada a resolver disputas. Se Deus se importa profundamente em permitir que as pessoas conheçam a verdade, faz sentido que Ele institua um órgão de autoridade com poder para liderar e promulgar ensinamentos de forma infalível. Em outras religiões, não existe propriamente um equivalente plausível.

Para os protestantes, não há um equivalente plausível. Não existe um mecanismo claro para que os protestantes resolvam disputas sobre as Escrituras. Se um protestante está equivocado, além de tentar convencê-lo de seu erro — o que é difícil, visto que as evidências bíblicas são frequentemente insuficientes para definir questões importantes —, não há uma maneira clara de resolver a divergência.

E quanto aos outros grupos que afirmam ser a única Igreja verdadeira? Bem, a maioria deles tem cerca de doze membros. Enquanto a Igreja Católica tem uma pretensão legítima de ser católica (universal), as Igrejas Ortodoxas Orientais e a Igreja Assíria do Oriente não o fazem. Mesmo as Igrejas Ortodoxas do Oriente são etnicamente restritas e fragmentadas demais para realizar concílios ou fazer pronunciamentos com autoridade.

Não acho que esse argumento seja absurdo. Mas ele não me convence muito.

É verdade que, *a priori*, não é nada improvável que Deus estabeleça uma instituição na Terra. Mas devemos considerar o conjunto das evidências. É bastante surpreendente que Deus estabelecesse uma instituição terrena de maneira um tanto indireta e pouco clara, de modo que multidões de pessoas, tentando desesperadamente identificar a Igreja fundada por Cristo, sejam levadas ao erro — mesmo após examinarem cuidadosamente as evidências históricas.

É igualmente surpreendente que a forma como Ele estabeleceu a Igreja tenha sido por meio de uma declaração ambígua em apenas um dos Evangelhos. E que houvesse tão poucas evidências históricas claras sobre a criação da Igreja, a ponto de ser, no mínimo, discutível se tal instituição existiu de fato nos primórdios do cristianismo.

É igualmente surpreendente que se trate de uma instituição que só esclareceu sua capacidade de falar de forma infalível em 1870! Que doutrinas importantes tenham permanecido sem definição por longos períodos; que o cânone bíblico só tenha sido definido no século XVI; e que os dogmas marianos só tenham sido declarados definitivamente após quase dois mil anos. Que nem sequer fique claro quando ela está falando de forma infalível, gerando disputas entre teólogos católicos renomados sobre quais doutrinas são, de fato, infalíveis.

Repito: *a priori*, não me choca o fato de Deus estabelecer algum tipo de instituição na Terra. No entanto, ao considerar o conjunto de fatos sobre a Igreja Católica — a conduta escandalosa de vários papas, a tardia definição de suas doutrinas, sua origem histórica incerta —, torna-se muito menos plausível, *a priori*, que Deus estabelecesse esse tipo de instituição.

Além disso, o simples fato de ser algo bom se Deus estabelecesse uma instituição de determinado tipo não significa que seja provável que Ele o faça. Há muitas coisas que poderiam ser feitas e que parecem boas, mas que Deus não realiza. À primeira vista, seria bom curar a malária; se Jesus não trouxe a cura para a malária — nem realizou inúmeras outras ações benéficas —, por que imaginar que Ele estabeleceria o papado, a menos que houvesse uma probabilidade significativa para tal?

Sabemos que Deus, se existe, concede aos seres humanos ampla liberdade para cometer erros graves. Ele até deu àqueles que escreveram os livros da Bíblia a liberdade de incluir passagens sobre como é glorioso despedaçar bebês babilônios contra as rochas. Assim, não é de surpreender que também sejamos capazes de cometer erros teológicos graves na ausência de uma instituição que ofereça uma correção definitiva.

