I. O Tema
O monismo do
ser (ou simplesmente monismo) afirma que tudo desfruta da mesma forma de ser.
Assim, o monismo implica, por exemplo, que se existem conjuntos puros e se
existem montanhas, então os conjuntos puros existem exatamente da mesma forma
(do mesmo modo) que as montanhas. O monismo pode ser contrastado com o
pluralismo do ser (ou simplesmente pluralismo). O pluralismo afirma que algumas
entidades desfrutam de uma forma (ou modo) de ser, enquanto outras desfrutam de
outra forma (ou modo), ou outras formas (ou modos), de ser. Este artigo
argumenta que devemos rejeitar o pluralismo e endossar o monismo.1
A seguir,
assumirei que os monistas consideram o quantificador existencial, ∃, como capturando (o que eles dizem
ser) a única e exclusiva forma de ser (cf., por exemplo, van Inwagen, 1998,
237-241). Ou seja, assumirei que os monistas consideram o quantificador
existencial como abrangendo todas e somente aquelas entidades que desfrutam (o
que eles dizem ser) a única e exclusiva forma de ser. E assumirei que os
pluralistas utilizam vários quantificadores do tipo existencial — ∃1 , ∃2 , etc. — para capturar (o que eles
dizem ser) as várias maneiras de ser (cf., por exemplo, McDaniel, 2009; Turner,
2010). Usarei esses tipos de quantificadores nos argumentos deste artigo porque
eles proporcionam concisão e precisão.
Mas os
argumentos deste artigo nunca dependem essencialmente de tais quantificadores.
Poderíamos reformular esses argumentos — embora de forma mais tediosa e com
maior risco de ambiguidade — sem usar ∃
ou ∀ ou
quaisquer outros símbolos que se assemelhem a eles. Isso é bom. Pois o debate
central deste artigo não se concentra principalmente nesses símbolos. Na
verdade, esse debate gira em torno de saber se tudo goza da mesma forma de ser,
ou se, em vez disso, goza de uma ou outra de duas formas de ser, ou de uma ou
outra de três, etc. Assim, por exemplo, Duns Scotus (Ordinatio I, d. 3, parte
1, qq. 1-2) e Tomás de Aquino (ST I, Q. 13, Art. 5) podem tomar posições
opostas nesse debate, apesar de ambos não serem versados em lógica de
primeira ordem e seu aparato quantificacional.
II. Um Problema para o
Pluralismo
Existem
muitas versões de pluralismo. Bertrand Russell (1912, 89-100) e G. E. Moore
(1903, 29 e 111) afirmam que os objetos concretos têm uma maneira de ser e os
objetos abstratos outra. Tomás de Aquino (ST I.3.5; ST I.13.5) diz que Deus
existe de uma maneira e as criaturas de outra. Alguns citam Aristóteles dizendo
que entidades que diferem em relação à sua Categoria diferem em sua maneira de
ser.2 E, claro, existem outras versões de pluralismo além dessas,
como, por exemplo, a versão defendida por Heidegger (1927).3
Vamos nos
concentrar na seguinte versão de pluralismo, que é obviamente inspirada por
Russell e Moore: tudo existe1 ou existe2, todos os objetos concretos existem1 e
todos os objetos abstratos existem2. Para deixar claro que essa visão não é
apenas monismo descrito de forma enganosa, vamos adicionar explicitamente que
`existir1` não é a mesma coisa que `existir2`, 'existe1' não é uma abreviação
de 'existe' e é concreto, e 'existe2' não é uma abreviação de 'existe' e é
abstrato.
Seja ∃1 abrangendo todas e somente aquelas
entidades que existem1 e ∃2
abrangendo todas e somente aquelas que existem2. Assim, os defensores do
pluralismo de duas formas de ser descrito acima têm dois quantificadores
semelhantes ao existencial. Novamente, a visão deles não é apenas monismo
descrito de forma enganosa. Portanto, vamos adicionar explicitamente que ∃1 não é definido como ∃ (o quantificador existencial)
restrito a objetos concretos, e ∃2
não é definido como ∃
restrito a objetos abstratos.
A seguinte
bicondicional envolvendo ∃
é familiar: ∀xFx se e
somente se ~(∃x~Fx).
Nossas duas formas de ser pluralistas devem endossar bicondicionais paralelas: ∀1 xFx se e somente se ~(∃1 x~Fx) e ∀2 xFx se e somente se ~(∃2 x~Fx). Essas bicondicionais
paralelas permitem que nossos pluralistas de duas formas de ser introduzam dois
quantificadores do tipo universal, ∀1
e ∀2, que
podem ser interdefinidos com ∃1
e ∃2,
respectivamente.
Considere
esta afirmação: ∀1
x(x é concreto). Essa afirmação é consistente com a existência de entidades que
existem2 e não são concretas. Portanto, essa afirmação não implica que tudo
seja concreto. Isso ilustra que ∀1
não é totalmente geral. Nem ∀2.
Isso sugere que nossos pluralistas não têm um quantificador do tipo universal
totalmente geral. Ou seja, sugere que nossos pluralistas não têm um
quantificador universal. Então, vamos assumir — para fins de argumentação nesta
seção — que nossos pluralistas não possuem um quantificador universal.
(Retomarei essa suposição na Seção III.)
Nossos
pluralistas de duas formas de ser não possuem um quantificador universal.
Portanto, eles não podem se valer de um quantificador universal para afirmar
que tudo é assim e assado. Mas nossos pluralistas precisam ser capazes — de
alguma forma — de fazer afirmações nesse sentido. Isso porque a versão deles de
pluralismo é, em si, tal afirmação. Pois o pluralismo de duas formas de ser afirma
que tudo ou existe1 ou existe2.⁴
Como veremos,
uma conclusão central deste artigo é que os pluralistas não podem, por si
mesmos, afirmar que tudo é assim e assado. Portanto, os pluralistas não podem,
por si mesmos, apresentar versões específicas de pluralismo — pelo menos não
sem incorrer em sérios problemas (Seção III). Mas estamos nos adiantando.
Então, vamos voltar um pouco. E consideremos uma tentativa pluralista recente
de afirmar que tudo ou existe1 ou existe2.
Isto é, consideremos:
(1) ∀1x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x)) e ∀2x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x))
Jason Turner
(2010, 33), um defensor do pluralismo, propôs (1) como uma maneira de formular
o pluralismo de dois modos de ser. E Michael Loux (2012) e Peter van Inwagen
(2014), que são opositores do pluralismo, parecem concordar que (algo
relevantemente idêntico a) (1) é a melhor tentativa dos nossos pluralistas de
formular sua visão.
Não é difícil
perceber por que (1) pode parecer uma maneira natural de formular o pluralismo
de dois modos de ser e, em particular, por que (1) pode parecer uma afirmação
sobre tudo. Afinal, nossos pluralistas pensam que tudo ou existe1 ou existe2.
Portanto, se fizermos uma afirmação sobre todas as entidades no domínio de ∀1 e também sobre todas as entidades no
domínio de ∀2,
então, segundo a perspectiva dos nossos pluralistas, não teremos deixado nada
de fora. E assim, segundo a perspectiva deles, teremos feito uma afirmação
sobre tudo.
Como
observado acima, ∀1
e ∃1 podem
ser definidos um pelo outro, assim como ∀2
e ∃2.
Devido à forma como podem ser definidos mutuamente, (1) é uma verdade lógica.5
Todos deveriam endossar verdades lógicas. Logo, todos deveriam endossar (1).
Portanto, os monistas deveriam endossar (1). Mas os monistas não deveriam
endossar o pluralismo de dois modos de ser. Logo, (1) falha em formular o
pluralismo de dois modos de ser.
Há uma
ressalva. Alguns monistas podem alegar que a compreensão do pluralista sobre ∃1 e ∃2 é incoerente. (Lembre-se de que nem ∃1 nem ∃2 são definidos como uma restrição de ∃.) Como resultado, esses monistas
objetarão que (1) é ininteligível (e, portanto, não é verdadeiro e,
consequentemente, não é uma verdade lógica). Visto que esses monistas
consideram (1) ininteligível, eles não deveriam endossar (1). Mas eles também
deveriam concluir que (1), por ser ininteligível, não formula nada. Portanto,
deveriam concordar que (1) falha em formular o pluralismo de dois modos de ser.
Podemos sustentar o ponto que levantei acima — de que os monistas deveriam
aceitar (1) — sem depender do fato de que (1) é uma verdade lógica. Em vez
disso, podemos considerar o que (1) diz sobre o mundo. (1) afirma tanto que tudo
o que existe1 ou existe1 ou existe2 quanto que tudo o que existe2 ou existe1 ou
existe2. O que (1) diz é verdadeiro mesmo que nada exista1 e nada exista2. Isso
ocorre porque o que (1) diz é trivial.6 Todos deveriam subscrever
essa trivialidade. Portanto, os monistas deveriam subscrevê-la. Contudo, os
monistas não deveriam subscrever o pluralismo de dois modos de ser. Logo, essa
trivialidade não expressa o pluralismo de dois modos (ou maneiras) de ser.
