Tradução: Cezar Souza
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[Nota do tradutor: essa é a segunda parte do debate entre William Lane Craig e Wielenberg, a primeira parte pode ser vista aqui]

Resumo: As duas alegadas contradições de Eric Wielenberg em minha visão de Deus, tempo e criação são facilmente resolvidas. A primeira é dissolvida apreciando que o poder de Deus para criar o universo é uma propriedade amodal que Ele pode possuir, mesmo que nunca de fato exerça esse poder. A segunda contradição se evapora quando uma visão relacional do tempo é adotada.

Eric Wielenberg argumenta que meu “relato teísta da origem do universo” é logicamente incoerente e, portanto, deve ser rejeitado. Mais especificamente, minha hipótese “de que o início do universo foi um efeito temporal de uma causa pessoal atemporal” é incoerente, porque incorpora duas contradições lógicas. A crítica de Wielenberg não visa, portanto, o argumento cosmológico kalām (KCA) em si, cuja solidez permanece inalterada por sua crítica - a menos que minha hipótese possa ser demonstrada como uma implicação de suas premissas, o que nenhum de nós afirma. Em vez disso, Wielenberg entrou na discussão de um dos tópicos mais fascinantes e recônditos da teologia filosófica: a natureza da eternidade divina e a relação de Deus com o tempo. Sua crítica será, portanto, de interesse para teólogos filósofos em geral, não apenas para partidários do KCA.
O KCA é compatível com várias interpretações da eternidade divina além da minha. Um julgamento da questão da natureza da eternidade divina exigirá, antes de mais nada, uma decisão concernente à própria natureza do tempo. Se o tempo é tenso, então é fácil ver como um ser atemporal poderia ser a causa do primeiro evento temporal como o início do universo. Pois, em uma teoria tensa do tempo, todos os eventos no espaço-tempo existem não tensamente, e a totalidade do espaço-tempo existe tão atemporalmente quanto Deus, sendo o tempo meramente um parâmetro interno que ordena seus eventos. Embora minha defesa do KCA seja baseada na teoria tensa do tempo, outros filósofos a defenderam com base no pressuposto da toria não tensa. [1]
Em seguida, teremos que considerar se uma visão relacional ou substantiva do tempo está correta. Minha hipótese é baseada no pressuposto de uma visão leibniziana, segundo a qual o tempo não existiria na absoluta ausência de eventos. Mas, em uma visão substantiva newtoniana do tempo, segundo a qual ele existiria mesmo na ausência de quaisquer eventos, novas opções se apresentam. Filósofos neo-newtonianos combinaram uma visão substantiva do tempo com a doutrina do convencionalismo métrico, a fim de argumentar que Deus existe em um tempo não-métrico anterior à criação.[2] Em tal visão, não há necessidade de regressão temporal infinita de eventos, apesar do fato de Deus existir temporalmente antes da criação.
Essas interpretações alternativas da relação de Deus com o tempo estão livres das contradições alegadas por Wielenberg contra meu relato e, portanto, mostram que a rejeição de minha explicação particular da origem do universo não precisa impactar a solidez do KCA. Em qualquer caso, tendo dedicado considerável reflexão à articulação e defesa de minha própria hipótese, [3] não acho que seja contraditório da maneira que Wielenberg alega. A hipótese de que Deus é atemporal sem a criação, mas temporal desde o primeiro momento da criação é reconhecidamente estranha, mas não consigo encontrar uma inconsistência nela. Considere, então, a primeira contradição alegada por Wielenberg:

Deus deve ser temporal em t1, porque o universo existe em t1; no entanto, Ele deve ser atemporal em t1 para ter, em t1, o poder de criar o universo. As várias visões de Craig, portanto, implicam que, em t1, Deus é temporal e atemporal - uma contradição. (2020, 3)

Em minha opinião, Deus é, de fato, temporal em t1; mas não acho que, para ter o poder de criar o universo em t1, Ele deve ser atemporal em t1 (isto é, deve ser verdade em t1 que Deus é atemporal). Mesmo em mundos possíveis em que Deus livremente se abstém de criar, de tal forma que não há nenhum tempo onde Deus existe, Ele tem o poder de criar um mundo. Onipotência é uma propriedade modal que não acarreta nenhum exercício do poder criativo de Deus. Assim, existindo atemporalmente sem o universo, Deus tem o poder de criar o universo. Seu exercício real desse poder é simultâneo com o início do universo e o primeiro momento do tempo. Portanto, a contradição é ilusória.
E a segunda alegada contradição? Wielenberg pensa que o exercício do poder causal (GA) de Deus não pode ser causalmente, mesmo se não temporalmente, anterior ao início da existência do tempo. "O problema com essa sugestão é que ela torna um evento temporal — GA— causalmente anterior ao início do tempo, o que é impossível, uma vez que tornaria a existência do tempo um pré-requisito para um evento que é causalmente anterior ao início do tempo e, portanto, exigiria que o tempo fosse causalmente anterior a si mesmo." (2020, 4–5) Wielenberg está evidentemente pressupondo uma visão substantiva do tempo, segundo o qual os momentos do tempo são explanatoriamente anteriores aos eventos que ocorrem nele. Mas, na minha visão relacional preferida do tempo, os eventos são explanatoriamente anteriores à existência do tempo. Os eventos existentes não ocorrem em momentos independentes; ao contrário, o tempo é concomitante com a ocorrência dos eventos. Se não houvesse eventos, não haveria tempo. Em uma visão relacional, a criação do universo por Deus acarreta o primeiro momento do tempo. Wielenberg pode não gostar dessa visão, mas dificilmente ela é contraditória.
Concluindo, não fui capaz de discernir em minha incomum hipótese qualquer incoerência lógica. No entanto, sou grato a Eric Wielenberg por ajudar a trazer minha opinião à atenção dos teólogos filósofos.

Notas

1. Veja Loke (2017, 67–75, 119, 141–153) e Pruss (2018).
2. Ver Lucas (1973, 311-12); Padgett (1992, 122–46); Swinburne (1993, 204-22).
3. Ver meu God, Time and Eternity (2001); The Tensed Theory of Time: A Critical Examination (2000); The Tenseless Theory of Time: A Critical Examination (2000). Para um relato popular, veja meu Time and Eternity: Exploring God’s Relationship to Time (2001).

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