Conclusão

Essas são questões importantes. Se o catolicismo for verdadeiro, então os não católicos correm um perigo terrível de enfrentar as chamas do tormento eterno. Vale a pena examinar essa questão com atenção. Mas, no fim das contas, considero psicologicamente impossível acreditar nisso; acredito que só deveria me converter se realmente estivesse convencido de sua veracidade, em vez de simplesmente fazer uma aposta. Contudo, se você é teísta — ou mesmo se considera o teísmo minimamente plausível —, vale a pena orar regularmente a Deus para que Ele o guie a fazer o que é bom e a conhecer a verdade.

 

Notas

1 Isso vem do capítulo de Caleb Jackson.

2 De uma fonte sobre Maria Woodworth-Etter:

"Em seus vários livros e nas reportagens da época, há abundantes testemunhos de pessoas com deficiência física correndo, cânceres desaparecendo, órgãos deteriorados sendo restaurados, surdos ouvindo e doentes mentais se recuperando.

‘Uma irmã havia sofrido um acidente cinco anos antes. A musculatura de seu quadril havia atrofiado e, por três anos, ela não saía da cama. Vi que ela estava em condições terríveis, mas sabia que não há nada difícil demais para o Senhor. Disse-lhe para depositar sua confiança n’Ele; então orei, e ela se levantou, perfeitamente curada de todas as suas enfermidades, e saiu pela casa gritando de alegria.’"

Outro relato:

"Ao comentar esses transes, em 1885, um repórter do jornal *Cincinnati Enquirer* escreveu:

Procurei apresentar um relato verdadeiro e imparcial do notável avivamento religioso na Igreja Metodista Episcopal desta cidade; sinto-me impressionado com a magnitude do acontecimento — agora mais do que nunca — e estou convencido de que descrever com precisão as cenas ocorridas em cada reunião está além da capacidade da língua ou da pena. Dezenas de pessoas caíam ao chão nessas reuniões e, qualquer que fosse a posição assumida por seus membros ou corpo, ali permaneciam imóveis como estátuas — às vezes com a mão erguida bem acima da cabeça, os olhos bem abertos e sem que um único músculo do corpo se movesse; estavam imóveis como na morte. 18

...

Woodworth orava pelos enfermos em suas reuniões. Relato após relato chegava, testemunhando curas divinas. Em 1914, o Dr. John Bowen compareceu a uma das reuniões de Woodworth. Dois anos antes, ele havia sido arremessado de uma charrete e sofrido ferimentos graves. Tais lesões incluíam fratura no crânio, fratura na fíbula direita e lesões internas. Com o tempo, seu estado piorou: o coração dilatou e a pele tornou-se azulada devido a problemas de circulação. Sendo médico, ele sabia que não viveria muito tempo. Outros médicos confirmaram esse prognóstico. Na reunião de avivamento, Woodworth orou por ele, e ele foi curado instantaneamente. Dois anos depois, ele escreveu que continuava curado e que havia visto outras pessoas serem curadas de enfermidades..." ... como tuberculose, pelagra, doença de Bright, câncer, paralisia, cegueira e problemas nas válvulas cardíacas. Ela continuou a acompanhar a situação dessas pessoas e constatou que, após dois anos, elas permaneciam curadas.

O *Topeka Daily Capital* afirmou que ela:

… é, sem dúvida, uma mulher cristã muito sincera e altruísta, que dedica sua vida a conduzir homens e mulheres à fé em Cristo. Ela não reivindica para si nenhum poder incomum. Seus discursos são simples, contundentes e fervorosos, tocando o coração das pessoas comuns. Ela afirma que o "poder" — que levava vários convertidos a sofrer convulsões ou entrar em transe — é a manifestação do Espírito divino.50

Outra pessoa da imprensa a elogiar Woodworth foi C. E. Kalb. Ele escreveu:

“Gostaria de dizer algumas palavras sobre o trabalho da Sra. Woodworth. Quando ela realizou suas reuniões em Springfield, Illinois, eu era editor de cidade do *Daily Monitor*. Fui às reuniões dela e, embora eu não fosse um cristão — apenas um membro de igreja —, senti que ela estava pregando o verdadeiro Evangelho... As pessoas ali entravam em transe e muitas gritavam. Eu as via entrando em transe mais rápido do que conseguia contar, em todas as partes da plateia. Isso foi há três anos; nenhuma delas enlouqueceu; pelo contrário, tornaram-se pessoas inteligentes, sóbrias e trabalhadoras, e continuam cheias do Espírito Santo.51