Eu próprio
parto do pressuposto de que o pluralismo é coerente. Mas suponhamos — apenas
para fins de argumentação — que essa suposição esteja incorreta. Nesse caso,
alguns dos argumentos deste artigo em favor da conclusão de que devemos
rejeitar o pluralismo fracassarão, e fracassarão justamente porque o pluralismo
é incoerente. Mas isso não ajuda em nada o pluralista. Pois, se o pluralismo é
incoerente, então existe obviamente um outro caminho (muito curto) para a
conclusão final deste artigo: a de que devemos rejeitar o pluralismo.
Suponhamos que o pluralismo seja coerente. Então, como vimos acima, os monistas deveriam subscrever (1). Portanto, (1) não expressa o pluralismo de dois modos (ou maneiras) de ser. Assim, deixemos (1) de lado. Passemos a:
(2) ∀1x(∃1y(y=x) or ∃2y(y=x)) e ∀2x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x)) e ∃1x(x=x) e∃2x(x=x)7
(2) é a
conjunção de (1) e das afirmações de que algo existe1 e de que algo existe2. Os
monistas não podem aceitar (2). Pois os monistas negam que algo exista1 e negam
que algo exista2. (Lembre-se de que "existe1" não é uma abreviação
para "existe" e é concreto, e "existe2" não é uma
abreviação para "existe" e é abstrato.)
Os monistas
não podem aceitar (2). Mas (2) ainda falha em enunciar o pluralismo de duas
maneiras de ser. Pois considere os pluralistas de três maneiras (ou modos) de
ser. Esses pluralistas pensam que as duas primeiras conjunções de (2) equivalem
a uma trivialidade lógica. E esses pluralistas pensam que algo existe1 e algo
existe2. Portanto, esses pluralistas deveriam endossar (2). Mas esses
pluralistas rejeitam o pluralismo de duas maneiras de ser. Pois esses
pluralistas — esses pluralistas de três maneiras de ser — não pensam que tudo
existe1 ou existe2. Esses pluralistas pensam que algumas entidades (não
existem1 nem existem2, mas) desfrutam de uma terceira maneira de ser. Assim,
alguns que rejeitam o pluralismo de duas maneiras de ser deveriam endossar (2).
Logo, (2) não enuncia o pluralismo de duas maneiras de ser.
Os
pluralistas de três maneiras de ser deveriam endossar (2). Essa é uma evidência
definitiva de que (2) falha em enunciar o pluralismo de duas maneiras de ser.
Mas isso não explica por que (2) falha. Para começar a ver por que (2) falha,
imagine alguns excêntricos que sustentam que as únicas coisas que existem são
x, y e z. Eles também endossam:
(3) x é azul,
y é azul e z é azul.
Como nossos
excêntricos pensam que não há nada além de x, y e z, eles considerarão que (3)
faz uma afirmação sobre tudo. Afinal, segundo a perspectiva deles, (3) não
deixa nada de fora.
No entanto,
(3) não enuncia nem implica — nem mesmo segundo a perspectiva deles — que tudo
é azul. Pois a afirmação de que tudo é azul implica que é falso que exista um
objeto não azul e, portanto, implica que é falso que exista um objeto não azul
distinto de x, y e z. E, embora nossos excêntricos pensem que não há nada além
de x, y e z, eles ainda assim reconhecem que (3) não implica que seja falso que
exista um objeto não azul distinto de x, y e z.
Lembre-se:
(1) ∀1x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x)) e ∀2x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x))
Como
observado acima, (1), sob a perspectiva dos nossos pluralistas de dois modos de
ser, não omite nada. (2) é simplesmente (1) mais: ∃1x(x=x) e ∃2x(x=x). Portanto, (2), sob a
perspectiva dos nossos pluralistas de dois modos de ser, não omite nada. Mesmo
assim, refletir sobre (3) deixa claro que nem (1) nem (2) afirmam ou implicam
que tudo existe1 ou existe2. Portanto, (2) não afirma que tudo existe1 ou
existe2 e algo existe1 e algo existe2. É por isso que (2) não consegue afirmar
o pluralismo de dois modos de ser.
Suponha —
ainda que apenas para fins de argumentação — que ser abstrato seja simplesmente
não ser concreto. Suponha também que todo concreto exista1 e todo abstrato
exista2. Então algo poderia (não existir1 e não existir2, mas) desfrutar de uma
terceira maneira (ou modo) de ser somente se fosse — impossivelmente — nem
concreto nem não concreto. Isso sugere que uma maneira de enunciar o pluralismo
de dois modos de ser começa combinando (2) com a afirmação de que todos os
concretos existem1 (e, portanto, estão no domínio de ∀1) e todos os abstratos existem2 (e, portanto,
estão no domínio de ∀2).
Essa
estratégia para enunciar o pluralismo de dois modos de ser só terá sucesso se
nossos pluralistas de dois modos de ser puderem enunciar a afirmação de que
todos os concretos existem1. Portanto, considere esta tentativa:
(4) ∀1x (se x é concreto, então x existe1)
(4) diz
apenas que, para todo x que existe1, se x é concreto, então x existe1;
portanto, (4) é trivial; essa trivialidade não exclui a afirmação de que alguns
objetos concretos desfrutam de uma terceira maneira (ou modo) de ser. Suponha
que adicionássemos a seguinte conjunção a (4): ∀2x (se x é concreto, então x existe1);
essa conjunção apenas nos dá o resultado de que, para todo x que existe2, se x
é concreto, então x existe1; (4), mesmo com essa conjunção adicionada, não
exclui a afirmação de que alguns objetos concretos desfrutam de uma terceira maneira
(ou modo) de ser.
Como
observado no início desta seção, nossos pluralistas de dois modos de ser pensam
que todo concreto existe1 e todo abstrato existe2. Como acabamos de ver, nossos
pluralistas de dois modos de ser enfrentam os mesmos obstáculos ao afirmar que
tudo o que é concreto existe1, assim como enfrentam ao afirmar que tudo existe1
ou existe2. E, claro, o mesmo vale para afirmar que tudo o que é abstrato
existe2.8
Como veremos
na Seção III, se nossos pluralistas podem superar esses obstáculos e afirmar
que tudo existe1 ou existe2, então eles também podem superar esses obstáculos e
afirmar que todo concreto existe1 e que todo abstrato existe2. Portanto,
afirmar essas últimas afirmações não apresenta dificuldades que já não tenham
sido apresentadas pela afirmação anterior. Com isso em mente — e motivado pelo
desejo de ser sucinto — assumirei, no que se segue, que afirmar que tudo existe1
ou existe2 (e que algo existe1 e algo existe2) é suficiente para enunciar o
tipo relevante de pluralismo de dois modos de ser. (Ou seja, não exigirei que
uma declaração da visão inclua explicitamente as afirmações adicionais de que
todo concreto existe1 e que todo abstrato existe2.)
Considere mais
uma vez:
(2) ∀1x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x)) e ∀2x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x)) e ∃1x(x=x) e ∃2x(x=x)
Os defensores
do pluralismo de dois modos de ser poderiam tentar formular sua posição
combinando (2) com a seguinte afirmação: ~(∃3x(x=x)). No entanto, uma formulação
do pluralismo de dois modos de ser deve fazer mais do que introduzir um
terceiro (ou quarto...) quantificador de tipo existencial e, em seguida,
acrescentar a (2) a afirmação de que não existe nenhum x que possua o modo de
ser supostamente captado por esse quantificador. Portanto, (2) combinada com ~(∃3x(x=x)) não formula o pluralismo de
dois modos de ser.9
Nossos
defensores do pluralismo de dois modos de ser poderiam tentar formular sua
posição combinando (2) com a afirmação de que nada mais existe.
Presumivelmente, eles entenderão a frase "nada mais existe" como uma
forma abreviada da afirmação de que nada mais existe1 ou existe2 (mas veja a
seção III).10 A verdade trivial de que nada existe1 ou existe2 além
daquilo que existe1 e daquilo que existe2 não exclui o pluralismo de três modos
de ser. Tampouco o faz (2) combinada com essa verdade trivial. Assim, (2)
combinada com a afirmação de que nada mais existe não formula o pluralismo de
dois modos de ser, pelo menos não da maneira como os defensores desse
pluralismo entenderão tal afirmação (mas veja a seção III).
