Autor: Joe Schmid
Tradução: Cezar Souza

Erro nº 1: Ambiguidade

Um erro comum é ignorar completamente que a “inércia existencial” é ambígua. Em particular, é ambígua entre (i) a tese da inércia existencial, que é uma tese que se propõe a descrever o modo como a realidade é e (ii) o fenômeno da inércia existencial, que é a maneira pela qual as coisas persistem de acordo com a Tese de Inércia Existencial (EIT). A tese é apenas a afirmação de que alguns objetos concretos temporais persistem na ausência tanto de sustentação/conservação externa quanto de fatores suficientemente destrutivos. O fenômeno é a persistência real de um ou mais objetos concretos temporais sem sustentação externa e destruição. Para me referir à tese, normalmente usarei ‘EIT’. Para me referir ao fenômeno, normalmente usarei ‘persistência inercial’.

Erro nº 2: Explicação

Outro erro comum é pensar que a EIT fornece (ou pretende fornecer) uma explicação da persistência. Isso não é verdade. A EIT apenas pretende descrever a maneira pela qual alguns objetos temporais persistem. A EIT deixa em aberto (i) se há uma explicação para a persistência e (ii) qual é essa explicação (se houver). A EIT é uma tese descritiva, não uma tese explicativa. Mas isso não significa que a EIT torne a persistência (ou persistência inercial) um fato bruto. Pois a EIT pode ser (e deve ser) complementada com uma ou mais explicações metafísicas. Esses relatos visam fornecer uma explicação inercialista sobre a persistência, ou seja, explicações em que a EIT é (ou poderia ser) verdadeira.

Erro nº 3: Brutalidade

Um terceiro erro é pensar que a EIT torna a persistência bruta (ou seja, não-explicada ou, talvez, inexplicável). Isto é falso. A EIT meramente pretende descrever a maneira como os objetos concretos temporais (ou algum subconjunto deles) persistem. Não envolve nada sobre se há uma explicação sobre a persistência e, se houver, qual seria essa explicação (além de ser compatível com a EIT). A EIT, portanto, não diz nada sobre se a persistência é bruta. E, como veremos mais adiante, há muitas explicações da persistência amigáveis ​​aos inercialistas. (Um 'inercialista' ou 'inercialista existencial' é aquele que aceita ou se inclina para a verdade da EIT. Uma explicação é 'inercialista-amigável' se explica a persistência de uma maneira consistente com a EIT.)

Erro nº 4: É uma propriedade

Um quarto erro é pensar que a inércia existencial é uma propriedade. Ed Feser, por exemplo, disse isso, e argumentei longamente que ele está enganado em muitas frentes. O primeiro erro neste pensamento é sua falha em desambiguar a “inércia existencial” (cf. Erro nº 1). Pode referir-se à tese (EIT) ou ao fenômeno (persistência inercial). O primeiro obviamente não é uma propriedade. Mas o fenômeno da persistência inercial por si só não implica que haja alguma propriedade exemplificada por objetos concretos correspondentes à persistência inercial. Qual seria o valor de tal propriedade? A propriedade de ser tal que persista na ausência tanto de sustentação externa quanto de fatores suficientemente destrutivos? Essa é uma propriedade ridiculamente manipulada. Não existe tal propriedade como esta. Além disso, nada na EIT como tal implica que a persistência inercial seja uma propriedade ou atributo exemplificado pelo concreto temporal. E como veremos ao discutir os relatos metafísicos da EIT, é simplesmente falso que ela exija que haja algum atributo ou propriedade correspondente à persistência inercial.

Erro nº 5: Escopo universal

Um quinto erro é pensar que a EIT, se verdadeira, se aplica a tudo — a cada evento, situação, propriedade, objeto e assim por diante. Mas isso não é verdade. A EIT, como eu e outros autores a articulamos, simplesmente diz que objetos concretos temporais ou algum subconjunto deles persistem na ausência de sustentação externa e fatores suficientemente destrutivos. Isso apenas quantifica sobre (i) um subconjunto (ii) de objetos (iii) temporais (iv) concretos.

Erro nº 6: É ateísta

Um sexto erro é pensar que a EIT é inerentemente ateísta. Isto é falso. Suponha - junto com os teístas neoclássicos - que Deus é temporal. E suponha que Deus cria e sustenta tudo à parte de si mesmo. Neste caso, a EIT é verdadeira: Deus é um objeto concreto temporal que persiste sem ser sustentado externamente e sem ser destruído. Assim, alguns subconjuntos de objetos concretos temporais persistem da maneira que a EIT descreve. Portanto, o EIT é verdadeira. Portanto, a EIT não é inerentemente ateísta. A EIT apenas exclui um cenário em que todo objeto concreto temporal é sustentado ou conservado. Isso é perfeitamente compatível com os teísmos que tornam Deus temporal, e também é compatível com os teísmos que não dão a Deus nenhum papel na explicação da existência contínua de (alguns) objetos concretos temporais.

Erro nº 7: Ônus da prova

Um sétimo erro é pensar que os defensores da EIT sempre têm o fardo de justificar positivamente a verdade da EIT. Isto é falso. Se o defensor da EIT tem o ônus de justificar positivamente a verdade da EIT depende do contexto dialético em questão. Se o contexto é aquele em que alguém está apresentando um argumento positivo para o teísmo clássico e uma das premissas requer a falsidade da EIT, tudo o que o defensor da tese precisa fazer é argumentar que nada no argumento – isto é, nada na premissa relevante ou o que é dito em seu nome — dá àqueles que aceitam (ou são neutros em relação a EIT) motivos suficientes para abandonar sua posição. O ônus, neste contexto, não é do defensor da EIT de justificar positivamente a tese e provar que a premissa em questão é falsa (provando a EIT verdadeira). Eles precisam apenas mostrar que o argumento (e o que é dito em seu nome) não prova que a EIT é falsa.

1 Comentários

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  1. Se tempo é mudança, e mesmo se fosse uma mudança imperceptível, como que, uma vez se assumindo esse fato, algo concreto temporal poderia persistir seja indestrutivamente e seja insustentalvelmente por algo externo, se 'mudar' parece real e estritamente ser o fato de uma impersistência ao invés de persistência. Poxa, se algo muda como então que é persistente?

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