 

Com muitas pessoas vindo a Cristo e sendo cheias do Espírito Santo, surgiu a necessidade de batizar esses convertidos. Em uma ocasião, em agosto de 1891, noventa e um membros da igreja de Woodworth — a Igreja de Deus — foram batizados por imersão no rio Kansas. Essa cena foi acompanhada por uma multidão de cerca de cinco mil pessoas.52

Os convertidos continuaram a ser batizados, e a Sra. Woodworth prosseguiu viajando de cidade em cidade com sua tenda. Em 1894, o *Columbus Gazette* relatou: "Pessoas aflitas com todo tipo de doença vêm na esperança de obter alívio, e muitas partem declarando-se curadas". Cânceres, tumores, casos graves de reumatismo, doença de Bright, problemas cardíacos — enfim, tudo o que se possa incluir na lista de males que afligem a humanidade — foram levados a essa mulher maravilhosa; ela afirma, e os pacientes asseguram, que eles foram completamente curados.53 Uma mulher desesperada, diagnosticada com câncer — a quem quinze médicos haviam desenganado e que não conseguia comer nem se sentar —, compareceu a uma reunião. Ela foi curada e, mais tarde, viu-se capaz de comer com apetite e de ir a pé às reuniões.”54

Ela fez uma profecia que não se concretizou em 1890, segundo a qual “São Francisco seria destruída por um terremoto e um maremoto em 1890, fazendo com que cerca de 1.000 pessoas fugissem da cidade”. Sua pregação começou quando ela teve uma visão que a comissionava a pregar. Ela também teve, repetidamente, revelações que confirmavam doutrinas distintivas do pentecostalismo. Em seu livro *A Diary of Signs and Wonders* (Um Diário de Sinais e Maravilhas), ela escreve:

“O querido Salvador esteve ao meu lado certa noite, em uma visão, e falou comigo face a face.” “Apareceu na parede uma grande Bíblia aberta, e os versículos se destacavam em letras em relevo... Olhei e pude compreender tudo.” “Vá, e eu estarei com você” — resposta dada a cada desculpa apresentada. Sua conclusão: “Vi naquela visão mais do que poderia ter aprendido em anos de estudo árduo” — uma revelação que explicitamente se sobrepõe à formação e à educação. Sua defesa do ministério feminino baseada em Joel 2 aparece na página 31 (“sobre os meus servos e as minhas servas, naqueles dias, derramarei o meu Espírito”). Curiosamente, ela também relata o aspecto da advertência: quando resistiu, “as palavras pareciam vir até mim: ‘Você me nega diante dos homens, e eu a negarei diante de meu Pai e dos santos anjos’” (p. 30) — assim, a revelação não apenas permite sua pregação, mas torna a recusa algo passível de condenação.

E:

“O Senhor derramou o Espírito Santo como prometeu... Ele disse que daria as chuvas tardias do Espírito antes que chegasse o grande dia do Senhor”, e “Ele me mostrou que estamos nos últimos dias”.

E:

“O Senhor me mostrou que a Visão diz respeito à Breve Vinda de Cristo... Ele me mostrou que me selaria com — e me revelaria — o seu glorioso plano dos séculos; o desfecho desta Colheita; o chamado e a preparação da Noiva; a Breve Vinda de Cristo, o Noivo; que a Porta dos Gentios logo se fechará; o grande tempo de tribulação que se seguirá ao Arrebatamento ou à Ascensão da Noiva”

E:

“o glorioso Reino Milenar, que durará mil anos”.

E:

“Muitos estavam sob convicção [de pecado], mas confiavam no batismo nas águas, na confirmação ou na membresia da igreja; mas, a menos que portem a luz de Deus, são piores do que um pecador declarado.”



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