Poder-se-ia
sugerir que os defensores do pluralismo de dois modos de ser podem formular sua
posição combinando (2) com a negação da afirmação de que existem pelo menos
três modos de ser. Essa sugestão envolve contar os próprios modos de ser.
Responderei a essa sugestão apenas na seção IV, que trata das tentativas de
formular versões específicas de pluralismo por meio da contagem dos modos de
ser. Portanto, deixemos tais tentativas de lado por enquanto.
Esta seção
concentrou-se especificamente no pluralismo de dois modos de ser, em parte
porque essa versão do pluralismo é um tópico mais manejável do que, digamos, o
pluralismo de trinta e sete modos de ser. Contudo, os argumentos desta seção
são generalizáveis para todas as versões específicas de pluralismo. Ou seja,
uma formulação do pluralismo de *n* modos de ser modelada em (2) será aceitável
para os defensores do pluralismo de *n+1* modos de ser e, mais importante, não
afirmará que tudo possui um ou outro desses *n* modos de ser.11
Nesse
sentido, considero falso que (2) nos leve à maior parte do caminho para
formular o pluralismo de dois modos de ser, necessitando apenas de algum
acréscimo óbvio (como, por exemplo, ~(∃3x(x=x)))
para resultar em uma formulação completa. O mesmo vale para tentativas de
formular outras versões específicas de pluralismo modeladas em (2). Portanto,
acredito que os defensores de versões específicas de pluralismo precisam de uma
nova abordagem para formular suas respectivas visões — uma abordagem que não
comece por (2) ou por formulações modeladas em (2).
Examinarei
duas dessas abordagens, concentrando-me, como mencionado anteriormente, na
formulação da versão do pluralismo de dois modos de ser segundo a qual tudo ou
existe1 ou existe2 (e algo existe1 e algo existe2). A primeira abordagem parte
do uso, pelos defensores do pluralismo de dois modos de ser, do quantificador
universal ∀,
levando-os a adotar o que chamarei de "existência genérica" (§III).
A segunda abordagem parte da tentativa, por parte desses mesmos defensores, de
afirmar que existem exatamente dois modos de ser (§IV).
III. Existência Genérica
Suponha que
nossos pluralistas quanto aos modos de ser estipulem que as afirmações feitas
com o uso de ‘∀’
são abreviações de afirmações feitas em termos de ∀1 e ∀2. Por exemplo, eles estipulam que ‘∀x(Fx)’ é uma abreviação para: ∀1x (Fx) e ∀2x (Fx). Então, eles propõem:
(5) ∀x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x)) e ∃1x(x=x) e ∃2x(x=x)
Esses
pluralistas — devido à sua definição estipulativa de ‘∀’ — considerarão (5) como uma
abreviação de:
(2) ∀1x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x)) e ∀2x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x)) e ∃1x(x=x) e ∃2x(x=x)
Como vimos,
(2) não expressa o pluralismo de dois modos de ser (§II). Portanto, ao
estipularmos que somos pluralistas de dois modos de ser, devemos concluir que
(5) não expressa o pluralismo de dois modos de ser.
Se
interpretarmos (5) por meio da definição estipulativa de ‘∀’ apresentada acima, (5) não consegue
expressar o pluralismo de dois modos de ser. Consideremos, então, pluralistas
de dois modos de ser que abandonam a definição estipulativa de ‘∀’ mencionada e, assim, não consideram
(5) como uma forma abreviada de (2). Em particular, consideremos pluralistas de
dois modos de ser que pretendem adotar o quantificador universal, ∀, tal como é ordinariamente entendido.
Esses
pluralistas de dois modos de ser adotam o quantificador universal, ∀. Consequentemente, adotam também o
quantificador existencial, ∃,
uma vez que ∃ pode
ser interdefinido com ∀
por meio de bicondicionais familiares. Tendo isso em mente, consideremos a
seguinte afirmação:
(6) ∃x(x=x)
Alguns
pluralistas poderiam considerar (6) como uma forma abreviada da afirmação de
que ou algo (auto-idêntico) existe1 ou algo (auto-idêntico) existe2. Nesse
caso, teriam de considerar ∀x(Fx)
como uma forma abreviada de: ∀1x(Fx)
e ∀2x(Fx).
(Isso decorre da maneira como ∀
e ∃ podem
ser interdefinidos.) E, então, retornariam à interpretação de (5) já
considerada, segundo a qual (5) é uma forma abreviada de (2).
Suponhamos,
portanto, que nossos pluralistas não considerem (6) como uma forma abreviada da
afirmação de que ou algo (auto-idêntico) existe1 ou algo (auto-idêntico)
existe2. Ainda assim, eles deveriam insistir que (6) afirma que algo
(auto-idêntico) existe, ou tem ser, ou é alguma coisa. Afinal, nossos
pluralistas de dois modos de ser consideram que ∃ é interdefinido com o quantificador
universal tal como ordinariamente entendido e, portanto, deveriam considerar ∃ como o quantificador existencial tal
como ordinariamente entendido. Tendo tudo isso em mente, estipulemos que
"existe genericamente" não é uma forma abreviada para qualquer
disjunção do tipo: existe1 ou existe2 (ou existe3...). E acrescentemos que
existir genericamente é, não obstante, existir, ou ter ser, ou ser algo.
Podemos, então, afirmar sucintamente como os nossos pluralistas de "dois
modos de ser" entendem (6). Eles interpretam (6) como a afirmação de que
algo (idêntico a si mesmo) existe genericamente. Pois, repita-se, eles entendem
que (6) diz que algo existe (ou tem ser...), mas negam que (6) seja uma forma
abreviada para a afirmação de que ou algo existe1 ou algo existe2. Nossos
pluralistas também devem insistir que tudo existe genericamente.13
Pois, assim, podem dizer que o ∀
— que pode ser interdefinido com o ∃
— é realmente o quantificador universal tal como ordinariamente entendido.14
Temos agora
uma nova versão do pluralismo de dois modos de ser, uma versão que difere do
pluralismo de dois modos de ser discutido na Seção II. Pois esta nova versão
não está comprometida apenas com a afirmação de que tudo ou existe1 ou existe2.
Ela também está comprometida com a afirmação adicional de que tudo também
existe genericamente.15 A versão do pluralismo de dois modos de ser
da Seção II não estava comprometida com isso. De fato, permita-me agora
acrescentar explicitamente o que eu havia pressuposto o tempo todo: a saber,
que a versão do pluralismo de dois modos de ser da Seção II considera falso que
qualquer coisa exista genericamente. (Lembre-se: "existe
genericamente" não é uma forma abreviada para: existe1 ou existe2.)
Mais uma vez,
nossos novos pluralistas de "duas maneiras de ser" sustentam que tudo
existe genericamente. Eles poderiam considerar existir genericamente tão
fundamental quanto existir1 e a existir2. Ou poderiam considerar a existir
genericamente como menos fundamental do que (fundamentada em) existir1 e
existir2.16 Essa segunda opção não deve ser confundida com a visão
dos pluralistas da seção anterior deste artigo, segundo a qual algumas
entidades existem1 e outras existem2, mas nenhuma existe genericamente. Pois,
se nenhuma entidade existe genericamente, então é falso tanto que tudo existe
genericamente quanto que a existência genérica de uma entidade que é menos
fundamental do que (é fundamentada na) existência1 ou na sua existência2.
Considere
como nossos novos pluralistas de "duas maneiras de ser"
interpretarão:
(5)
∀x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x)) e ∃1x(x=x) e ∃2x(x=x)
Nossos novos
pluralistas deveriam afirmar que a primeira conjunção de (5) equivale à tese de
que tudo o que existe genericamente existe ou como *existe1* ou como *existe2*.
Não é isso que as duas primeiras conjunções do seguinte enunciado significam:
(3) ∀1x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x)) e ∀2x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x)) e ∃1x(x=x) e ∃2x(x=x)
Assim, os
defensores dessa nova versão do pluralismo de dois modos de ser devem negar que
(5) seja uma forma abreviada de (2). Mais importante ainda, os defensores dessa
nova versão do pluralismo de dois modos de ser podem insistir que (5) exclui,
entre outras coisas, o pluralismo de três modos de ser. E, o que é mais
importante, eles podem considerar que (5) expressa a sua posição.17
Isso ocorre porque podem interpretar a primeira conjunção de (5) — ao contrário
das duas primeiras conjunções de (2) — como a afirmação de que tudo existe1 ou
existe2.18
Esta seção
concentrou-se em interpretações concorrentes de (5), interpretações que, por
sua vez, dependem de como entendemos o símbolo lógico "∀". No entanto, o debate central
deste artigo não trata de símbolos lógicos. Trata-se, antes, de modos de ser
(§I). Portanto, deve ser possível defender os pontos principais desta seção sem
recorrer a afirmações sobre símbolos lógicos. Tendo isso em mente, deixemos (5)
de lado por enquanto. E voltemo-nos para a questão de saber se os nossos
pluralistas podem simplesmente expressar a sua posição da seguinte forma: tudo
existe1 ou existe2 (e algo existe1 e algo existe2).
Suponhamos
que os nossos pluralistas considerem a sentença "Algo não é F" como
uma forma abreviada da afirmação de que ou algum não-F existe1 ou algum não-F
existe2. Eles então considerariam a sentença "Não é o caso que algo não
seja F" como uma forma abreviada da afirmação de que não é o caso que
algum não-F exista1 e não é o caso que algum não-F exista2. Acrescente-se que
eles (juntamente com todos os outros) subscrevem o seguinte: tudo é F se, e
somente se, não for o caso de que algo não seja F. Então — dada a maneira como
interpretam "Algo não é F" —, eles considerarão a sentença "Tudo
é F" como uma abreviação para a afirmação de que tudo o que existe1 é F e
tudo o que existe2 é F. Assim, considerarão a sentença "Tudo existe1 ou
existe2" como uma abreviação para a afirmação trivial de que tanto tudo o
que existe1 ou existe1 ou existe2, quanto tudo o que existe2 ou existe1 ou
existe2. Essa afirmação trivial não enuncia o pluralismo de dois modos de ser
(cf. §II).
Portanto,
assumamos caridosamente que nossos pluralistas de dois modos de ser não
interpretam a sentença "Algo não é F" como uma abreviação para a
afirmação de que ou um não-F existe1 ou um não-F existe2. Naturalmente, nossos
pluralistas devem atribuir algum significado à sentença "Algo não é
F". E devem considerar que essa sentença, devido ao seu significado,
exclui a afirmação de que tudo é F. Assim, nossos pluralistas deveriam
interpretar "Algo não é F" como significando que um não-F existe, ou
tem ser, ou é algo, sem que nada disso seja uma abreviação para a afirmação de
que ou um não-F existe1 ou um não-F existe2. Em outras palavras, eles deveriam
interpretar "Algo não é F" como significando que um não-F existe
genericamente. E, uma vez que dispõem da existência genérica, nossos
pluralistas de dois modos de ser podem enunciar sua posição da seguinte forma:
tudo o que existe genericamente ou existe1 ou, alternativamente, existe2 (e algo
existe1 e algo existe2).
Dessa forma,
chegamos ao mesmo resultado obtido quando começamos com (5). Ou seja, chegamos
ao resultado de que apenas aqueles pluralistas de dois modos de ser dispostos a
aceitar a existência genérica — e, portanto, dispostos a se afastar da versão
original do pluralismo de dois modos de ser apresentada na Seção II — podem
formular afirmações do tipo "tudo é assim e assado" e podem, em
particular, enunciar o pluralismo de dois modos de ser. Nesse aspecto, a nova
versão do pluralismo de "dois modos de ser" apresentada nesta seção
representa um avanço em relação à versão da Seção II. No entanto, sustento que
nenhum pluralista deveria endossar essa nova versão do pluralismo. Apresento
três razões para isso.
A primeira
razão parte da observação de que o pluralismo de "dois modos de ser"
pode ser motivado pela convicção, pela compreensão ou pela intuição de que é
falso afirmar que objetos abstratos e concretos existem da mesma maneira. Daí a
afirmação de Moore:
"É
absolutamente certo que dois objetos naturais podem existir; mas é igualmente
certo que o próprio 'dois' não existe e jamais poderá existir. Dois mais dois
são quatro. Mas isso não significa que o 'dois' ou o 'quatro' existam. Contudo,
isso certamente significa algo. O 'dois' é, de alguma maneira (ou algum modo),
embora não exista." (Moore, 1903, 111)
Eis também o
que diz Bertrand Russell:
"Suponha,
por exemplo, que eu esteja em meu quarto. Eu existo e meu quarto existe; mas
será que o 'em' existe? No entanto, é óbvio que a palavra 'em' tem um significado;
ela denota uma relação que se estabelece entre mim e meu quarto. Essa relação é
algo, embora não possamos dizer que ela exista no mesmo sentido em que eu e meu
quarto existimos." (Russell, 1912, 90)
Moore afirma
ser "absolutamente certo" que objetos naturais possuem um modo de ser
e "igualmente certo" que esse modo de ser não é compartilhado pelo
"dois" e pelo "quatro". Russell afirma que "não
podemos dizer" que uma relação existe no mesmo sentido em que o próprio
Russell existe.19 Essas observações expressam a convicção, a
compreensão ou a intuição de que é falso afirmar a existência de um modo de ser
compartilhado tanto por objetos concretos quanto por abstratos.20
Como é
evidente, essa convicção (ou *insight*, ou intuição) contradiz a afirmação de
que existe um modo de ser compartilhado tanto por entidades concretas quanto
por abstratas. Portanto, essa convicção contradiz a afirmação de que entidades
concretas e abstratas existem, ambas, de modo genérico. Consequentemente, essa
convicção não serve de base para a nova versão do pluralismo de "dois
modos de ser" apresentada nesta seção. Pelo contrário, aqueles que
compartilham essa convicção devem rejeitar essa nova versão do pluralismo,
visto que ela implica que entidades concretas e abstratas existem, ambas, de modo
genérico. No entanto, considero que essa convicção constitui a melhor
fundamentação para o pluralismo. Assim, essa nova versão do pluralismo
contradiz a sua própria melhor fundamentação. Essa é a primeira razão pela qual
os pluralistas não deveriam endossar essa nova versão do pluralismo.
Há uma
segunda razão. Para compreender essa segunda razão, devemos primeiro entender
uma objeção natural ao pluralismo. Essa objeção é expressa pelo que o próprio
van Inwagen descreve como um "desabafo" contra a versão de Russell
(1912) do pluralismo de dois modos de ser:
"Não,
Russell, não! Relações são vastamente diferentes de mesas, sim, mas isso
significa apenas que os membros de uma dessas duas classes de objetos possuem
naturezas vastamente diferentes das dos membros da outra — que as propriedades
das relações são vastamente diferentes das propriedades das mesas. Por exemplo,
as relações, como você diz, não estão no espaço e no tempo, enquanto as mesas
estão no espaço e no tempo. Pronto. Ao dizer isso, é exatamente isso que você
disse. As relações carecem da propriedade da espaço-temporalidade, e as mesas a
possuem. Essa é uma diferença enorme entre relações e mesas, tudo bem... Mas,
ao descrever as propriedades radicalmente diferentes que relações e mesas
possuem, você não apenas fez tudo o que é necessário para descrever a vasta
diferença entre elas, como também fez tudo o que pode ser feito para
descrevê-la. É nisso que consiste descrever uma vasta diferença. Pare de tentar
fazer algo a mais quando não há mais nada a ser feito: pare de tentar expressar
a vastidão da diferença entre relações e mesas dizendo que elas possuem tipos
diferentes de ser." (2014, 23)21
A nova versão
do pluralismo apresentada nesta seção é especialmente vulnerável a essa objeção
natural. Pois suponha que existam mesas e que existam relações. Então, essa
nova versão do pluralismo de dois modos de ser implica que uma mesa e uma
relação existem da mesma maneira — isto é, cada uma existe genericamente —,
embora difiram quanto a, por exemplo, serem concretas ou, em vez disso,
abstratas. Essa implicação sustenta a ideia de que endossar a afirmação
adicional de que uma mesa *existe1* e uma relação *existe2* é, nas palavras de
van Inwagen, "tentar fazer algo a mais quando não há mais nada a ser
feito".
Veja da
seguinte forma. Nossa nova versão do pluralismo de dois modos de ser afirma que
as entidades que *existem1* são todas e apenas aquelas entidades que existem
genericamente e são concretas. Esta nova versão também reafirma a tese de que
as entidades que existem são todas e apenas aquelas que existem genericamente e
são abstratas. Uma vez afirmadas essas duas teses, concordamos com o monista
que existem entidades — existindo da mesma maneira — que diferem quanto a serem
concretas ou, alternativamente, abstratas. E, uma vez concordando com isso,
parece realmente um erro acrescentar que existe um outro modo de ser
correlacionado ao ser concreto, e ainda outro correlacionado ao ser abstrato.
(E por que escolher modos de ser correlacionados a essas diferenças específicas
entre entidades que existem genericamente, em vez de outros?)
A versão do
pluralismo de dois modos de ser apresentada nesta seção difere da versão da
Seção II ao afirmar que tudo existe genericamente. Como acabamos de ver, essa
diferença torna a nova versão particularmente vulnerável à objeção de que os
pluralistas postulam uma diferença no ser onde, na verdade, há apenas uma
diferença de tipo entre entidades que existem da mesma maneira. Essa é a
segunda razão pela qual os pluralistas deveriam rejeitar a nova versão do
pluralismo apresentada nesta seção.
Há uma
terceira razão. Para começar a compreender essa terceira razão, suponha que
você endosse a máxima de Aristóteles de que o ser não é um gênero (*Metafísica*
B 998 b21). E suponha, além disso, que você interprete essa máxima como uma
motivação para o pluralismo sobre o ser. (Talvez você entenda que essa máxima
implica que "ser" não é predicado univocamente de toda e qualquer
entidade.) Então, creio que você também deveria afirmar ser falso que a
existência genérica seja um gênero. E creio, ainda, que você deveria
interpretar essa afirmação como uma motivação para a visão de que é falso que
toda e qualquer entidade exista genericamente.
Outra
motivação historicamente influente para o pluralismo sobre o ser é apresentada
por Maimônides e Aquino, entre outros. Suponha que, pelo fato de Deus existir
de uma certa maneira, possamos predicar essa maneira de existência de Deus. E
suponha que, pelo fato de as criaturas existirem de uma certa maneira, possamos
predicar essa maneira de existência das criaturas. Acrescente-se, então, que
"a predicação unívoca é impossível entre Deus e as criaturas"
(Aquino, *ST* I, Q. 13, Art. 5). Tudo isso implica que o modo como Deus existe
não é idêntico ao modo como as criaturas existem. Portanto, tudo isso implica
um pluralismo quanto ao ser.
Aqueles que
vedam a predicação unívoca entre Deus e as criaturas tipicamente restringem
essa proibição de alguma maneira. Por exemplo, no *Guia dos Perplexos*,
Maimônides parece restringi-la a propriedades positivas. Uma abordagem
correlata consiste em restringir tal proibição a propriedades intrínsecas.
Contudo, essas restrições não invalidam a motivação recém-apresentada para o
pluralismo quanto ao ser. Isso ocorre porque existir de uma determinada maneira
é algo tanto positivo quanto intrínseco.
O mesmo vale
para o existir genericamente. Isto é, o existir genericamente é algo positivo e
intrínseco. Assim, a proibição da predicação unívoca entre Deus e as criaturas
— mesmo que restrita de uma das maneiras mencionadas acima — implica que não
podemos predicar univocamente o existir genericamente de Deus e das criaturas.
Portanto, isso implica que é falso que Deus e as criaturas existam
genericamente da mesma forma. Consequentemente, implica que é falso que tudo exista
genericamente.22
A doutrina da
simplicidade divina fornece outra motivação teológica para o pluralismo sobre o
ser, uma motivação explicitamente apresentada por Aquino (ST I, Q. 3, Art. 5).
A simplicidade divina implica que Deus é idêntico aos seus atributos
intrínsecos (cf. Stump, 2012, p. 135). Acrescente-se a isso que o modo (ou
modos) de ser de uma entidade é (ou são) intrínseco(s). Então, a simplicidade
divina implica que Deus é idêntico ao seu modo de ser. Nenhum modo de ser
próprio de uma criatura é idêntico a Deus. Logo, nenhum modo de ser próprio de
uma criatura é idêntico a um modo de ser próprio de Deus. Isso implica o
pluralismo sobre o Ser.23 E também implica que é falso que Deus e as criaturas
existam genericamente da mesma forma (maneira ou modo). Portanto, implica que é
falso que tudo exista genericamente.
Aqui está a
minha terceira e última razão para afirmar que os pluralistas deveriam rejeitar
a nova versão do pluralismo apresentada nesta seção. Essa nova versão implica
que todas as entidades — propriedades, números, montanhas, Deus, criaturas,
tudo — existem genericamente. Essa implicação está claramente em tensão com os
tipos de visões que praticamente todos os pluralistas tentaram articular e
defender. Essa tensão é ilustrada pelo fato de que — como acabamos de ver —
motivações historicamente influentes para o pluralismo são incompatíveis com a
afirmação de que todas as entidades existem genericamente. E essa tensão não é
surpreendente. Isto é, não é surpreendente que o pluralismo sobre o ser esteja
em tensão com a ideia de que existe um único modo de ser compartilhado por
tudo.
IV. Contando os Modos de
Ser
Suponhamos
que afirmar a existência de exatamente duas maneiras (ou dois modos) de ser
permitiria formular um pluralismo de duas maneiras de ser. Se existem exatamente
duas maneiras de ser, então existem maneiras de ser. Isto é, se existem
exatamente duas maneiras de ser, então maneiras de ser existem2.24 Presumo
que os nossos pluralistas de duas maneiras de ser dirão que maneiras de ser
existem2. Afinal, eles já afirmaram que entidades abstratas existem2, e presumo
que as maneiras de ser devam ser consideradas abstratas.
Assim,
suponhamos que maneiras de ser existam2. Então, uma maneira natural de os
nossos pluralistas de duas maneiras de ser tentarem formular a tese de que
existem exatamente duas maneiras de ser poderia ser:
(7) ∃2x∃2y∀2z(x é um modo de ser e y é um modo de
ser e x≠y e se z é um modo de ser, então z=x ou z=y)
Mas (7) não
enuncia essa tese. Pois (7) é compatível com a negação de que existam exatamente
duas maneiras de ser. Para perceber isso, considere um pluralista defensor de
três maneiras de ser que pense haver uma terceira maneira de ser e que, além
disso, sustente que essa terceira maneira de ser não existe2 (mas, em vez
disso, desfrute de alguma outra maneira de ser). Tal pluralista poderia aceitar
(7).
Esse ponto é
passível de generalização. Ou seja, tentativas de enunciar a tese de que
existem exatamente *n* maneiras de ser, modeladas a partir de (7), podem ser
aceitas por quem acredita que existem *n+1* maneiras de ser. Esse ponto é um
sintoma. O problema fundamental é que (7) não enuncia que existem exatamente
duas maneiras de ser. Tampouco, para qualquer *n*, teses modeladas a partir de
(7) enunciam que existem exatamente *n* maneiras de ser. Tais teses enunciam,
em vez disso, que existem exatamente *n* maneiras de ser que existem2.
Pluralistas
defensores de duas maneiras de ser poderiam responder dizendo que (7), por si
só, não enuncia a tese de que existem exatamente duas maneiras de ser. Eles
poderiam argumentar, antes, que essa tese é enunciada por (7) em conjunto com:
~(∃3x(x é
uma maneira de ser)). Mas essa combinação não consegue enunciar tal tese. Pois
a enunciação dessa tese deve fazer mais do que introduzir um terceiro
quantificador de tipo existencial e, então, acrescentar a (7) a afirmação de
que nenhuma maneira de ser desfruta da maneira de ser supostamente captada por
esse quantificador. Em vez disso, a enunciação da tese de que existem
exatamente duas maneiras de ser deve acrescentar a (7) a afirmação de que
nenhuma maneira de ser desfruta de qualquer maneira de ser que não seja a
existência2. Em outras palavras, deve acrescentar a afirmação de que toda
maneira de ser existe2.
Tendo isso em
mente, considere:
(8) ∀2x(se
x é uma forma de ser, então x existe2)
(8) diz
apenas que, para todo x que existe2, se x é um modo de ser, então x existe2.
Portanto, (8) é uma trivialidade que todos deveriam aceitar. E essa
trivialidade não exclui a afirmação de que existe um terceiro modo de ser, o qual
não existe2. Suponha que acrescentássemos a seguinte conjunção a (8): ∀1x (se x é um modo de ser, então x
existe2). Mesmo com esse acréscimo, (8) não excluiria a afirmação de que existe
um terceiro modo de ser, o qual possui um terceiro modo de ser. Nem a conjunção
de (7) e (8) o faria. Assim, essa conjunção não expressa a tese de que existem
exatamente dois modos de ser.
Outra
tentativa de formular o pluralismo de dois modos de ser poderia começar negando
que existam pelo menos três modos de ser. Considere, então:
(9) ~(∃2x∃2y∃2z(x é um modo de ser e y é um modo de
ser e z é um modo de ser e x≠y e y≠z e z≠x))
(9) nega que
existam pelo menos três modos de ser que existem2. Mas (9) não nega que existam
pelo menos três modos de ser.
Veja desta
forma. (9) é consistente com a seguinte conjunção: ∃2x∃2y(x é um modo de ser e y é um modo de
ser e x≠y) e ∃3x(x é
um modo de ser e ~(x existe1 ou x existe2)). E ninguém que subscreva essa
conjunção é adequadamente descrito como alguém que nega a existência de pelo
menos três modos de ser. Novamente, (9) não nega que existam pelo menos três
modos de ser.
Essas
observações sobre (9) ilustram um ponto mais geral. Parece que os pluralistas
não conseguem formular a negação da afirmação de que existem pelo menos *n*
modos de ser. Em vez disso, os pluralistas só podem negar que existam pelo
menos *n* modos de ser que possuam certos modos de ser especificados, como, por
exemplo, existência1 ou existência2.25
Esta seção
apontou alguns obstáculos enfrentados pelos pluralistas de dois modos de ser ao
tentarem afirmar que existem exatamente dois modos de ser. Tais obstáculos
devem parecer bastante familiares. Isso ocorre porque eles são semelhantes aos
obstáculos — apontados na Seção II — que os pluralistas de dois modos de ser
enfrentam ao tentar formular o próprio pluralismo de dois modos de ser. Como
vimos na Seção III, os obstáculos da Seção II podem ser superados por aqueles
capazes de fazer afirmações do tipo "tudo é de tal e tal maneira". O
mesmo vale para os obstáculos apontados nesta seção.
Uma maneira
de fazer afirmações do tipo "tudo é de tal e tal maneira" é recorrer
ao quantificador universal, ∀,
conforme entendido habitualmente. Por exemplo, podemos afirmar que existem
exatamente dois modos de ser combinando (7) com: ∀x(se x é um modo de ser, então x
existe2). E existem outras formas de afirmar que existem exatamente dois modos
de ser, uma vez que dispomos de ∀
e, consequentemente, de ∃
(que pode ser definido em termos de ∀).
Por exemplo, podemos combinar (7) com a negação da afirmação de que existem
pelo menos três modos de ser; Essa negação pode ser formulada como: ~(∃x∃y∃z (x é um modo de ser e y é um modo de
ser e z é um modo de ser e x≠y e y≠z e z≠x)). Ainda outro exemplo substitui (7)
por: ∃x∃y∀z(x
é um modo de ser e y é um modo de ser e x≠y e se z é um modo de ser, então z=x
ou z=y).
Podemos
formular versões específicas de pluralismo se, e somente se, pudermos fazer
afirmações no sentido de que tudo é de tal e tal maneira. Se pudermos fazer
tais afirmações, então podemos formular essas versões — como nesta seção — por
meio da contagem dos modos de ser. Ou podemos formular essas versões — como na
seção anterior — sem contar os modos de ser. Só se pode subscrever uma versão
específica de pluralismo se for possível formular essa versão. Portanto,
concluo que aqueles que subscrevem uma versão específica de pluralismo devem
considerar-se capazes de fazer afirmações no sentido de que tudo é de tal e tal
maneira.
Como vimos na
Seção III, os pluralistas podem, segundo sua própria perspectiva, fazer tais
afirmações apenas se negarem que elas sejam formas abreviadas de afirmações
sobre tudo o que existe1 ou existe2 (ou existe3...). Em vez disso, os
pluralistas podem, segundo sua própria perspectiva, fazer afirmações no sentido
de que tudo é de tal e tal maneira se, e somente se, considerarem que tais
afirmações invocam (o que chamei de) existência genérica.
Se os
defensores de uma versão específica de pluralismo não subscrevem a existência
genérica, então não podem — segundo sua própria perspectiva — formular sua
versão de pluralismo. Mas, nesse caso, deveriam concluir que não podem
subscrever sua versão. (Só se pode subscrever aquilo que se pode formular.)
Concluo que aqueles que não subscrevem a existência genérica não deveriam
subscrever nenhuma versão específica de pluralismo.
Por outro
lado, uma versão de pluralismo que subscreve a existência genérica é falsa se a
afirmação que melhor motiva o pluralismo for verdadeira, for particularmente
vulnerável a uma objeção natural ao pluralismo e estiver em tensão com a
maneira como praticamente todos os pluralistas entenderam o pluralismo (§III).
Concluo que aqueles que subscrevem a existência genérica não deveriam
subscrever o pluralismo.
V. Expondo e Motivando o
Monismo
Os monistas
acreditam que tudo possui exatamente uma maneira de ser e que essa maneira de
ser é captada por ∃.
Assim, a seguinte sentença poderia parecer expressar o monismo:
(10) ∀x(∃y(y=x))
No entanto,
devido à forma como ∀
e ∃ podem
ser definidos um em termos do outro, (10) é uma trivialidade lógica. Portanto,
todos deveriam aceitar (10). Logo, os pluralistas deveriam aceitar (10). Mas
nenhum pluralista deveria aceitar o monismo. Consequentemente, (10) não
expressa o monismo.
O mesmo vale
para:
(11) ∀x(∃y(y=x)) e ∃x(x=x)26
Considere
aqueles pluralistas que (contradizem a melhor motivação para o pluralismo,
etc., e) dizem que tudo existe genericamente. Eles acrescentarão que a
existência genérica é capturada por ∃.
Esses pluralistas deveriam aceitar (11). Portanto, alguns pluralistas deveriam
aceitar (11). Nenhum pluralista deveria aceitar o monismo. Logo, (11) não
afirma o monismo.
Mas podemos
formular o monismo. Por exemplo, podemos formulá-lo assim: ∃x∀y(x
é um modo de ser e, se y é um modo de ser, então y=x). Ou: tudo desfruta do
mesmo modo de ser. Ou: toda entidade existe genericamente e não desfruta de
nenhum outro modo de ser. Essas formulações do monismo invocam a existência
genérica, seja explícita ou implicitamente. Por exemplo, a primeira formulação
só é bem-sucedida porque ‘∀’
e ‘∃’ não
são tomados como abreviações para, respectivamente, ∀1 e ∀2 (e ∀3…) e ∃1 ou ∃2 (ou ∃3…); assim, tal afirmação invoca
implicitamente a existência genérica (ver §III).
Nenhuma das
maneiras mencionadas de formular o monismo expressa uma trivialidade. Pois, se
fossem triviais, então — assim como (10) acima — falhariam em expressar o
monismo. Portanto, o monismo, não menos do que (por exemplo) o pluralismo de
dois modos de ser, é uma tese substantiva. Visto que o monismo é uma tese
substantiva, ele deve ser motivado. E pode ser motivado.
A primeira
motivação para o monismo é simplesmente a convicção, a percepção ou a intuição
de que é falso que existam entidades que diferem quanto aos modos de ser de que
desfrutam, mesmo que essas entidades difiram enormemente em sua natureza. Ou
talvez a convicção, a percepção ou a intuição relevante aqui seja a de que existe
exatamente um modo de ser.
Peter van
Inwagen oferece uma segunda motivação:
"…os
números podem contar qualquer coisa: se você escreveu treze poemas épicos e eu
possuo treze gatos, então o número de seus poemas épicos é o número dos meus
gatos. Mas a existência está estreitamente ligada ao número. Dizer que
unicórnios não existem é dizer… que o número de unicórnios é 0; dizer que
cavalos existem é dizer que o número de cavalos é 1 ou mais. E dizer que anjos,
ideias ou números primos existem é dizer que o número de anjos, ou de ideias,
ou de números primos, é maior que 0. A univocidade do número e a conexão íntima
entre número e existência deveriam nos convencer de que há, no mínimo, uma
razão muito boa para pensar que a existência é unívoca." (1998, 236)
Aqui está uma
terceira motivação. Comece com a afirmação de que ∃ "recorta a natureza nas suas
articulações". Acrescente, então, que, uma vez que ∃ recorta nas articulações, afirmações
feitas em termos de ∃
não podem ser formas abreviadas de afirmações disjuntivas. Portanto, afirmações
feitas em termos de ∃
não podem ser formas abreviadas de afirmações disjuntivas feitas em termos de ∃1 e ∃2 (ou ∃1 e ∃2 e ∃3 ou...). Conclua que afirmações
feitas utilizando ∃
equivalem a afirmações sobre entidades que existem genericamente. Acrescente
que, se o pluralismo for verdadeiro, então é falso que entidades existam
genericamente (veja a §III). Conclua, então, que o monismo é verdadeiro.27
Deve ser
óbvio que essas três motivações para o monismo não são contraditas pela
afirmação de que tudo existe genericamente, nem estão em tensão com ela. Pelo
contrário, essas motivações para o monismo — assim como qualquer motivação para
o monismo — são, elas próprias, motivações para a afirmação de que tudo existe
genericamente. Pois qualquer motivação para o monismo motiva a afirmação de que
é falso que algumas coisas existam1 ou algumas coisas existam2 (ou algumas
coisas existam3). Assim, as motivações para o monismo motivam,
consequentemente, a afirmação de que "Tudo existe" não é uma forma
abreviada de: tudo existe1 ou existe2 (ou existe3...). Em outras palavras, as
motivações para o monismo motivam, consequentemente, a afirmação de que tudo
existe genericamente.
Acabei de
apresentar três motivações para o monismo. E existem outras motivações (veja,
por exemplo, Williamson, 1987/1988; McGee, 2006). E existem objeções a essas
motivações (veja, por exemplo, Turner, 2010). Tudo isso é perfeitamente
aceitável. Pois não apresentei essas três motivações com o intuito de catalogar
todas as motivações para o monismo, nem de dar a palavra final a favor do
monismo. Em vez disso, apresentei-as para ilustrar um contraste entre o monismo
e o pluralismo.
Aqui está
esse contraste. Tanto a melhor motivação para o pluralismo quanto as motivações
historicamente influentes para o pluralismo contradizem a afirmação de que tudo
existe genericamente (§III). Mas as motivações para o monismo apoiam, em vez de
contradizer, a afirmação de que tudo existe genericamente.
Aqui está um
contraste semelhante. A tese de que tudo existe genericamente torna o
pluralismo mais vulnerável a uma objeção natural e entra em conflito com os
tipos de visão que praticamente todos os pluralistas tentaram articular e
defender (§III). Contudo, a tese de que tudo existe genericamente não gera
problemas análogos para o monismo. Pelo contrário, tal tese é parte integrante
do monismo.28
A tese de que
tudo existe genericamente cria dificuldades para as motivações do pluralismo,
bem como para o próprio pluralismo. No entanto, essa tese não cria qualquer
dificuldade para as motivações do monismo ou para o próprio monismo. Esse é um
ponto a favor do monismo em relação a versões específicas do pluralismo. Isso
ocorre porque, como vimos neste artigo, tanto os defensores do monismo quanto os
defensores de uma versão específica do pluralismo precisam afirmar que tudo
existe genericamente para expor suas respectivas visões.
VI. Outra Motivação para
o Monismo
Recorde-se:
(2) ∀1x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x)) e ∀2x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x)) e ∃1x(x=x) e ∃2x(x=x)
Como
observado na Seção II, (2) não é suficiente para o pluralismo de dois modos de
ser. Mas é suficiente para o pluralismo inespecífico, o qual — ao contrário das
versões específicas de pluralismo — não especifica exatamente quantos modos de
ser existem. Da mesma forma, incluem-se entre os pluralistas inespecíficos
aqueles que não têm opinião sobre o número total de modos de ser, mas possuem a
convicção, a compreensão ou a intuição de que conjuntos puros existem de uma
maneira e montanhas existem de outra.
Tanto (2)
quanto a convicção (ou compreensão...) mencionada acima são suficientes para o
pluralismo inespecífico. E tanto (2) quanto essa convicção podem ser enunciados
sem que se faça uma afirmação do tipo "tudo é de tal e tal maneira".
Assim, tanto (2) quanto essa convicção podem ser enunciados sem recorrer à
existência genérica. Portanto, nem (2) nem essa convicção implicam que tudo
existe genericamente. Consequentemente, é possível enunciar e endossar
afirmações suficientes para o pluralismo inespecífico sem contradizer a melhor
motivação para o pluralismo, sem tornar o pluralismo mais vulnerável a uma
objeção natural e sem dizer algo que entre em conflito com o tipo de visão que
a maioria dos pluralistas defendeu (ver §III). Esse é um ponto a favor do
pluralismo inespecífico em relação às versões específicas de pluralismo.
Mas o
pluralismo inespecífico não está livre de problemas. Para começar a entender o
motivo, lembre-se de que argumentei, ao longo deste artigo, que os pluralistas
não podem, segundo seus próprios critérios, afirmar que tudo existe1 ou
existe2. E não podem, segundo seus próprios critérios, afirmar que tudo o que é
um modo de ser existe2. Eles não podem, segundo seus próprios critérios, fazer
essas afirmações e outras semelhantes porque não podem, segundo seus próprios
critérios, enunciar afirmações do tipo "tudo é de tal e tal maneira".
Ou seja, eles não podem fazer afirmações do tipo "tudo é de tal e tal
maneira" sem contradizer a melhor motivação para o pluralismo, etc.
(§§II-IV). Isso vale para todos os pluralistas, inclusive os inespecíficos. E
afirmo que isso constitui um problema para todos os pluralistas, inclusive os
inespecíficos.
Você poderia
argumentar que isso não é um problema, pelo menos não especificamente para os
pluralistas. Pois você poderia alegar que nenhum de nós pode fazer afirmações
do tipo "tudo é de tal e tal maneira". Mas você não pode, segundo
seus próprios critérios, responder dessa forma. Pois, se nenhum de nós pode
fazer afirmações no sentido de que tudo é de tal e tal maneira, então você não
pode fazer uma afirmação no sentido de que tudo é de tal modo que não podemos
dizer, a respeito disso, que é de tal e tal maneira. Isto é, você não pode
fazer a afirmação de que não podemos fazer afirmações no sentido de que tudo é
de tal e tal maneira. (Este é um ponto conhecido, levantado, por exemplo, por
Lewis (1991, 68), Williamson (2003, 427-8) e Rayo e Uzquiano (2006, 3).)
Além disso,
digo que podemos — e de fato fazemos — afirmações no sentido de que tudo é de tal
e tal maneira. E fiz várias dessas afirmações ao longo deste artigo, como a
afirmação de que tudo existe genericamente. Ou considere um tipo de exemplo bem
diferente. Não existem unicórnios. E acabei de afirmar que não existem
unicórnios. Portanto, podemos afirmar que não existem unicórnios. A afirmação
de que não existem unicórnios é simplesmente a afirmação de que tudo é um
não-unicórnio. Logo, podemos fazer a afirmação de que tudo é um não-unicórnio.
Assim, podemos fazer afirmações no sentido de que tudo é de tal e tal maneira.
Podemos fazer
afirmações no sentido de que tudo é de tal e tal maneira. Portanto, ninguém
deveria ser um pluralista de qualquer tipo, específico ou não específico. Em
vez disso, deveríamos ser monistas. Pois os monistas podem — sem contradizer
nenhuma das motivações para sua visão, etc. — acomodar a afirmação de que as
coisas são como parecem ser. Isto é, os monistas podem, segundo sua própria
perspectiva, reconhecer que podemos afirmar — e de fato afirmamos — que não
existem unicórnios; que tudo é auto-idêntico; que tudo existe; que, para todo
x, se x é um cachorro, então x é um mamífero; que nada é idêntico a um quadrado
redondo; e assim por diante.29
Notas
1 Turner
(2010) chama o pluralismo sobre o ser de “pluralismo ontológico”. Não uso o
rótulo de Turner apenas porque “monismo ontológico” seria um rótulo inadequado
para o monismo sobre o ser, sugerindo, em vez disso, a visão de que apenas o
Uno existe.
2 Frede
(1981) e Witt (1989, 42-3) consideram que Aristóteles defende que existe um
modo de ser para cada categoria aristotélica. (Witt (2003, 2-3) acrescenta que
a potencialidade e a atualidade marcam outros modos de ser para Aristóteles.)
Por outro lado, Loux (2012) argumenta que Aristóteles não é pluralista sobre o
ser.
3 Cada uma
das versões de pluralismo mencionadas anteriormente é consistente com (o que
chamarei de) pluralismo não específico, que é defendido de forma proeminente na
literatura contemporânea por McDaniel (2009; 2010; 2017). Objetarei ao
pluralismo não específico na Seção VI. Mas o pluralismo não específico não é
alvo dos argumentos nos §§II-IV, que visam versões específicas de pluralismo.
4 Ver
McDaniel (2009, 301-305) e Merricks (2001, 169) para mais razões pelas quais os
pluralistas, em particular, precisam fazer afirmações no sentido de que tudo é
assim e assado.
5 Tanto
Turner (2010) quanto van Inwagen (2014) fazem essa observação. Turner
acrescenta que o fato de (1) ser uma verdade lógica explica, portanto, a
necessidade de tudo ser concreto ou abstrato (Turner, 2010, 32-33; ‘(29)’ é o
nome que ele dá a (1)). Como veremos, nego que (1) implique que tudo seja
concreto ou abstrato; portanto, também nego que (1) explique por que tudo é
concreto ou abstrato por necessidade.
6 Compare
isso com a afirmação de Loux (2012) de que a interpretação pluralista da
observação de Aristóteles de que “o ser é dito de muitas maneiras” torna
trivial a ideia de que tudo existe de uma maneira ou de outra de uma lista
específica de maneiras.
7 Suponha que
o pluralismo seja necessariamente verdadeiro, se é que é verdadeiro. E suponha
que seja contingente se existem quaisquer concretos. Então, devemos revisar (2)
substituindo ‘∃1x(x=x)’
por ‘à(∃1x(x=x))’.
(E se for contingente se existem quaisquer abstratos, devemos substituir ‘∃2x(x=x)’ por ‘à(∃2x(x=x))’.) Um (2) revisado dessa
forma é tão vulnerável às minhas objeções quanto a versão de (2) no texto.
8 Nossos
pluralistas não devem tentar contornar esses obstáculos identificando o
existente1 com o concreto e identificando o existente2 com o abstrato. Pois
então a visão de que algumas coisas existem1 e outras existem2 equivaleria a
nada mais do que a visão de que algumas coisas são concretas e outras
abstratas. Essa visão é consistente com o monismo e, portanto, não produz
pluralismo.
9 Exatamente
pela mesma razão, também não produz pluralismo a combinação de (2) e a negação
de: ∀1x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x) ou ∃3y(y=x)) e ∀2x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x) ou ∃3y(y=x)) e ∀3x(∃1y(y=x) ou ∃2y(y=x) ou ∃3y(y=x)) e ∃1x(x=x) e ∃2x(x=x) e ∃3x(x=x).
10 Outra
opção para os pluralistas de dois modos de ser é considerar “nada mais existe”
como ambíguo, significando — em uma desambiguação — que nada mais existe¹ ou —
em outra — que nada mais existe². Essa opção apresenta os mesmos problemas que
a opção considerada no texto.
11
Poder-se-ia defender uma versão de pluralismo que afirma que as entidades
desfrutam de um ou outro dos infinitos modos de ser (cf. Yagisawa, 2010). Seria
um erro levar a sério a ideia de que as entidades desfrutam de um ou outro dos
“infinitos + 1” modos de ser. No entanto, uma afirmação infinitamente longa
modelada em (2) poderia ser aceita por aqueles que consideram que as entidades
desfrutam de um ou outro de todos os modos de ser invocados nessa afirmação,
mais um não invocado. Isso ocorre porque uma afirmação infinitamente longa
modelada em (2) não afirma que tudo desfruta de um ou outro dessa lista
particular infinitamente longa de modos de ser.
12 Suponha
que ‘∃x(x=x)’
seja uma abreviação para: algo existe1 ou existe2. Então ‘~(∃x~Fx)’ será uma abreviação para: não é
o caso que algum não-F exista1 e não é o caso que algum não-F exista2.
Acrescente que ∀xFx
e ~(∃x~Fx)
são equivalentes. Conclua então que ‘∀xFx’
é uma abreviação para: tudo o que existe1 é um F e tudo o que existe2 é um F.
Ou seja: ∀1x(Fx) e
∀2x(Fx).
13 Portanto,
nossos pluralistas insistirão que ‘existe genericamente’ não significa existe1,
e não significa existe2 (e não significa existe3…).
14 McDaniel
(2009, 296-302) argumenta que Heidegger endossa justamente esse tipo de
existência genérica, que McDaniel (2009, 302) chama de “sentido genérico de
‘ser’”.
15 Assim,
esta nova versão do (que estou chamando, e continuarei chamando, de) pluralismo
de dois modos de ser implica que três modos de ser são desfrutados. Mas
claramente não é o (que continuarei chamando de) pluralismo de três modos de
ser introduzido anteriormente (§II).
16 Não creio
que nossos novos pluralistas de dois modos de ser afirmariam que existir
genericamente é mais fundamental do que existir1 e existir2. (Alguns
pluralistas contemporâneos insistiriam até que o pluralismo é inconsistente com
a afirmação de que a existência genérica é mais fundamental do que a
existência1 e a existência2; veja especialmente McDaniel (2009, 312-4), mas
também Turner (2010, 1-9).) Mas, para que conste, minhas observações sobre a
existência genérica no que se segue são consistentes com cada uma das seguintes
afirmações: a existência genérica ser tão fundamental quanto a existência1 e a
existência2, a existência genérica ser menos fundamental do que a existência1 e
a existência2, e a existência genérica ser mais fundamental do que a
existência1 e a existência2.
17 Há uma
complicação. Um tipo improvável de pluralista de três modos de ser poderia
endossar (5), mas acrescentar que algumas, mas não todas, das entidades que
existem1 ou existem2 também desfrutam de um terceiro modo de ser (além da
existência genérica). Penso que esta complicação é mais facilmente resolvida
por aqueles que quantificam sobre modos de ser (§IV) e, portanto, podem dizer,
por exemplo, que se uma entidade existe1, então todo modo de ser desfrutado por
essa entidade é idêntico à existência1 ou à existência genérica. Mas ignorarei
esta complicação no que se segue, assumindo, para efeitos de argumentação, que
não é um problema sério para o pluralismo. (Se esta complicação se revelasse um
problema sério para o pluralismo, então, naturalmente, isso apenas reforçaria a
conclusão final deste artigo de que devemos rejeitar o pluralismo.)
18 Munidos da
existência genérica e da capacidade de, segundo os seus próprios critérios,
quantificar sobre tudo, os defensores desta nova versão do pluralismo também
poderiam apresentar a sua visão como (2) combinada com a afirmação de que nada
mais existe. Pois — ao contrário dos pluralistas dos dois modos de ser do §II —
os nossos novos pluralistas dos dois modos de ser interpretarão “nada mais
existe” como significando que nada mais existe genericamente, em oposição a
nada mais existe1 ou existe2. Nossos novos pluralistas de duas formas de ser
também podem afirmar que todo concreto existe1 como: ∀x (se x é concreto, então x existe1);
um ponto semelhante vale para sua afirmação de que todo abstrato existe2.
19 Este
artigo discute a versão do pluralismo encontrada em Russell (1912), em oposição
a uma versão anterior do pluralismo defendida por Russell (1903, 449-51), a
qual parece, de fato, endossar a existência genérica. Russell apresenta uma
motivação para essa versão anterior. Em minha opinião — e, suspeito fortemente,
na opinião do autor de "On Denoting" —, essa motivação não vale a
pena ser explorada. Mas aqui vai uma amostra: "...os deuses homéricos...
têm ser, pois, se não fossem entidades de um certo tipo, não poderíamos
formular proposições sobre eles" (Russell, 1903, 449). (Veja Caplan (2011,
esp. 105n30) para uma discussão sobre o pluralismo de Russell por volta de
1903.)
20 Essa
motivação para o pluralismo também pode ser encontrada, por exemplo, em Witt
(1989, 42) e, aparentemente, nas falas de muitos alunos de graduação que cursam
a disciplina de metafísica com Kris McDaniel (2017, Introdução). Segundo uma
variante dessa motivação — defendida, de uma forma ou de outra, por Husserl,
Heidegger e Meinong —, a convicção relevante é justificada (ou causada) pela
fenomenologia de certas experiências (veja McDaniel, 2010).
21 Será que é
o uso excessivo de itálico que transforma isto em um desabafo?
22 McDaniel
discordaria. McDaniel (2010, 693) acredita que tal proibição deveria
restringir-se a propriedades "perfeitamente naturais", e ele negaria
que existir genericamente seja algo perfeitamente natural.
23 Como acaba
de ser observado, a simplicidade divina motiva diretamente o pluralismo. Ela
também motiva o pluralismo indiretamente, ao motivar a proibição da predicação
unívoca entre Deus e as criaturas (veja Stump, 1997, 254-5).
24 Portanto,
nem todo pluralista estará disposto a contabilizar os modos de ser. Por
exemplo, Heidegger (1927) sustenta, de forma célebre, que o Ser não é um ente.
25 Assim, temos uma resposta à sugestão — mencionada na Seção II — de que os
pluralistas de "dois modos de ser" podem expressar sua posição
combinando (2) com a negação da afirmação de que existem pelo menos três modos
de ser.
26 Suponha
que o monismo seja necessariamente verdadeiro, caso seja verdadeiro. E suponha
que, possivelmente, nada exista. Então, altere a segunda conjunção de (11)
para: ¬(∃x(x=x)).
27 Grande
parte dessa terceira motivação ecoa a abordagem da metaontologia defendida, por
exemplo, por Sider (2009).
28 Isso
ocorre porque o seguinte é parte integrante do monismo: "x existe"
não é uma forma abreviada da afirmação de que x existe1 ou x existe2 ou...
29
Agradecimentos a: Jonathan Barker, Elizabeth Barnes, Michael Bergmann, Ross
Cameron, Troy Cross, Jim Darcy, Matt Duncan, Derek Lam, Joe Lenow, John Mahlan,
Andrei Marasoiu, Kris McDaniel, Paul Nedelisky, Michael Rea, Bradley Rettler,
Nick Rimell, Raul Saucedo, Alex Skiles, Donald Smith, Peter Tan, Adam Tiller,
Christopher Tomaszewski, Peter van Inwagen e Thomas Williams. Agradecimentos
também aos participantes das palestras realizadas na reunião da SCP durante a
Eastern APA de 2016, na Conferência sobre Eliminativismo (Ovronnaz, Suíça) e na
Universidade de Georgetown.
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